A Amazon acaba de colocar um problema histórico das companhias de saneamento brasileiras no centro de sua estratégia ambiental. Em 4 de setembro de 2026, a empresa anunciou duas novas iniciativas no país que, segundo as projeções divulgadas, deverão gerar 785 milhões de litros adicionais de benefícios hídricos por ano: 585 milhões de litros associados à expansão de um programa de detecção de vazamentos em São Paulo e 200 milhões de litros decorrentes de eficiência de irrigação em Minas Gerais.
O número chama atenção, mas a principal notícia para o profissional de saneamento está no modelo por trás dele. Uma companhia de tecnologia está financiando sensores, inteligência artificial, redução de perdas em redes públicas, reúso, restauração de bacias e eficiência hídrica para avançar em uma meta corporativa water positive.
Essa aproximação cria uma pergunta estratégica para prestadores brasileiros: a redução de perdas poderá se transformar também em uma nova classe de projetos financiáveis por grandes consumidores de água, data centers e empresas que precisam compensar seus riscos hídricos?
A resposta começa a aparecer em São Paulo, Recife, Dublin, México e outros mercados.
E pode abrir um caminho relevante de financiamento para projetos que tradicionalmente disputam orçamento com expansão, manutenção, universalização e outras prioridades das companhias de saneamento.
O que a Amazon anunciou no Brasil
O anúncio mais recente envolve dois territórios com problemas distintos.
Em Minas Gerais, a Amazon financiará uma iniciativa com a empresa Phytech para monitorar mais de 390 hectares de áreas agrícolas nas bacias dos rios das Velhas e Paraopeba. Sensores instalados nas plantas, informações sobre umidade do solo e análises apoiadas por inteligência artificial deverão orientar a irrigação conforme a necessidade efetiva das culturas.
A projeção divulgada pela empresa é reduzir retiradas em aproximadamente 200 milhões de litros por ano, ou 2 bilhões de litros ao longo de dez anos. Trata-se, portanto, de uma estimativa de benefício futuro e não de um volume já comprovadamente economizado.
Em São Paulo, o movimento está diretamente relacionado ao saneamento.
A Amazon ampliou um projeto iniciado em 2025 com a Aganova e a Sabesp para localizar vazamentos escondidos em tubulações. A etapa original tinha como expectativa economizar cerca de 210 milhões de litros por ano. A expansão acrescenta potencial estimado de 585 milhões, levando o programa a 795 milhões de litros de economia anual prevista quando integralmente implementado.
Esse detalhe muda o significado da notícia.
A estratégia water positive deixa de acontecer apenas dentro dos muros do empreendimento que utiliza água. Ela passa a financiar melhorias na infraestrutura hídrica do território onde a empresa está inserida.
Para uma companhia de saneamento, isso significa que um vazamento em uma adutora pode simultaneamente representar perda operacional para o prestador e oportunidade de investimento ambiental para outro agente econômico.
Por que o water positive interessa ao saneamento
A meta global da AWS é tornar suas operações de data centers water positive até 2030. Na definição utilizada pela Amazon, isso significa disponibilizar às comunidades e ao meio ambiente volume de água superior àquele utilizado nas operações diretas abrangidas pela meta.
Ao fim de 2025, a empresa declarava estar 75% do caminho até esse objetivo. A Amazon também informa que mais de 24 bilhões de litros deverão ser retornados anualmente por seus projetos de reposição quando o portfólio anunciado estiver plenamente implantado.
Entretanto, water positive não significa simplesmente captar 100 litros e devolver fisicamente 101 litros no mesmo ponto.
A metodologia é mais ampla.
A Amazon estrutura sua estratégia em três componentes: reduzir o consumo de suas próprias instalações, substituir água potável por fontes alternativas sempre que possível e financiar projetos de reposição ou benefício hídrico.
Entre esses projetos podem estar redução de vazamentos, eficiência na irrigação, reúso, recuperação de ecossistemas, recarga hídrica e iniciativas de acesso à água.
Essa distinção é fundamental para evitar uma leitura simplificada da expressão water positive.
Como a Amazon contabiliza a água
A metodologia publicada pela companhia em março de 2026 mostra que o indicador considera água reutilizada e benefícios de projetos de reposição em relação à retirada de água das operações abrangidas, descontadas determinadas fontes consideradas sustentáveis, como água reciclada e água da chuva.
A companhia também afirma priorizar projetos hidrologicamente conectados às suas operações, especialmente em regiões de escassez hídrica, e utilizar avaliação de terceiros para estimar os benefícios volumétricos dos projetos.
Há um aspecto particularmente importante para engenheiros, reguladores e gestores: nem todo benefício hídrico é diretamente medido por um hidrômetro.
Em determinadas iniciativas, o resultado pode ser medido diretamente. Em outras, principalmente soluções baseadas na natureza, precisa ser modelado utilizando precipitação, solo, topografia e outras variáveis. A própria metodologia da Amazon distingue volumes diretamente medidos de estimativas modeladas.
A referência metodológica utilizada é o Volumetric Water Benefit Accounting, ou VWBA.
A versão 2.0 do método, publicada pelo World Resources Institute em 2025, reforça requisitos como compreensão da bacia hidrográfica, adicionalidade do projeto, hipóteses conservadoras, acompanhamento dos resultados e prevenção de dupla contagem.
Portanto, water positive é um mecanismo de contabilidade de benefícios hídricos, e não sinônimo de balanço hídrico de uma companhia de abastecimento.
Misturar os dois conceitos seria um erro técnico.
O crescimento dos data centers coloca água no centro da discussão
Existe uma razão econômica por trás dessa movimentação.
A expansão de computação em nuvem e inteligência artificial exige novos data centers. Além da energia elétrica necessária aos servidores, determinadas arquiteturas de refrigeração utilizam água, principalmente sistemas evaporativos.
O Lawrence Berkeley National Laboratory estimou que o consumo direto de água dos data centers dos Estados Unidos estava na ordem de dezenas de bilhões de litros anuais em 2023 e poderá crescer significativamente à medida que a infraestrutura computacional se expande. Os cenários do estudo para 2028 situavam o consumo direto anual em uma faixa aproximada de 145 bilhões a 275 bilhões de litros, dependendo da evolução tecnológica e do mercado.
Isso não significa que todos os data centers tenham a mesma pegada.
Clima, arquitetura de refrigeração, temperatura operacional, fonte energética, tipo de equipamento, uso de refrigeração líquida e disponibilidade de água reciclada podem mudar radicalmente o resultado.
A AWS informa que sua eficiência hídrica global chegou a 0,12 litro por kWh de carga de TI em 2025, frente a 0,25 L/kWh em 2021. A empresa afirma que o resultado é aproximadamente sete vezes melhor do que uma referência setorial de 0,84 L/kWh utilizada em sua comparação.
No Brasil, a ficha de sustentabilidade da AWS reporta WUE de 0,09 L/kWh em 2025, ante 0,23 L/kWh em 2024.
Há, porém, uma lição importante para gestores: eficiência relativa não substitui consumo absoluto.
Um data center pode reduzir litros utilizados por kWh e, ainda assim, aumentar sua demanda total de água se a capacidade computacional crescer mais rapidamente.
O mesmo princípio vale para companhias de saneamento. Reduzir litros por ligação por dia é importante, mas continua sendo necessário observar volume produzido, disponibilidade hídrica, demanda, continuidade e crescimento da população atendida.
Como funciona a tecnologia utilizada com Sabesp e Compesa
A estratégia de São Paulo utiliza o sistema Nautilus, da Aganova.
Em termos simples, trata-se de inspeção interna de tubulações pressurizadas. O equipamento percorre a adutora coletando sinais acústicos e outras informações enquanto a tubulação permanece em operação.
Posteriormente, algoritmos processam os sinais e procuram padrões associados a vazamentos e anomalias.
A principal vantagem aparece nas grandes adutoras.
Localizar pequenas fugas em uma rede de distribuição setorizada já é difícil. Em linhas de grande diâmetro, longos trechos enterrados e ambientes urbanos complexos, a dificuldade pode ser ainda maior. Uma tecnologia capaz de percorrer a própria tubulação reduz a necessidade de procurar problemas exclusivamente pela superfície.
Entretanto, detectar não significa economizar.
Existe uma cadeia que precisa ser concluída:
detecção → localização → confirmação → priorização → reparo → medição posterior → comprovação da redução de perdas.
Se o vazamento for identificado e permanecer meses sem intervenção, o benefício hídrico não se materializa.
Essa é provavelmente a principal lição operacional do projeto.
IA é uma ferramenta de diagnóstico. A redução efetiva depende da capacidade de campo da companhia.
Recife cria outro laboratório brasileiro
A mesma lógica chegou a Pernambuco.
Amazon, Aganova e Compesa anunciaram em 2026 um projeto para inspecionar aproximadamente 69 quilômetros de tubulações de grande diâmetro no Recife, com expectativa de evitar perdas de cerca de 165 milhões de litros de água por ano quando implantado.
O caso é importante porque transfere a discussão de sustentabilidade para uma atividade extremamente conhecida dos profissionais brasileiros: controle de perdas reais.
Em vez de uma empresa adquirir apenas certificados ambientais ou financiar uma iniciativa distante de sua operação, o capital é direcionado para uma infraestrutura pública existente.
O resultado potencial interessa aos dois lados.
A patrocinadora obtém benefício hídrico elegível para sua estratégia water positive. A companhia de saneamento recebe diagnóstico avançado de ativos, possibilidade de reduzir volume perdido e informações que podem orientar manutenção.
O cliente, se o projeto produzir os resultados esperados, pode ganhar em continuidade e segurança do abastecimento.
Redução de perdas já é obrigação estratégica no Brasil
A oportunidade surge justamente quando a regulação brasileira aumenta a pressão sobre as perdas.
O SINISA 2024, com dados de referência de 2023, apontou perdas nacionais na distribuição próximas de 40% do volume disponibilizado, evidenciando a dimensão estrutural do problema brasileiro.
Além disso, a Portaria MCID nº 788/2024 estabelece, para determinadas condições de acesso a recursos públicos federais, referências de perdas de até 30% e 263 litros por ligação por dia entre 2026 e 2032, reduzindo os valores a partir de 2033.
A regulação avançou ainda mais.
A Resolução ANA nº 275/2025 aprovou a Norma de Referência ANA nº 15/2025, voltada à gestão da redução progressiva e do controle das perdas de água.
A norma exige diagnóstico padronizado, balanço hídrico, separação entre perdas reais e aparentes e estruturação de Planos de Gestão de Redução e Controle de Perdas.
Mais relevante para a discussão trazida pela Amazon: a norma reconhece expressamente instrumentos como PPPs, contratos de performance, linhas de crédito e outros mecanismos de financiamento e também prevê utilização de tecnologias inovadoras, incluindo telemetria, sensores de pressão, vazão e ruído, modelos de previsão de vazamentos, georreferenciamento e medição inteligente.
Ou seja, existe uma convergência.
De um lado, grandes empresas procuram projetos capazes de gerar benefícios hídricos mensuráveis.
Do outro, prestadores brasileiros precisam de capital, tecnologia e resultados comprováveis para reduzir perdas.
É justamente nessa interseção que pode surgir um novo mercado.
Reúso pode ser a segunda grande oportunidade
A estratégia water positive não se limita às perdas.
A Amazon também está expandindo a utilização de água reciclada em seus data centers. Nos Estados Unidos, a empresa pretende ampliar o uso para mais de 120 localidades até 2030. Na Geórgia, 22 projetos de infraestrutura de água recuperada estavam em desenvolvimento para utilizar esgoto tratado no resfriamento de data centers, com expectativa de preservar aproximadamente 80 milhões de galões de água potável por ano quando totalmente operacionais.
É aqui que companhias brasileiras podem encontrar outra oportunidade comercial.
Uma estação de tratamento de esgoto deixa de ser apenas instalação destinada ao atendimento ambiental. Dependendo da localização, qualidade do efluente, tratamento complementar e existência de consumidores próximos, pode transformar-se em fornecedora de água industrial.
O Brasil já possui referências importantes.
O Aquapolo, parceria entre GS Inima Industrial e Sabesp, possui capacidade de produzir até 1.000 litros por segundo de água reciclada para o Polo Petroquímico de Capuava e outras indústrias do ABC Paulista.
Em 2026, a Sanepar abriu processo para selecionar parceiro estratégico destinado ao desenvolvimento, implantação e operação de ativos de água de reúso e saneamento industrial, demonstrando que o produto já começa a ser tratado também como oportunidade de negócio.
A Cagece, por sua vez, vem estruturando a utilização de esgoto tratado como fonte para demandas industriais associadas ao complexo do Pecém, inclusive projetos de hidrogênio.
Para prestadores localizados próximos de grandes data centers, polos industriais, refinarias, siderúrgicas ou projetos de hidrogênio, essa discussão tende a deixar o departamento ambiental e chegar diretamente às áreas comercial, financeira e de novos negócios.
O mundo começa a repetir o mesmo modelo
A Amazon não está sozinha.
Na Irlanda, Microsoft, Uisce Éireann, SUEZ e Aganova estruturaram uma iniciativa semelhante para inspecionar cerca de 40 quilômetros de adutoras estratégicas em Dublin utilizando o Nautilus.
O projeto integra o programa de reposição de água da Microsoft. A utility identifica os ativos e executa os reparos; a tecnologia localiza os vazamentos; parceiros apoiam a implementação; e o benefício hídrico pode contribuir para a estratégia ambiental da empresa patrocinadora.
É quase o mesmo arranjo que começa a aparecer no Brasil.
O Google segue outra estratégia complementar. A empresa mantém meta de repor mais água do que consome até 2030 e informou ter reposto mais de 7 bilhões de galões em 2025 por meio de projetos de gestão hídrica. Também utiliza alternativas como esgoto tratado no resfriamento de data centers e trabalha com utilities locais para desenvolver infraestrutura de água recuperada.
Em Hong Kong, a AWS anunciou um data center que utilizará água reciclada fornecida a partir de infraestrutura pública de recuperação, reduzindo a pressão sobre água potável.
Há, portanto, uma tendência internacional clara: empresas digitais estão deixando de tratar água apenas como insumo e começando a investir na infraestrutura hídrica das regiões onde operam.
O que muda na prática para as companhias de saneamento
O aspecto mais promissor não é a tecnologia específica utilizada pela Amazon.
É o mecanismo de financiamento.
Uma concessionária pode possuir centenas de projetos tecnicamente desejáveis que não avançam porque o retorno financeiro isolado não compete com outras prioridades de investimento.
Um agente privado preocupado com segurança hídrica pode mudar essa equação.
Reduzir um vazamento economiza água bruta, produtos químicos, bombeamento, tratamento e, em alguns casos, investimentos futuros de expansão da oferta.
Entretanto, parte desses benefícios pode não gerar caixa imediatamente para o prestador.
É justamente aí que o cofinanciamento corporativo pode fazer diferença: transformar um projeto ambientalmente relevante, mas financeiramente marginal, em projeto executável.
Ao mesmo tempo, o benefício não deve ser confundido com receita tarifária.
Um milhão de metros cúbicos economizados não representa automaticamente um milhão de metros cúbicos adicionais faturados.
Tudo dependerá de demanda reprimida, capacidade de produção, regime de abastecimento, volumes consumidos autorizados, níveis de pressão e características do sistema.
O que gestores e profissionais devem observar
Para transformar essa tendência em resultado real, algumas condições merecem atenção:
- Linha de base confiável: nenhum projeto de reposição ou perdas deveria começar sem balanço hídrico, macromedição e critério objetivo de comparação antes e depois.
- Responsabilidade pelo reparo: detectar dezenas de vazamentos sem orçamento e equipes para corrigi-los produz relatório, não economia de água.
- Persistência do resultado: é necessário definir por quanto tempo o volume recuperado poderá ser atribuído ao projeto e como mudanças de pressão ou operação serão tratadas.
- Verificação independente: benefícios estimados precisam ser posteriormente confrontados com medições sempre que tecnicamente possível.
- Dupla contagem: o mesmo volume não pode gerar múltiplos créditos ambientais incompatíveis. Patrocinador, utility e demais parceiros precisam estabelecer previamente as regras de atribuição.
- Custo por metro cúbico recuperado: tecnologias sofisticadas devem competir economicamente com setorização, controle de pressão, substituição de redes, pesquisa acústica convencional e outras alternativas.
- Integração com gestão de ativos: vazamento identificado deve alimentar decisões sobre idade, material, criticidade, pressão, histórico de falhas e substituição da tubulação.
- Governança dos dados: contratos precisam definir propriedade, armazenamento, segurança, acesso e utilização das informações produzidas.
- Benefício para o usuário: redução de perdas precisa aparecer também em continuidade, pressão adequada, confiabilidade ou postergação de novos investimentos.
- Alinhamento regulatório: a iniciativa deve conversar com planos municipais, metas contratuais e o Plano de Gestão de Redução e Controle de Perdas previsto pela regulação.
O que pode dar errado
A primeira armadilha é transformar projeção em resultado.
Os 785 milhões de litros anunciados pela Amazon para os novos projetos brasileiros representam benefícios esperados, não volumes já comprovadamente recuperados.
Essa diferença deve permanecer clara durante todo o ciclo do projeto.
A segunda é utilizar indicadores relativos isoladamente.
Melhorar WUE enquanto a infraestrutura cresce rapidamente pode resultar em maior consumo absoluto.
A terceira é financiar diagnóstico sem assegurar execução.
Uma inspeção tecnicamente impecável perde valor se as ordens de manutenção não forem priorizadas.
Existe ainda o risco de escolher projetos principalmente pela facilidade de gerar um número comunicável, e não pelo impacto hídrico mais relevante da bacia.
O próprio VWBA 2.0 procura reduzir esse problema ao exigir análise do contexto local, critérios de adicionalidade, hipóteses defensáveis e prevenção de dupla contagem.
Uma oportunidade pouco percebida: criar uma carteira de projetos hídricos
Existe uma possibilidade estratégica para companhias brasileiras que vai muito além de esperar uma Amazon ou Microsoft procurar um prestador.
Utilities poderiam estruturar previamente uma carteira de projetos elegíveis para financiamento hídrico corporativo.
Projetos de redução de perdas, gestão de pressão, reúso industrial, recuperação de mananciais, eficiência energética associada ao bombeamento, redução de infiltração em sistemas de esgoto e infraestrutura verde poderiam ser preparados com linha de base, estimativa de benefício, investimento requerido, prazo, risco, indicadores e metodologia de verificação.
A lógica é semelhante à preparação de projetos para bancos de desenvolvimento.
Quanto melhor estruturado estiver o problema, maior a possibilidade de captar recursos.
Para áreas de novos negócios, sustentabilidade e planejamento, surge uma competência nova: transformar problemas operacionais em projetos financiáveis por agentes econômicos expostos a riscos hídricos.
A oportunidade comercial dos data centers
Há ainda outro movimento.
Os próprios data centers podem se tornar grandes consumidores de água de reúso.
Isso muda a relação comercial tradicional das companhias de saneamento.
Em vez de vender apenas água potável e prestar esgotamento sanitário, o operador poderá oferecer água de qualidade específica para resfriamento, utilizando efluente tratado como matéria-prima.
Dependendo do caso, isso reduz lançamento de efluentes, preserva mananciais destinados ao abastecimento humano e cria receita adicional.
O exemplo do Aquapolo mostra que essa lógica não é experimental no Brasil.
O que muda agora é a expansão de grandes cargas digitais e a crescente pressão para que essas instalações utilizem fontes alternativas.
Para áreas comerciais das companhias, mapear futuros data centers, polos logísticos e empreendimentos industriais próximos das ETEs pode passar a ser tão importante quanto mapear grandes consumidores atuais.
Water positive não substitui a responsabilidade da utility
Apesar das oportunidades, existe uma fronteira importante.
Capital corporativo não deve substituir planejamento, manutenção e responsabilidade regulatória do prestador.
Uma empresa de tecnologia pode financiar determinada inspeção. Entretanto, cabe à companhia de saneamento conhecer sua rede, administrar pressões, executar manutenção, renovar ativos e cumprir metas contratuais.
A Norma de Referência ANA nº 15/2025 deixa claro que o prestador continua responsável pela estruturação e implementação do plano de perdas, inclusive com justificativa técnico-econômica das intervenções.
A parceria funciona melhor quando acelera uma estratégia já estruturada.
Não quando passa a defini-la.
Reúso também exige atenção regulatória
No Brasil, a Lei nº 11.445/2007, após alteração pela Lei nº 14.546/2023, passou a prever estímulo federal ao uso de águas de chuva e ao reúso não potável de águas cinzas em determinadas aplicações.
Além disso, a Resolução CNRH nº 54/2005 estabeleceu modalidades e diretrizes gerais para reúso direto não potável.
Entretanto, a regulação do reúso continua dependendo do tipo de aplicação, da origem da água, da legislação ambiental, sanitária e estadual e das condições do empreendimento.
Portanto, o crescimento de data centers abastecidos por água reciclada poderá exigir evolução simultânea de infraestrutura, qualidade, regulação e modelos tarifários.
Essa discussão tende a chegar rapidamente aos reguladores.
A principal lição para quem trabalha no saneamento
O caso Amazon mostra uma transformação que pode parecer ambiental, mas é profundamente operacional.
A escassez hídrica está aproximando atores que antes trabalhavam em universos diferentes.
Empresas de tecnologia precisam demonstrar resiliência hídrica. Utilities precisam reduzir perdas e financiar modernização. Agricultores precisam produzir com menos água. Gestores de bacias precisam preservar disponibilidade. Reguladores precisam comprovar resultados.
A tecnologia funciona como elo.
Mas profissionais capacitados continuam sendo o elemento decisivo.
É necessário selecionar o trecho correto da rede, interpretar sinais, entender hidráulica, definir pressão adequada, confirmar vazamentos, planejar intervenções, medir resultados e evitar decisões baseadas exclusivamente em algoritmos.
É justamente por isso que projetos como esses valorizam competências tradicionais do saneamento ao mesmo tempo em que exigem novas capacidades em dados, inteligência artificial, modelagem e sustentabilidade.
Conclusão: o saneamento pode virar destino de capital hídrico
A maior inovação da estratégia water positive talvez não esteja no sensor instalado dentro de uma adutora.
Está no modelo econômico.
Pela primeira vez em escala crescente, gigantes de tecnologia possuem interesse financeiro e reputacional em pagar para que terceiros economizem, reutilizem ou recuperem água.
Isso pode transformar perda de água evitada, efluente tratado, recuperação de mananciais e eficiência de irrigação em ativos ambientais mensuráveis.
Para o saneamento brasileiro, a oportunidade é significativa.
O país possui índices elevados de perdas, grande necessidade de investimentos, enorme produção potencial de água de reúso e empresas obrigadas a entregar metas cada vez mais rigorosas.
Portanto, a discussão sobre water positive não deveria ficar restrita aos relatórios ESG das multinacionais.
Ela pode entrar no planejamento estratégico das companhias de saneamento.
O prestador que souber identificar projetos, construir linhas de base confiáveis, medir benefícios, estruturar contratos e demonstrar resultados poderá encontrar uma nova fonte de tecnologia e capital.
E talvez essa seja a principal mensagem do movimento da Amazon: a água economizada por uma companhia de saneamento está começando a ter valor também para empresas que nunca operaram uma ETA, uma ETE ou uma rede de distribuição.
Com a governança correta, essa convergência pode ajudar o setor a financiar aquilo que seus profissionais tentam fazer há décadas: produzir menos para entregar mais, perder menos água, reutilizar melhor os recursos disponíveis e tornar os sistemas mais resilientes.
Fontes e referências
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Amazon’s water conservation and replenishment efforts around the world
Atualização de 4 de setembro de 2026.
Acessar a publicação da Amazon
Amazon Sustainability
Water Positive Methodology
Março de 2026.
Acessar a metodologia Water Positive
Amazon Web Services — AWS
Brazil Sustainability Fact Sheet
2026.
Acessar a ficha de sustentabilidade da AWS no Brasil
Amazon Sustainability
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Consultado em setembro de 2026.
Acessar a página de gestão hídrica da Amazon
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Volumetric Water Benefit Accounting 2.0: Guidance for implementing, evaluating, and claiming volumetric water benefits of water stewardship projects
17 de setembro de 2025.
Acessar o VWBA 2.0
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Resolução ANA nº 275/2025 e Norma de Referência ANA nº 15/2025 — redução progressiva e controle de perdas
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Acessar a Resolução ANA nº 275/2025
Ministério das Cidades
Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico — SINISA 2024: Abastecimento de Água
Dados de referência de 2023.
Acessar os resultados do SINISA
Ministério das Cidades
Portaria MCID nº 788/2024 — procedimentos relacionados aos índices de perdas de água
1º de agosto de 2024.
Acessar a Portaria MCID nº 788/2024
Presidência da República
Lei nº 11.445/2007 — Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico, texto compilado
Com alterações posteriores.
Acessar a Lei nº 11.445/2007
Conselho Nacional de Recursos Hídricos — CNRH
Resolução nº 54/2005 — modalidades, diretrizes e critérios gerais para reúso direto não potável de água
28 de novembro de 2005.
Consultar a referência oficial da Resolução nº 54/2005
Lawrence Berkeley National Laboratory — LBNL
2024 United States Data Center Energy Usage Report
19 de dezembro de 2024.
Acessar o relatório sobre data centers
Aganova
Amazon and Sabesp partner with Aganova to tackle water losses across São Paulo
17 de novembro de 2025.
Acessar o caso São Paulo
Aganova
Amazon and Aganova to use AI to stop 165 million litres of water waste in Recife
29 de junho de 2026.
Acessar o projeto do Recife
SUEZ
SUEZ joins forces with Microsoft, Uisce Éireann and Aganova to reduce water loss in Dublin
15 de abril de 2025.
Acessar o benchmarking de Dublin
Google
Google announces water stewardship commitments and initiatives
2026.
Acessar as metas hídricas do Google
Aquapolo Ambiental
Sobre nós — produção de água reciclada para uso industrial
Consultado em setembro de 2026.
Acessar informações do Aquapolo
Sanepar
Edital nº 001/2026 — Água de Reúso e Saneamento Industrial
2026.
Acessar o projeto de reúso industrial da Sanepar
Cagece
Cagece vai fornecer água de reúso para usina de hidrogênio verde no Ceará
Publicação institucional.
Acessar o projeto da Cagece



