Rio Verde chegou a 89,97% no indicador de atendimento de esgoto, apenas 0,03 ponto percentual abaixo do patamar de 90% adotado para a universalização. Ao mesmo tempo, outro indicador do município, o de cobertura de esgotamento sanitário, atingiu 101,61%. Na água, o atendimento ficou em 87,77%, ainda distante dos 99% exigidos.
Os números parecem contraditórios, mas justamente por isso o relatório publicado pela Agência de Regulação dos Serviços Públicos de Saneamento Básico de Rio Verde (AMAE) merece atenção de quem trabalha no setor.
A principal mensagem não é que Rio Verde esteja simplesmente “perto” ou “longe” da universalização do saneamento. O documento mostra algo mais complexo: investimento em infraestrutura, expansão de capacidade, conexão efetiva dos imóveis, atendimento rural e qualidade das bases cadastrais precisam avançar simultaneamente.
A própria AMAE alerta que a ausência de informações sobre áreas rurais e inconsistências entre bases cadastrais influenciam os indicadores. Portanto, um percentual superior a 100% não deve ser interpretado como desempenho extraordinário. É, antes, um alerta sobre denominadores, cadastros e compatibilização de dados. (AMAE)
Para gestores de companhias, reguladores, equipes comerciais, engenheiros e profissionais responsáveis por dados, há uma pergunta estratégica por trás do caso:
será possível comprovar a universalização do saneamento em 2033 se cada sistema da empresa enxergar um número diferente de imóveis, clientes e pessoas atendidas?
O que o relatório da AMAE revela
A AMAE publicou em setembro de 2026 a avaliação das metas progressivas e da universalização dos serviços de água e esgoto referente ao ano de 2025 para municípios da Microrregião de Saneamento Básico Oeste de Goiás.
A metodologia segue a Norma de Referência nº 8/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). A norma transformou a aferição da universalização em um processo mais sofisticado do que simplesmente perguntar quantos quilômetros de rede existem ou qual percentual da população urbana possui infraestrutura próxima à residência. (Prefeitura de Rio Verde)
Em Rio Verde, o relatório registra população estimada em 241.494 habitantes, urbanização de aproximadamente 94,19% e 86.557 domicílios residenciais ocupados, sendo 81.528 urbanos e 5.029 rurais.
O abastecimento de água é prestado pela Saneago. No esgotamento sanitário, a prestação envolve a BRK Ambiental Goiás, subdelegatária da Saneago.
Os principais indicadores apurados para 2025 foram:
- IAA – Índice de Atendimento de Água: 87,77%
- IAA urbano: 93,19%
- IAA rural: 0%
- ICA – Índice de Cobertura de Água: 95,83%
- IAE – Índice de Atendimento de Esgoto: 89,97%
- IAE urbano: 95,52%
- IAE rural: 0%
- ICE – Índice de Cobertura de Esgoto: 101,61%
Pelos critérios regulatórios, Rio Verde ainda não pode ser considerado universalizado. Para água, IAA e ICA precisam simultaneamente alcançar pelo menos 99%. No esgotamento sanitário, IAE e ICE precisam simultaneamente alcançar pelo menos 90%. (AMAE)
Essa exigência simultânea muda bastante a lógica de gestão.
Universalização do saneamento não é sinônimo de rede instalada
A NR 8/2024 procura separar dois conceitos que frequentemente aparecem misturados nas discussões sobre saneamento: cobertura e atendimento.
De maneira simplificada, cobertura procura identificar se o serviço está disponível para determinado imóvel ou população. Atendimento procura verificar se o usuário está efetivamente sendo atendido.
Essa diferença é fundamental.
Uma rua pode possuir rede coletora de esgoto e, ainda assim, existir uma quantidade relevante de imóveis não conectados. Da mesma forma, um sistema de abastecimento pode chegar a determinada região sem que todos os imóveis estejam efetivamente ativos na base comercial.
É por isso que construir rede não encerra o processo de universalização do saneamento.
Depois da engenharia vêm atividades que muitas vezes recebem menos visibilidade: atualização cadastral, comunicação com moradores, vistorias, regularização das ligações, busca ativa, acompanhamento dos imóveis factíveis, identificação de soluções alternativas, fiscalização e integração entre os sistemas comercial, operacional e geográfico.
Para o setor comercial, essa mudança é particularmente importante. A ligação passa a ser parte da estratégia de universalização, e não simplesmente uma consequência da expansão da rede.
Rio Verde está perto dos 90% de esgoto — mas o dado exige cautela
O número que mais chama atenção é o IAE de 89,97%.
Em termos puramente percentuais, Rio Verde aparece praticamente sobre a linha de 90%. Porém, interpretar isso como uma questão de “faltar 0,03 ponto percentual” seria simplificar excessivamente o diagnóstico.
Primeiro porque o indicador de cobertura, ICE, aparece em 101,61%. A própria AMAE relaciona o resultado superior a 100% a inconsistências entre as informações cadastrais disponíveis e as bases utilizadas como referência.
Segundo porque o relatório atribui 0% às parcelas rurais dos indicadores de atendimento de água e de esgoto, destacando a inexistência ou insuficiência de dados primários necessários à apuração. Portanto, o resultado não deve ser interpretado automaticamente como evidência de que nenhum imóvel rural possua solução de abastecimento ou esgotamento. Trata-se também de uma lacuna informacional. (AMAE)
Essa diferença é enorme do ponto de vista de gestão.
Não conhecer o atendimento rural e comprovar que não existe atendimento rural são situações completamente diferentes.
A primeira exige levantamento, cadastro e integração de informações. A segunda exigiria principalmente infraestrutura ou soluções alternativas.
Confundir as duas situações pode resultar em investimentos mal priorizados.
O problema escondido no indicador acima de 100%
Indicadores superiores a 100% aparecem ocasionalmente no saneamento brasileiro quando numeradores e denominadores são formados a partir de bases diferentes.
Uma companhia pode possuir uma base comercial extremamente atualizada, contendo novos loteamentos, economias, imóveis e ligações, enquanto a projeção populacional ou domiciliar empregada como denominador ainda não incorporou integralmente o crescimento daquela cidade.
O próprio SINISA alerta para situações em que o número informado de domicílios atendidos pode superar estimativas de referência, especialmente em municípios de crescimento acelerado. (Serviços e Informações do Brasil)
Rio Verde torna o problema bastante concreto.
Se um indicador regulatório apresenta 101,61%, a discussão não deve ser sobre comemorar os 1,61 ponto percentual excedentes. O questionamento gerencial correto é:
qual base está errada, incompleta ou temporalmente desalinhada?
Para uma companhia moderna, cadastro comercial, cadastro técnico, geoprocessamento, base de ativos, dados censitários e informações regulatórias não podem funcionar como universos independentes.
Essa passa a ser uma das agendas menos percebidas da universalização do saneamento.
Os dados de 2024 reforçam a importância da governança
A comparação com o relatório anterior da AMAE ajuda a entender o problema, mas precisa ser realizada com cuidado.
Na avaliação referente a 2024, Rio Verde apresentou IAA de 87,04%, ICA de 96,80%, IAE de 89,04% e ICE de 91,00% utilizando a base considerada no relatório.
Em 2025, o IAA passou para 87,77% e o IAE para 89,97%. Entretanto, o ICA caiu para 95,83% e o ICE saltou para 101,61%. (AMAE)
Seria tentador interpretar essas variações simplesmente como melhora ou piora operacional. Isso seria arriscado.
Os próprios documentos discutem alterações de bases, projeções e disponibilidade de informações. Portanto, a comparação anual precisa verificar se numerador, denominador, abrangência territorial, classificação de economias e tratamento das soluções alternativas permaneceram metodologicamente comparáveis.
Essa é uma lição aplicável a praticamente qualquer painel de indicadores.
Um KPI só permite acompanhar uma tendência quando existe estabilidade metodológica suficiente para que o ano seguinte represente a mesma realidade medida no ano anterior.
Investimento em água mostra que infraestrutura continua essencial
A discussão sobre dados não significa que o desafio físico tenha desaparecido.
A Saneago informa investimento de R$ 62 milhões na ampliação do Sistema de Abastecimento de Água de Rio Verde, incluindo a nova ETA Rio Verdinho, projetada com capacidade nominal de 800 litros por segundo. (Saneago)
Em fiscalização realizada pela AMAE em 20 de maio de 2026, entretanto, a fase correspondente à construção da ETA apresentava 23% de avanço físico, enquanto o cronograma originalmente previsto apontava 45% para aquele momento. A agência informou que acompanhava tanto a execução física quanto financeira do empreendimento. (AMAE)
O caso mostra outra dimensão da universalização do saneamento.
Não basta saber se determinada obra está contratada. É necessário acompanhar cronograma, capacidade implantada, entrada efetiva em operação, adutoras, reservação, distribuição, pressões e capacidade de atender o crescimento futuro da cidade.
Uma ETA de 800 L/s representa aumento importante de capacidade de produção. Porém, transformar capacidade de produção em melhoria para o usuário depende de todo o sistema situado depois da estação.
Para equipes de planejamento, essa distinção é essencial: capacidade instalada não é automaticamente capacidade entregue ao cliente.
No esgoto, a infraestrutura também continua avançando
O município também passou por expansão da infraestrutura de esgotamento.
Em maio de 2025, uma fiscalização da AMAE apontava que a ETE Laje estava em fase inicial de operação assistida, com cerca de 70% da capacidade em funcionamento naquele momento e testes utilizando esgoto real. (AMAE)
Já em maio de 2026, AMAE, BRK Ambiental e Saneago voltaram a discutir questões operacionais e técnicas do sistema de esgotamento sanitário, incluindo os residenciais Buritis, Nilson Veloso e Água Santa e aspectos relacionados à operação da ETE Sapo. (AMAE)
Isso demonstra que atingir um percentual elevado não elimina os desafios cotidianos da operação.
O sistema ainda precisa transportar, bombear, tratar, monitorar e dispor adequadamente os efluentes. Além disso, precisa responder a expansões urbanas, sobrecargas localizadas, extravasamentos, manutenção, energia, capacidade das elevatórias e crescimento populacional.
Universalização e qualidade operacional são agendas complementares.
O rural pode se tornar um dos maiores desafios até 2033
Talvez o ponto mais estratégico do relatório esteja fora das áreas urbanas.
Rio Verde apresenta IAA urbano de 93,19% e IAE urbano de 95,52%, mas os indicadores rurais aparecem com 0% em razão da insuficiência de informações utilizadas na apuração.
Essa situação não é exclusividade do município.
Dados do SINISA referentes a 2024 mostram a enorme diferença existente entre atendimento urbano e rural no Brasil. No abastecimento de água, Goiás apresentava aproximadamente 85,5% dos domicílios totais atendidos por rede, chegando a 92,2% na área urbana, enquanto o indicador rural era de apenas 1,6% nessa métrica. No esgotamento sanitário, o déficit rural também permanece muito superior ao urbano. (Serviços e Informações do Brasil)
Há uma ressalva importante: os indicadores do SINISA e os da NR 8/2024 não são metodologicamente idênticos. Por isso, a comparação serve para revelar a direção do problema, e não para construir um ranking direto entre Rio Verde, Goiás e Brasil.
Para a universalização do saneamento, áreas rurais exigirão estratégias próprias.
Em muitos locais, estender quilômetros de rede convencional para atender núcleos dispersos pode não ser tecnicamente ou economicamente racional. A própria regulação admite o papel de soluções alternativas adequadas.
Assim, a pergunta deixa de ser apenas “onde construir rede?” e passa a incluir “qual solução segura, regulada e monitorável deve ser adotada em cada território?”.
Benchmarking brasileiro: a lição da Sabesp sobre conexão
Uma experiência brasileira ajuda a entender a diferença entre disponibilizar infraestrutura e efetivamente conectar o imóvel.
A Sabesp mantém o programa Se Liga na Rede, voltado à execução de ligações intradomiciliares de esgoto para famílias elegíveis em áreas onde a rede pública já está disponível.
Segundo o Relatório de Sustentabilidade 2024 da companhia, em aproximadamente 12 anos o programa havia realizado cerca de 54 mil conexões, beneficiado aproximadamente 190 mil pessoas e permitido a coleta e tratamento de cerca de 5,5 milhões de metros cúbicos de esgoto por ano. (Sabesp)
O aprendizado para outras companhias é direto.
Ao identificar rede disponível sem ligação efetiva, a resposta não precisa ser exclusivamente engenharia pesada. Pode envolver segmentação comercial, identificação de imóveis factíveis, assistência à conexão intradomiciliar, comunicação, fiscalização e atuação integrada entre equipes sociais, comerciais e operacionais.
Essa abordagem transforma capacidade ociosa da infraestrutura em atendimento real.
Para a universalização do saneamento, essa diferença poderá valer milhões em investimentos já realizados que ainda não produziram todo o benefício sanitário esperado.
O que Portugal ensina sobre confiabilidade dos indicadores
Em Portugal, a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) desenvolveu um sistema de avaliação da qualidade dos serviços que não observa apenas o resultado dos indicadores.
A confiabilidade da informação também é avaliada.
Nos critérios dos selos de qualidade associados ao ciclo de avaliação divulgado em 2025, a ERSAR considera, entre outros requisitos, a avaliação dos indicadores aplicáveis e níveis mínimos de confiabilidade dos dados. O conhecimento da infraestrutura e a qualidade do registro da informação também fazem parte desse ambiente regulatório. (ERSAR)
A lição é poderosa para o Brasil.
Não basta possuir um indicador excelente; é necessário provar que o dado que gerou aquele indicador é confiável.
Isso tende a se tornar cada vez mais importante à medida que cumprimento de metas, tarifas, contratos, investimentos e avaliações regulatórias dependam das mesmas bases.
E a Inglaterra transforma dados em instrumento de regulação
Na Inglaterra e no País de Gales, a Ofwat publica avaliações comparativas de desempenho das empresas de água e esgoto, com indicadores, compromissos de desempenho e informações de gastos.
As empresas são responsáveis pela qualidade das informações que apresentam, e os dados passam por processos de asseguração e auditoria. A Ofwat também utiliza abordagens diferenciadas de supervisão conforme o grau de confiança nas informações fornecidas. (Ofwat)
Não se trata de copiar diretamente o modelo britânico.
O aprendizado aplicável está no princípio: governança de dados faz parte da governança regulatória.
Uma companhia que investe bilhões em ativos físicos, mas não consegue reconciliar quantos imóveis existem, quantos podem ser atendidos e quantos realmente estão conectados, possui uma vulnerabilidade gerencial relevante.
Impactos para as empresas de saneamento
O caso de Rio Verde permite identificar consequências que vão muito além do município.
No aspecto operacional, bases inadequadas dificultam dimensionar sistemas, localizar déficits e determinar onde realmente faltam redes ou soluções alternativas.
No aspecto comercial, é necessário conhecer a diferença entre imóvel ativo, inativo, factível, potencial usuário e solução alternativa. Sem isso, oportunidades de conexão, regularização cadastral e aumento sustentável da base atendida podem permanecer invisíveis.
No aspecto financeiro, infraestrutura construída e pouco utilizada representa capital que ainda não gera integralmente o benefício esperado. Ao mesmo tempo, bases inconsistentes podem prejudicar projeções de demanda, planejamento de investimentos e avaliação econômico-financeira.
No aspecto regulatório, o problema ganha ainda mais peso. Em abril de 2026, por exemplo, a AMAE realizava trabalhos de validação da base de ativos de Rio Verde e Jataí relacionados à revisão tarifária, confrontando registros com a existência física dos ativos. (AMAE)
Cadastro e regulação, portanto, estão cada vez mais próximos.
E, para o cliente, toda essa discussão só faz sentido se resultar em água disponível com regularidade, coleta e tratamento adequados de esgoto, resposta rápida às ocorrências e serviços que acompanhem o crescimento da cidade.
O que gestores devem observar a partir de agora
O relatório aponta uma agenda prática que pode ser aplicada por prestadores e reguladores muito além de Goiás:
- Reconciliar cadastro comercial, GIS e cadastro técnico. O imóvel existente no mapa precisa ser reconhecido pelo sistema comercial e vice-versa.
- Separar cobertura de atendimento. Rede na porta não significa cliente ligado.
- Criar gestão específica dos imóveis factíveis. Cada imóvel com rede disponível e sem ligação precisa possuir diagnóstico e tratamento.
- Mapear o rural. Ausência de informação não pode permanecer indefinidamente registrada como ausência de atendimento.
- Cadastrar soluções alternativas individualmente. Poços, soluções individuais de esgoto e sistemas descentralizados precisam de localização, situação operacional e critérios de conformidade.
- Versionar metodologias e bases. Mudanças de denominador ou classificação precisam ser documentadas para que comparações anuais continuem válidas.
- Investigar qualquer indicador acima de 100%. O objetivo não é simplesmente limitar matematicamente o percentual, mas descobrir por que numerador e denominador não representam a mesma realidade.
- Integrar universalização ao planejamento de investimentos. A prioridade deve considerar não apenas onde a rede não existe, mas onde investimentos já realizados ainda não se converteram em atendimento.
Essa agenda exige engenheiros, profissionais comerciais, especialistas em geoprocessamento, equipes de campo, analistas de dados, reguladores e profissionais de atendimento trabalhando sobre uma mesma representação do território.
É justamente aí que a universalização do saneamento deixa de ser responsabilidade exclusiva de uma diretoria.
O que pode dar errado
O primeiro erro é confundir quilômetros de rede com universalização.
O segundo é considerar o percentual regulatório como uma verdade absoluta sem analisar a origem do dado.
O terceiro é interpretar 0% rural como prova automática de inexistência de serviço, quando o próprio relatório aponta falta de informação.
O quarto é comparar indicadores de anos diferentes sem verificar mudanças metodológicas.
E há ainda um risco financeiro: ampliar continuamente a infraestrutura sem desenvolver uma política igualmente forte de conexão pode criar redes subutilizadas.
No esgoto, esse problema é particularmente relevante. O benefício ambiental surge quando o esgoto deixa de ser lançado inadequadamente e passa efetivamente a ser coletado e tratado — não simplesmente quando uma tubulação é instalada na rua.
Uma oportunidade pouco percebida: transformar cadastro em ativo estratégico
O movimento regulatório brasileiro cria uma oportunidade importante.
Empresas de saneamento possuem milhões de registros comerciais, hidrômetros, ordens de serviço, coordenadas, ramais, redes, imóveis, históricos de consumo, reclamações e ativos físicos.
Integrados corretamente, esses dados podem formar um verdadeiro gêmeo cadastral do território atendido.
Com geoprocessamento, analytics, sensoriamento, telemetria e inteligência artificial, torna-se possível localizar regiões com rede disponível e baixa adesão, identificar novos loteamentos ainda não refletidos nas bases, priorizar vistorias e direcionar investimentos com muito mais precisão.
A tecnologia, entretanto, não corrige automaticamente um cadastro ruim.
Antes da inteligência artificial vem a tarefa menos glamourosa — e talvez mais valiosa — de padronizar endereços, eliminar duplicidades, reconciliar economias, validar coordenadas e atribuir responsáveis pela qualidade de cada dado.
Lições para quem trabalha no saneamento
O caso de Rio Verde mostra uma transformação importante na profissão.
O engenheiro precisará compreender cada vez melhor os indicadores regulatórios.
O profissional comercial precisará entender que qualidade cadastral influencia planejamento de infraestrutura.
O regulador precisará avaliar não somente percentuais, mas a confiabilidade da informação utilizada para calculá-los.
As equipes de tecnologia precisarão conhecer processos de água e esgoto para estruturar bases que façam sentido operacionalmente.
E gestores precisarão integrar todas essas competências.
É justamente essa integração que diferencia uma companhia que simplesmente produz indicadores de uma organização capaz de gerenciar a universalização do saneamento.
Conclusão: 2033 será também um teste de informação
O relatório da AMAE não deve ser interpretado apenas como um retrato de Rio Verde.
Ele antecipa uma discussão que deverá se repetir em centenas de municípios brasileiros à medida que 2033 se aproxima.
Rio Verde possui expansão de infraestrutura em andamento, elevada cobertura urbana e um indicador de atendimento de esgoto praticamente no patamar regulatório. Ao mesmo tempo, aparecem lacunas rurais, diferenças entre atendimento e cobertura e uma cobertura de esgoto superior a 100%, que exige reconciliação das bases.
É exatamente essa combinação que torna o caso valioso.
A universalização do saneamento não será comprovada por inaugurações, quilômetros de rede ou capacidade nominal de estações isoladamente. Ela dependerá da capacidade de demonstrar, imóvel por imóvel e território por território, quem possui serviço disponível, quem está efetivamente conectado, qual solução alternativa é utilizada e se a informação pode ser auditada.
Até 2033, bilhões de reais continuarão sendo investidos em estações, adutoras, redes, reservatórios, elevatórias e sistemas de tratamento.
Mas haverá um segundo investimento, menos visível e igualmente necessário: construir bases de dados capazes de provar que toda essa infraestrutura realmente chegou ao cidadão.
Esse talvez seja um dos desafios mais subestimados da universalização do saneamento no Brasil.
Fontes e referências
- Prefeitura Municipal de Rio Verde / AMAE — AMAE publica relatório sobre abastecimento de água e esgoto — 10 de setembro de 2026. Acessar publicação original
- AMAE — Agência de Regulação dos Serviços Públicos de Saneamento Básico — Avaliação das Metas Progressivas e Universalização dos Serviços de Água e Esgoto — Ano de 2025 — 2026. Acessar relatório da AMAE
- AMAE — Metas Progressivas e Universalização dos Serviços de Água e Esgoto — referência 2024 — 2025. Acessar relatório anterior
- ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Resolução ANA nº 192/2024 — Norma de Referência nº 8/2024 — 8 de maio de 2024. Acessar Resolução e Norma de Referência
- Ministério das Cidades / SINISA — Relatório dos Serviços de Abastecimento de Água — SINISA 2025, ano de referência 2024 — 2026. Acessar relatório de abastecimento de água
- Ministério das Cidades / SINISA — Relatório dos Serviços de Esgotamento Sanitário — SINISA 2025, ano de referência 2024 — 2026. Acessar relatório de esgotamento sanitário
- Saneago — Saneamento de Goiás S.A. — Formulário de Referência 2025 — informação sobre a ETA Rio Verdinho e investimento de R$ 62 milhões. Acessar documento da Saneago
- AMAE — Fiscalização programada nas obras da ETA e Captação Rio Verdinho — 21 de maio de 2026. Acessar fiscalização da ETA Rio Verdinho
- AMAE — Fiscalização não programada nas obras da ETE Laje — 23 de maio de 2025. Acessar fiscalização da ETE Laje
- Sabesp — Relatório de Sustentabilidade 2024 — dados do programa Se Liga na Rede. Acessar relatório da Sabesp
- ERSAR — Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, Portugal — critérios de avaliação e qualidade dos serviços, ciclo divulgado em 2025. Acessar referência da ERSAR
- Ofwat — Water Services Regulation Authority, Reino Unido — Water Company Performance e metodologia de avaliação e asseguração de dados. Acessar Water Company Performance



