A SANASA, responsável pelo saneamento de Campinas (SP), acaba de entrar em um grupo internacional que merece atenção dos gestores brasileiros: a companhia foi reconhecida pela Water Environment Federation (WEF) no programa Utility of the Future Today 2026, especificamente na categoria Water Reuse — reúso de água. A empresa aparece entre apenas cinco organizações reconhecidas pela primeira vez nesta edição, em uma iniciativa que reuniu 33 utilities por avanços em áreas como reúso, recuperação de recursos, energia, nutrientes, gestão de bacias e relacionamento com comunidades.
O reconhecimento não deve ser interpretado como um simples prêmio institucional — nem como um ranking que colocou a SANASA em determinada posição entre “as melhores do mundo”. O programa da WEF avalia práticas que aproximam as empresas do conceito de utility do futuro, no qual uma estação de tratamento deixa de ser vista apenas como infraestrutura destinada a retirar poluentes do esgoto e passa a funcionar como plataforma de recuperação de água, recursos e valor econômico.
Para o profissional de saneamento, é justamente aí que o caso se torna interessante. A pergunta não é apenas por que a SANASA foi reconhecida. A questão estratégica é: o que precisa mudar dentro de uma companhia para que o esgoto tratado deixe de ser somente um passivo ambiental e se transforme em fonte de água, receita, segurança hídrica e competitividade regional?
O que exatamente aconteceu
O programa Utility of the Future Today existe desde 2016 e já reconheceu mais de 240 utilities. Ele é desenvolvido pela WEF em parceria com a National Association of Clean Water Agencies, Water Research Foundation, WateReuse Association e U.S. Water Alliance, com participação da Environmental Protection Agency dos Estados Unidos.
Na edição de 2026, a SANASA entrou como First-Time Honoree na área Water Reuse. Portanto, o ponto central do reconhecimento é o reúso de água, e não simplesmente o desempenho geral da companhia.
Isso faz diferença.
Campinas já apresenta indicadores elevados de saneamento. No Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil, elaborado com dados do SINISA referentes a 2024, o município alcançou a pontuação máxima nos critérios gerais da metodologia e terminou em terceiro lugar após o critério de desempate, atrás de Franca e São José do Rio Preto. O levantamento registrou 99,80% de atendimento total de água e 96,61% de atendimento total de esgoto.
Mas o reconhecimento internacional aponta para outro estágio do desenvolvimento: não basta universalizar. É preciso elevar a produtividade dos ativos existentes e transformar aquilo que antes seria descartado em um novo recurso.
O reúso de água está no centro dessa transformação
A principal referência da SANASA nessa área é a Estação Produtora de Água de Reúso Capivari II, a EPAR Capivari II.
A instalação utiliza tratamento avançado baseado em lodos ativados com remoção de nitrogênio e fósforo seguido de membranas filtrantes. Documentos técnicos da companhia identificam a tecnologia como MBR — Membrane Bioreactor, ou biorreator com membranas.
Em um sistema convencional de lodos ativados, microrganismos degradam a matéria orgânica e posteriormente é necessária uma etapa de separação entre biomassa e líquido tratado. No MBR, membranas funcionam como uma barreira física altamente eficiente nessa separação.
O resultado é um efluente de qualidade muito superior àquela exigida para simples lançamento após tratamento secundário, abrindo espaço para usos urbanos e industriais.
A SANASA historicamente comunica que a EPAR produz água com aproximadamente “99% de pureza”. Esse número é útil para comunicação, mas tecnicamente profissionais devem ter cuidado com essa expressão. Água de reúso não deve ser avaliada por um percentual genérico de pureza.
O critério correto é fit for purpose: a qualidade precisa ser adequada ao uso pretendido. Isso envolve parâmetros microbiológicos, sólidos, nutrientes, matéria orgânica e, dependendo da finalidade, sais, metais, compostos específicos e outros contaminantes.
Esse detalhe aparentemente técnico é fundamental para entender para onde a regulação brasileira está caminhando.
De uma ETE para uma fábrica de água
A mudança de nomenclatura de ETE para Estação Produtora de Água de Reúso representa uma mudança conceitual importante.
Uma ETE tradicional recebe esgoto, trata e lança o efluente no ambiente dentro dos padrões legais.
Uma EPAR acrescenta outra pergunta:
Quem pode utilizar essa água antes que ela seja devolvida ao rio?
Quando isso ocorre, o operador começa a enxergar o sistema de esgotamento como parte da infraestrutura de oferta hídrica.
A EPAR Capivari II iniciou sua implantação há mais de uma década. Em 2013, a SANASA informava investimento de aproximadamente R$ 91 milhões em uma primeira etapa e outros R$ 81 milhões na etapa seguinte do Sistema Capivari II, incluindo infraestrutura de coleta e transporte de esgoto.
O projeto foi concebido não apenas para melhorar a qualidade do efluente lançado no Rio Capivari, mas também para criar uma fonte alternativa de água para atividades que não precisam consumir água potável.
Irrigação paisagística, lavagem de ruas, desobstrução de redes, combate a incêndios e determinados processos industriais estão entre as aplicações citadas pela companhia.
Essa lógica ganha importância em uma região economicamente intensa e dependente das bacias PCJ.
O próximo salto é comercial
Produzir água de reúso é apenas metade do problema.
A outra metade é encontrar quem compre essa água, transportá-la economicamente até o usuário e garantir demanda suficiente para remunerar os investimentos.
Esse é um ponto muitas vezes subestimado em projetos de reúso de água.
Uma ETE pode produzir um efluente excelente e, ainda assim, o projeto comercial ser inviável se os principais consumidores estiverem muito distantes.
Tubulações, bombeamento, reservação, energia, tratamento complementar e redundância operacional podem representar parcela relevante do custo.
É por isso que localização importa.
O Plano de Segurança da Água da SANASA identificou um potencial estratégico de três EPARs: Capivari II, Boa Vista e Anhumas. No documento, as capacidades indicadas somam 1.845 litros por segundo, considerando os estágios previstos naquele momento. Capivari II está próxima ao Distrito Industrial de Campinas e de Viracopos, enquanto Boa Vista e Anhumas possuem localização potencialmente favorável para atendimento industrial na direção de Paulínia.
Em 2022, a própria SANASA assinou memorando de entendimentos com a Aegea para avaliar oportunidades de exploração do mercado de reúso industrial na Região Metropolitana de Campinas.
A mensagem para outras companhias é clara: reúso precisa entrar também no planejamento comercial.
Não basta perguntar quanto a ETE consegue produzir.
É preciso mapear quem pode comprar, quanto consome, qual qualidade necessita, qual preço aceita pagar, qual distância existe entre oferta e demanda e qual segurança contratual será necessária.
Aquapolo mostra o potencial do modelo industrial
O principal benchmarking brasileiro é o Aquapolo, na Região Metropolitana de São Paulo.
O empreendimento possui capacidade instalada de produção de aproximadamente 650 litros por segundo, com possibilidade de alcançar 1.000 L/s. Em 2025, informava fornecer cerca de 450 L/s para nove clientes distribuídos por 14 plantas industriais no ABC paulista.
O modelo demonstra uma característica importante do reúso industrial: demanda concentrada pode mudar completamente a viabilidade econômica.
Uma indústria capaz de consumir grandes volumes continuamente permite contratos de longo prazo, infraestrutura dedicada e previsibilidade de receita.
Isso aproxima o saneamento de uma lógica normalmente associada aos setores de energia e gás: infraestrutura estruturada em torno de um comprador âncora.
Para companhias com ETEs próximas a polos petroquímicos, siderúrgicos, fábricas, mineração, data centers, indústrias de alimentos ou grandes complexos logísticos, essa análise deveria fazer parte do planejamento estratégico.
O mundo já trata esgoto como fonte hídrica
A experiência internacional mostra que o reúso de água pode avançar muito além de aplicações urbanas.
Na Califórnia, o Groundwater Replenishment System, operado pelo Orange County Water District em parceria com o Orange County Sanitation District, possui capacidade de produzir até 130 milhões de galões por dia — aproximadamente 492 mil m³/dia.
O volume é suficiente para atender às necessidades equivalentes de quase um milhão de pessoas. O sistema utiliza purificação avançada e destina a água à recarga do aquífero utilizado para abastecimento.
A principal lição de Orange County não é apenas tecnológica.
Duas organizações distintas — uma ligada ao esgoto e outra à gestão hídrica — precisaram construir um modelo institucional, financeiro e operacional compartilhado. Também houve investimento intenso em comunicação para conquistar confiança pública.
Em Singapura, o conceito foi levado ainda mais longe.
O NEWater, produzido pela PUB, transforma água residuária tratada em água de altíssima qualidade usando processos que incluem microfiltração, osmose reversa e desinfecção ultravioleta. Parte importante do produto atende indústrias de alta tecnologia e processos que exigem água com elevada qualidade.
Publicações da PUB indicam que o NEWater já consegue atender aproximadamente 40% das necessidades hídricas de Singapura. Com o crescimento da demanda, novas unidades estão sendo implantadas, inclusive uma fábrica em Tuas projetada para 75 milhões de galões por dia.
A comparação mostra como o conceito evolui: o esgoto deixa de representar o fim do ciclo da água.
Ele se transforma em matéria-prima do próximo ciclo.
A regulação brasileira está chegando ao tema
Há outro motivo para gestores acompanharem o caso da SANASA.
O reúso de água está deixando de ser uma iniciativa isolada de algumas empresas e avançando para dentro do ambiente regulatório nacional.
A Resolução CNRH nº 54/2005 já estabelece modalidades e critérios gerais para o reúso direto não potável. Entretanto, o novo marco legal do saneamento atribuiu à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico competência para produzir norma de referência sobre reúso de efluentes sanitários tratados.
Em 2025 e 2026, a ANA avançou na elaboração da norma.
A minuta submetida à consulta pública propôs um modelo que pode alterar significativamente a forma como titulares, reguladores e prestadores tratam o assunto. Entre os pontos previstos estão estudos de viabilidade técnico-econômica, definição de responsabilidades, gestão de riscos, contratos de fornecimento e identificação sistemática de oportunidades.
Um ponto particularmente interessante é a proposta de priorizar estudos em municípios com escassez hídrica, balanço hídrico crítico ou consumidores potenciais localizados nas proximidades das ETEs. A minuta utiliza como referência usuários em um raio de até 10 quilômetros, ajustável às condições locais.
O estudo de viabilidade proposto não se limita à engenharia.
Deverá analisar vazões, qualidade do efluente, demanda potencial, infraestrutura de distribuição, CAPEX, OPEX, fontes de financiamento, taxa interna de retorno e benefícios socioeconômicos e ambientais.
Até a consulta realizada nas páginas oficiais da ANA em 4 de outubro de 2026, a norma específica sobre reúso ainda não aparecia entre as normas de referência publicadas pela Agência. Portanto, os dispositivos citados acima devem ser entendidos como propostas regulatórias, e não como regras definitivas já vigentes.
Reúso também pode virar receita
Existe ainda uma consequência comercial pouco discutida.
Efluente tratado pode deixar de ser apenas um custo e tornar-se um ativo econômico.
A Análise de Impacto Regulatório da ANA discutiu explicitamente a exploração de receitas adicionais associadas ao reúso. Simulações citadas no documento, utilizando informações de SANASA, Caesb e Compesa, encontraram faixas bastante diferentes de preço necessário para viabilização, variando conforme modalidade e escala do projeto.
Isso demonstra por que não existe uma “tarifa nacional da água de reúso”.
Cada projeto possui uma equação.
A distância entre ETE e consumidor pode valer tanto quanto a tecnologia. O volume contratado pode ser tão importante quanto a qualidade do efluente. Energia de bombeamento pode inviabilizar um projeto tecnicamente perfeito.
Para áreas comerciais das companhias, portanto, o reúso cria uma nova frente: gestão de grandes consumidores de água não potável.
O que gestores deveriam começar a mapear
A experiência da SANASA e os benchmarks mostram que empresas que pretendem estruturar projetos de reúso de água deveriam, antes de simplesmente comprar equipamentos, responder a algumas perguntas:
- quais ETEs produzem volume suficiente e têm estabilidade operacional;
- quais grandes consumidores existem num raio economicamente viável;
- que qualidade cada consumidor realmente necessita;
- quanto custa entregar 1 m³ no ponto de consumo;
- quanto o cliente paga atualmente por sua fonte de água;
- quais investimentos adicionais são necessários;
- qual demanda mínima precisa ser contratada;
- quem assume riscos de interrupção, qualidade e redução de consumo;
- como receitas adicionais serão tratadas regulatoriamente;
- e quais indicadores demonstrarão benefício hídrico, ambiental e financeiro.
Essa análise exige profissionais de operação, processo, planejamento, comercial, engenharia, regulação, jurídico e finanças trabalhando juntos.
É justamente esse tipo de integração que diferencia um projeto de tecnologia de uma estratégia empresarial.
O que pode dar errado
O maior risco é acreditar que qualquer efluente tratado possui automaticamente mercado.
Não possui.
Projetos podem fracassar por falta de compradores, distância excessiva, custo energético elevado, qualidade incompatível com o processo industrial, demanda variável ou contratos mal estruturados.
Outro risco é o excesso de tratamento.
Produzir água com qualidade muito superior à necessária custa dinheiro e energia. Uma indústria que utilizará água apenas para determinada lavagem pode não precisar do mesmo padrão exigido por uma fábrica de semicondutores.
A pergunta correta não é “qual a melhor tecnologia disponível?”.
É:
qual combinação de tratamento entrega de forma segura exatamente a qualidade necessária ao menor custo de ciclo de vida?
Esse é o princípio do fit for purpose.
Uma tendência que tende a acelerar
O movimento internacional indica que o reúso de água deve ganhar relevância econômica.
Nos Estados Unidos, a EPA lançou em abril de 2026 o Water Reuse Action Plan 2.0, ampliando o foco para aplicações industriais, setor de tecnologia, produção de energia e até resfriamento de data centers. O programa trabalha com mais de 200 organizações parceiras e dezenas de ações relacionadas ao tema.
Isso cria uma mudança importante de percepção.
Reúso deixa de ser apenas política ambiental.
Passa a ser infraestrutura de desenvolvimento econômico.
Uma região capaz de oferecer água de reúso em quantidade, qualidade e preço previsíveis pode tornar-se mais competitiva para receber novos empreendimentos sem ampliar proporcionalmente a pressão sobre seus mananciais.
A principal lição da SANASA
O reconhecimento internacional da SANASA é relevante porque mostra uma mudança que deverá atingir cada vez mais empresas brasileiras.
Durante décadas, excelência no esgotamento sanitário significava coletar mais, tratar mais e lançar um efluente dentro do padrão.
Isso continua sendo indispensável.
Mas a próxima etapa é mais ambiciosa.
Uma utility do futuro precisa perguntar quanto daquele efluente pode voltar para a economia, quanto de água potável pode ser preservado, quanto de receita pode ser criado e quanto de segurança hídrica pode ser acrescentado ao território.
A trajetória do reúso de água na SANASA demonstra que esse processo não nasce de uma única tecnologia. Ele exige infraestrutura, profissionais qualificados, conhecimento de processo, planejamento hídrico, regulação, engenharia comercial e continuidade institucional.
Orange County mostra que reúso pode integrar o abastecimento humano. Singapura demonstra que pode sustentar setores industriais estratégicos. O Aquapolo comprova que existe espaço para grandes contratos industriais no Brasil.
E Campinas mostra que uma companhia municipal brasileira também pode colocar o reúso de água no centro de uma estratégia reconhecida internacionalmente.
Para os profissionais do setor, talvez essa seja a principal mensagem do reconhecimento da WEF: o futuro do esgoto não termina na saída da estação de tratamento.
Ele pode começar exatamente ali.
Fontes e referências
Water Environment Federation — WEF
2026 Utility of the Future Today Recognition — 14 de setembro de 2026. Acessar publicação da WEF
Water Environment Federation — WEF
Utility of the Future Today — informações e objetivos do programa. Acessar página do programa
SANASA — Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S/A
Relatório de Sustentabilidade 2024. Acessar relatório da SANASA
SANASA
Tratamento de Esgoto — tecnologias e estrutura do sistema de Campinas. Acessar página técnica
SANASA
Sanasa e Aegea: parceria possibilitará a exploração de água de reúso — setembro de 2022. Acessar publicação
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Minuta da Norma de Referência sobre reúso não potável de efluentes sanitários — Consulta Pública nº 11/2025. Acessar minuta da norma
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Relatório de Análise de Impacto Regulatório sobre reúso de efluentes sanitários. Acessar relatório de AIR
Ministério das Cidades
Projeto Reúso — subsídios para uma política nacional de reúso de efluentes sanitários tratados. Acessar Projeto Reúso
Instituto Trata Brasil
Ranking do Saneamento 2026 — dados SINISA, ano-base 2024. Acessar Ranking do Saneamento 2026
Aquapolo Ambiental
Aquapolo já poupou bilhões de litros de água potável — maio de 2025. Acessar publicação do Aquapolo
Orange County Water District — OCWD
Groundwater Replenishment System — capacidade e funcionamento do sistema de reúso potável da Califórnia. Acessar informações do GWRS
PUB — Singapore’s National Water Agency
Singapore NEWater Journey — expansão da produção de água regenerada em Singapura. Acessar publicação da PUB
U.S. Environmental Protection Agency — EPA
Water Reuse Action Plan 2.0 — abril de 2026. Acessar WRAP 2.0



