A inauguração da Estação de Tratamento de Esgotos Professor Cícero Onofre de Andrade Neto representa uma das maiores mudanças já realizadas na infraestrutura de saneamento da Zona Norte de Natal. Conhecida durante a execução do projeto como ETE Jaguaribe, a unidade permitirá ampliar gradualmente a cobertura de esgotamento sanitário da região de aproximadamente 3% para até 95%.

O empreendimento recebeu investimento de aproximadamente R$ 280 milhões e foi projetado para atender não apenas à demanda atual, mas também ao crescimento urbano das próximas décadas. Entretanto, o resultado definitivo dependerá da conexão dos imóveis, da estabilidade operacional da estação, do funcionamento das redes coletoras e da capacidade da Caern de manter o sistema com eficiência. (AESBE)
Dados principais da nova estrutura de saneamento
Entre os principais números divulgados sobre o empreendimento estão:
- Investimento aproximado de R$ 280 milhões;
- R$ 148 milhões aplicados pelo Governo do Rio Grande do Norte e pela Caern;
- Capacidade inicial de tratamento de 210 litros de esgoto por segundo;
- Capacidade de 420 litros por segundo após a entrada do segundo módulo;
- Cobertura projetada de até 95% da Zona Norte;
- Aproximadamente 33 mil imóveis inicialmente autorizados a se conectar;
- Meta de alcançar 55 mil comunicados até novembro;
- Estrutura preparada para acompanhar o crescimento da região pelos próximos 30 anos.
A autorização ambiental para o início dos testes operacionais foi concedida no começo de 2026. Posteriormente, o primeiro módulo iniciou a recepção progressiva de esgoto. A inauguração oficial ocorreu em 22 de julho de 2026, após um longo período de construção, instalação de equipamentos, licenciamento, testes e comissionamento. (AESBE)
Saneamento transforma a realidade da Zona Norte
A Zona Norte é uma das áreas mais populosas de Natal. Apesar disso, durante muitos anos, a região apresentou cobertura de esgotamento sanitário muito inferior à encontrada em outras áreas da capital potiguar.
Consequentemente, milhares de imóveis dependeram de fossas individuais e outras soluções locais. Embora esses sistemas possam funcionar quando são corretamente projetados e mantidos, falhas de construção, limpeza ou impermeabilização aumentam o risco de contaminação do solo, lançamento irregular de esgoto e comprometimento da qualidade ambiental.
A nova infraestrutura de saneamento muda esse cenário porque integra coleta, transporte e tratamento. O esgoto deixa de ser administrado separadamente em cada imóvel e passa a ser direcionado por redes coletoras e estações elevatórias até a unidade central de tratamento.
Assim, a expansão do saneamento reduz a exposição da população ao esgoto sem tratamento, melhora as condições urbanas, contribui para a preservação ambiental e cria uma infraestrutura mais adequada ao desenvolvimento econômico da região. (Caern)
Como funciona a ETE da Caern
A estação utiliza tratamento de nível terciário. Em termos simples, isso significa que o processo vai além da remoção básica de sólidos e matéria orgânica. Também são empregadas etapas destinadas à retirada de nutrientes e à redução de microrganismos antes do lançamento do efluente tratado no meio ambiente.
O sistema informado pela Caern reúne diferentes tecnologias.
Reatores UASB
Os reatores UASB utilizam microrganismos que trabalham em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio. Esses organismos consomem parte da matéria orgânica presente no esgoto.
Durante o processo, também ocorre a formação de biogás e lodo. Por isso, o controle operacional precisa acompanhar vazão, temperatura, carga orgânica, produção de sólidos, formação de espuma e comportamento dos gases.
Os reatores diminuem a carga que seguirá para as etapas posteriores. Entretanto, normalmente não produzem sozinhos um efluente com a qualidade necessária para ambientes mais sensíveis. Por esse motivo, a estação conta com outras fases de tratamento.
Aeração e biodiscos
Após o tratamento anaeróbio, o esgoto passa por sistemas aeróbios. Nessa etapa, o oxigênio favorece a atuação de outros grupos de microrganismos responsáveis por continuar a degradação dos poluentes.
Os biodiscos oferecem superfícies nas quais esses microrganismos podem se fixar. Conforme os discos entram em contato alternadamente com o esgoto e com o ar, ocorre a transferência de oxigênio e a remoção adicional da matéria orgânica.
Essa combinação permite maior estabilidade e melhora a qualidade do efluente tratado.
Remoção de fósforo por flotação
O fósforo é um nutriente encontrado no esgoto doméstico. Em excesso nos rios, lagoas e reservatórios, ele pode estimular o crescimento descontrolado de algas e provocar desequilíbrios ambientais.
Na flotação, pequenas bolhas ajudam a levar partículas e materiais agregados até a superfície. Em seguida, esse material é removido do processo.
A retirada de fósforo diferencia o tratamento terciário de muitos sistemas convencionais e exige controle rigoroso da dosagem de produtos, formação de flocos, circulação hidráulica e retirada do lodo.
Desinfecção por radiação ultravioleta
A etapa de desinfecção utiliza radiação ultravioleta para inativar microrganismos presentes no efluente. A tecnologia reduz a necessidade de grandes quantidades de produtos químicos desinfetantes.
Contudo, a eficiência depende da limpeza das lâmpadas, da intensidade da radiação, da transparência do efluente e do tempo de exposição. Portanto, a manutenção preventiva será fundamental para preservar o desempenho da estação.
Controle de odores e biogás
A Caern também informou que a unidade possui sistemas de controle de odores e queima de biogás. Esses mecanismos são especialmente importantes em estações instaladas próximas de áreas urbanizadas.
Além do conforto da população, o controle do biogás envolve segurança operacional. Dessa maneira, detectores, ventilação, queimadores, tubulações e procedimentos de entrada em espaços confinados precisam ser permanentemente inspecionados. (Caern)
Capacidade será ampliada por etapas
O primeiro módulo possui capacidade para tratar aproximadamente 210 litros por segundo. Em seguida, a entrada do segundo módulo elevará a capacidade operacional para cerca de 420 litros por segundo.
Além disso, estruturas destinadas a futuras expansões foram consideradas no projeto. Portanto, a estação poderá acompanhar o crescimento populacional e o aumento do número de ligações ao longo das próximas décadas.
Essa implantação gradual é importante porque uma ETE não deve receber toda a vazão prevista imediatamente. Inicialmente, os processos biológicos precisam ser estabilizados. Ao mesmo tempo, equipamentos, bombas, sensores, aeradores e sistemas de automação precisam ser avaliados em condições reais de operação.
Consequentemente, o aumento da cobertura deverá ocorrer conforme novos setores da rede forem liberados e os imóveis forem conectados ao sistema. (AESBE)
Ligação dos imóveis é decisiva para o saneamento
A construção da estação, isoladamente, não garante a universalização do saneamento. Para que o investimento produza resultado, cada residência, condomínio ou estabelecimento precisa direcionar corretamente o esgoto para a rede pública.
A Caern começou a distribuir comunicados aos imóveis tecnicamente aptos para realizar a interligação. Segundo os dados divulgados na inauguração, aproximadamente 33 mil autorizações já haviam sido entregues, com previsão de alcançar 55 mil até novembro.
Após receber o comunicado, o responsável pelo imóvel possui prazo de 30 dias para executar a ligação intradomiciliar. Essa instalação conecta a saída de esgoto da residência à caixa ou ao ramal disponibilizado pela companhia.
Entretanto, a ligação não deve ser realizada antes da autorização. Uma conexão prematura pode encaminhar esgoto para trechos ainda não liberados, provocar extravasamentos e causar retorno de efluentes para os imóveis.
Esse processo demonstra a importância da integração entre engenharia, operação, cadastro, faturamento, atendimento e comunicação. No saneamento, a obra física precisa caminhar junto com a gestão comercial. (AESBE)
Tarifa exige comunicação transparente
Nos imóveis atendidos pelo sistema convencional, a tarifa de esgoto corresponde a 70% do valor cobrado pelo consumo de água, conforme a regulamentação municipal informada pela Caern.
Portanto, a expansão do serviço também altera a relação comercial com a população. Embora o cliente passe a ter um aumento na fatura, deixa de depender de limpeza periódica de fossas e passa a contar com coleta e tratamento contínuos.
Ainda assim, a cobrança precisa ser acompanhada por informações claras. O consumidor deve compreender quando o serviço foi disponibilizado, como realizar a ligação, como a tarifa é calculada e quais canais podem ser utilizados para solicitar orientação.
A comunicação inadequada pode gerar reclamações, resistência às conexões e aumento da inadimplência. Por outro lado, uma estratégia de atendimento antecipado pode elevar a adesão ao sistema e reduzir conflitos. (Caern)
Desafios operacionais começam após a inauguração
A inauguração de uma estação é apenas o início de uma nova fase. A partir da entrada em operação, a Caern precisará controlar diariamente indicadores como:
- Vazão recebida e tratada;
- Consumo de energia;
- Remoção de matéria orgânica;
- Concentração de fósforo;
- Qualidade microbiológica;
- Produção e destinação de lodo;
- Funcionamento das estações elevatórias;
- Ocorrências de extravasamento;
- Emissão de odores;
- Disponibilidade dos equipamentos;
- Número de imóveis efetivamente conectados.
O lançamento de efluentes tratados deve atender às condições estabelecidas no licenciamento ambiental e aos padrões aplicáveis de qualidade. A Resolução Conama nº 430 estabelece diretrizes gerais para o lançamento de efluentes em corpos receptores, enquanto o órgão ambiental pode definir exigências adicionais conforme as características locais. (SIAM MG)
Além disso, será necessário manter equipes treinadas, peças de reposição, contratos de manutenção e sistemas confiáveis de automação. Uma estação tecnologicamente avançada exige capacidade técnica proporcional à complexidade dos equipamentos instalados.
ETE Jundiaí-Guarapes completará a expansão
Com a entrada da ETE da Zona Norte, a cobertura de esgotamento sanitário de Natal deverá alcançar aproximadamente 75%. Entretanto, para que a capital se aproxime de 95%, ainda será necessária a conclusão da ETE Jundiaí-Guarapes.
Essa segunda unidade atenderá principalmente áreas das zonas Sul, Leste e Oeste. Dessa forma, os dois empreendimentos funcionarão de maneira complementar dentro do planejamento de saneamento da cidade.
Os investimentos acumulados em esgotamento sanitário na capital superam R$ 1 bilhão. A previsão divulgada pela Caern indica a entrada da ETE Jundiaí-Guarapes até 2027, enquanto a meta mais ampla é universalizar o serviço no município até 2028. (AESBE)
Investimento também integra estratégia estadual
A expansão realizada em Natal ocorre paralelamente a uma estratégia mais ampla para o saneamento do Rio Grande do Norte. A Caern estruturou, com apoio do BNDES, um projeto de parceria público-privada destinado à ampliação do esgotamento sanitário em dezenas de municípios.
A proposta estadual prevê aproximadamente R$ 3,8 bilhões em investimentos até 2051 e busca levar o atendimento de esgoto a 90% da população urbana das áreas contempladas até 2033.
Portanto, a experiência operacional da ETE de Natal poderá gerar aprendizados importantes para outros sistemas do estado. Gestão de ativos, eficiência energética, controle de lodo, comunicação com os clientes e ativação de ligações serão temas decisivos tanto na capital quanto nos futuros projetos regionais. (Caern)
O que gestores de saneamento podem aprender
A experiência de Natal mostra que grandes obras precisam ser acompanhadas por planejamento integrado.
Primeiramente, redes e estações devem entrar em funcionamento de forma coordenada. Em seguida, os imóveis precisam ser comunicados, conectados e cadastrados corretamente. Além disso, a cobrança deve ser transparente e compatível com a efetiva disponibilidade do serviço.
Do ponto de vista operacional, também será necessário acompanhar custos de energia, produtos químicos, manutenção, transporte e destinação de lodo. Ao mesmo tempo, indicadores ambientais devem demonstrar que o efluente está sendo tratado de maneira adequada.
Por fim, o sucesso do saneamento depende da capacidade de transformar infraestrutura construída em serviço efetivamente utilizado. Uma ETE moderna sem ligações ativas opera abaixo do potencial. Por outro lado, milhares de ligações realizadas sem controle operacional podem sobrecarregar redes, elevatórias e unidades de tratamento.
Saneamento de Natal entra em nova fase
A ETE Professor Cícero Onofre de Andrade Neto representa uma transformação histórica para a Zona Norte. O salto projetado de 3% para até 95% de cobertura mostra a dimensão do avanço esperado.
Entretanto, os próximos resultados dependerão menos da cerimônia de inauguração e mais da rotina operacional. Será necessário ligar os imóveis, estabilizar os processos de tratamento, controlar os custos, orientar os clientes e comprovar continuamente a qualidade do efluente.
Quando todas essas etapas funcionam de maneira integrada, o saneamento deixa de ser apenas uma obra enterrada e passa a produzir benefícios permanentes. Saúde pública, preservação ambiental, valorização urbana e desenvolvimento econômico tornam-se consequências concretas de um serviço bem planejado e corretamente operado.
Fontes
- AESBE — Caern amplia cobertura de esgotamento sanitário na capital potiguar
- Caern — Zona Norte de Natal caminha para a universalização do serviço
- Caern — ETE Jaguaribe recebe autorização ambiental
- Ministério da Integração — Obras do Novo PAC no Rio Grande do Norte
- Tribuna do Norte — Moradores são notificados para ligação à rede
- Caern — Audiências públicas da PPP de esgotamento sanitário
- Conama — Resolução nº 430 sobre lançamento de efluentes



