
Lauren Zuravnsky, Diretora de Projeto e Construção do SWIFT, Hampton Roads Sanitation District (HRSD).
Quase US$ 3 bilhões em investimentos, 38 projetos ativos e capacidade prevista de aproximadamente 189 milhões de litros por dia de água com qualidade compatível com padrões de água potável. Esses números ajudam a dimensionar o SWIFT, programa desenvolvido pelo Hampton Roads Sanitation District, o HRSD, nos Estados Unidos. Entretanto, o aspecto mais importante não está apenas no tamanho da infraestrutura. Está na mudança de lógica operacional: uma água que anteriormente seria lançada no meio ambiente depois do tratamento de esgoto passa a ser submetida a tratamento avançado e utilizada para recuperar um aquífero estratégico. (Smart Water Magazine)
O projeto representa uma das aplicações mais interessantes do reúso potável associado à gestão integrada da água. Além de reduzir o lançamento de nitrogênio e fósforo na região da Chesapeake Bay, a iniciativa pretende recuperar os níveis do aquífero Potomac, reduzir riscos associados à intrusão salina e contribuir para limitar a subsidência do terreno causada pela retirada excessiva de água subterrânea. (Hrsd)
Por isso, o SWIFT oferece uma importante lição aos profissionais do saneamento: uma estação de tratamento de esgoto pode deixar de ser apenas uma instalação destinada ao controle de poluição e passar a integrar a infraestrutura regional de produção e armazenamento de água.
O que é o SWIFT?
SWIFT significa Sustainable Water Initiative for Tomorrow, ou Iniciativa de Água Sustentável para o Amanhã. O programa pertence ao HRSD, empresa regional responsável pelo tratamento de esgoto na região de Hampton Roads, no estado norte-americano da Virgínia.
A lógica é relativamente simples de compreender, embora tecnicamente sofisticada.
Primeiramente, o esgoto passa pelo tratamento convencional e avançado realizado nas unidades do HRSD. Depois disso, em vez de todo o efluente tratado ser lançado nos rios da região, parte da água segue para uma nova sequência de processos de tratamento.
Essa etapa adicional transforma o efluente em uma água que atende aos padrões primários federais de qualidade da água potável. Posteriormente, essa água é ajustada para possuir características químicas compatíveis com a água subterrânea e, finalmente, é introduzida no aquífero Potomac por poços de recarga. (Hrsd)
Portanto, trata-se de uma forma de reúso potável indireto, pois existe uma barreira ambiental — o aquífero — entre a produção da água de reúso e uma eventual utilização futura para abastecimento.
A própria EPA define o reúso potável indireto como aquele no qual a água tratada passa por um reservatório ambiental intermediário, como rio, lago ou aquífero, antes de posteriormente retornar ao sistema de abastecimento. (US EPA)
Um projeto que começou com o problema dos nutrientes
Curiosamente, o SWIFT não nasceu inicialmente como um projeto de segurança hídrica.
A preocupação original estava relacionada à Chesapeake Bay. O HRSD precisava continuar reduzindo as cargas de nutrientes lançadas nos corpos receptores, particularmente nitrogênio e fósforo.
Entretanto, surgiu uma pergunta decisiva: se o efluente já precisaria receber tratamentos cada vez mais sofisticados, por que continuar tratando aquela água como um resíduo?
A partir desse raciocínio, verificou-se que existia outro problema regional extremamente importante: a retirada excessiva de água do aquífero Potomac. Dessa maneira, uma solução inicialmente voltada à qualidade do efluente passou a atender simultaneamente diferentes desafios ambientais. (Smart Water Magazine)
Assim, o reúso potável passou a funcionar como elo entre saneamento, recursos hídricos, adaptação climática e desenvolvimento econômico.
Essa abordagem é frequentemente associada ao conceito de One Water, no qual abastecimento, esgotamento sanitário, águas subterrâneas, drenagem e recursos hídricos deixam de ser analisados como sistemas completamente independentes.
Como funciona o tratamento avançado do SWIFT?
Um dos maiores aprendizados técnicos do projeto está no processo de tratamento.
O HRSD realizou testes comparando dois caminhos tecnológicos: um baseado em membranas e outro predominantemente baseado em processos com carbono.
Depois de estudos em escala piloto, o tratamento baseado em carbono foi selecionado. (Hrsd)
De maneira simplificada, diferentes configurações desenvolvidas ao longo do programa utilizam barreiras como:
- coagulação, floculação e sedimentação;
- ozonização;
- biofiltração;
- carvão ativado granular;
- radiação ultravioleta;
- desinfecção;
- controle de parâmetros químicos;
- monitoramento contínuo da qualidade da água.
Além disso, o projeto continuou evoluindo. A experiência do centro de pesquisa levou a alterações no posicionamento da aplicação de ozônio, ajustes nos biofiltros e controle do potencial de oxirredução antes da recarga do aquífero. A instalação mais recente também incorporou troca iônica especificamente como uma barreira adicional para remoção de PFAS. (Smart Water Magazine)
Esse aspecto demonstra algo fundamental para profissionais de processo: projetos de reúso potável não devem ser tratados como fluxogramas tecnológicos imutáveis.
O tratamento precisa ser determinado pelas características do efluente, contaminantes presentes, destino da água produzida, hidrogeologia, exigências sanitárias e custos de ciclo de vida.
Por que o SWIFT não escolheu osmose reversa?
Talvez essa seja uma das lições técnicas mais interessantes de todo o projeto.
A osmose reversa é amplamente utilizada em sistemas avançados de reúso. Entretanto, o HRSD concluiu que ela não seria necessariamente a melhor solução para o SWIFT.
Os testes mostraram que os sólidos dissolvidos totais, conhecidos pela sigla TDS, tinham papel importante na compatibilidade entre a água produzida e a água existente no aquífero.
A osmose reversa retiraria grande parte desses sais. Consequentemente, seria necessário remineralizar posteriormente a água.
Além disso, a osmose reversa produziria uma corrente concentrada que precisaria ter uma destinação adequada. Naquele contexto específico, isso representaria uma dificuldade adicional.
Segundo a responsável pelo projeto entrevistada pela Smart Water Magazine, o processo baseado em carbono permitiu preservar melhor as características necessárias da água, evitar a geração daquele concentrado e alcançar objetivos de proteção da saúde pública com menores custos de capital e operação para aquela situação. (Smart Water Magazine)
A principal lição, portanto, não é que carvão ativado seja superior à osmose reversa.
A verdadeira lição é outra: a tecnologia deve ser escolhida para o problema, e não o problema adaptado à tecnologia disponível.
Esse princípio é essencial para qualquer projeto de reúso potável.
O aquífero funciona como armazenamento e barreira adicional
Depois do tratamento avançado, a água precisa apresentar características compatíveis com o aquífero Potomac.
Em seguida, ocorre a recarga gerenciada do aquífero, conhecida internacionalmente como Managed Aquifer Recharge — MAR.
Nesse modelo, a água é introduzida deliberadamente no reservatório subterrâneo por meio de poços projetados para essa finalidade. O próprio aquífero passa, portanto, a exercer três funções: armazenamento estratégico, reservatório ambiental e barreira adicional no sistema de segurança. (Hrsd)
No SWIFT Research Center, localizado na Nansemond Treatment Plant, já existe capacidade de produção e recarga de até 1 milhão de galões por dia, aproximadamente 3,8 milhões de litros diariamente. A unidade iniciou a recarga do aquífero em 2018. (Hrsd)
Além disso, segundo a atualização publicada em agosto de 2026, o programa já havia ultrapassado a marca acumulada de 1 bilhão de galões introduzidos no aquífero. (Smart Water Magazine)
De 1 milhão para 50 milhões de galões por dia
A escala do projeto está aumentando rapidamente.
O James River SWIFT foi projetado para alcançar aproximadamente 16 milhões de galões por dia, cerca de 60 milhões de litros.
Já a instalação de Nansemond deverá produzir até 34 milhões de galões por dia, aproximadamente 129 milhões de litros.
Somadas, as duas instalações representam uma capacidade de aproximadamente 50 milhões de galões por dia, ou cerca de 189 milhões de litros diariamente, prevista para o final de 2029 na atual fase do programa. (Smart Water Magazine)
Portanto, o SWIFT está deixando a escala demonstrativa para entrar definitivamente na escala de infraestrutura regional.
Para o profissional de saneamento, essa transição merece atenção especial. Muitos projetos funcionam adequadamente em piloto, porém apresentam dificuldades quando ampliados dezenas de vezes.
Por isso, operação, manutenção, automação, instrumentação, redundância, logística de produtos químicos, consumo energético, substituição de carvão e confiabilidade dos equipamentos precisam ser considerados desde as fases iniciais.
Segurança depende de múltiplas barreiras
Em reúso potável, nenhuma etapa isolada deve ser considerada responsável pela segurança do sistema.
O conceito adotado é o de múltiplas barreiras.
Além do tratamento anterior do esgoto, existem os processos adicionais de tratamento avançado. Existem ainda instrumentos de monitoramento em tempo real, limites operacionais, pontos críticos de controle e mecanismos capazes de impedir que água fora das especificações seja enviada ao aquífero.
O HRSD também monitora parâmetros químicos e microbiológicos e mantém poços destinados ao acompanhamento da água subterrânea depois da recarga. (Hrsd)
Essa lógica aproxima a operação de sistemas de reúso potável dos conceitos utilizados na gestão de riscos sanitários: prevenção de falhas, identificação rápida de desvios e atuação antes que o produto fora de especificação alcance o destino final.
Consequentemente, operadores, técnicos de laboratório, engenheiros de processo, profissionais de automação e especialistas em qualidade da água tornam-se peças fundamentais da segurança sanitária.
A tecnologia não elimina a importância desses profissionais. Pelo contrário, sistemas mais sofisticados tornam a qualificação operacional ainda mais importante.
Monitorar o aquífero passa a fazer parte da operação
Outra mudança de paradigma aparece depois da saída da água da estação.
Em um sistema convencional de tratamento de esgoto, normalmente existe grande atenção ao ponto de lançamento do efluente.
No SWIFT, entretanto, o monitoramento continua depois da recarga.
Poços de acompanhamento permitem verificar o comportamento da água dentro do aquífero. Além disso, hidrogeólogos fazem parte da estrutura técnica do programa.
O USGS participa do acompanhamento da subsidência do terreno por meio de equipamentos conhecidos como extensômetros, capazes de medir pequenas movimentações da superfície em relação às camadas geológicas mais profundas. (USGS)
Dessa forma, a eficiência do sistema deixa de ser medida apenas por indicadores tradicionais como DBO, DQO, sólidos, nitrogênio, fósforo ou turbidez.
Também passam a importar parâmetros como:
- nível piezométrico;
- pressão do aquífero;
- condutividade;
- sólidos dissolvidos;
- carbono orgânico;
- comportamento de contaminantes emergentes;
- compatibilidade geoquímica;
- deslocamento da água subterrânea;
- subsidência do terreno.
Para projetos de reúso potável associados à recarga subterrânea, hidrogeologia e tratamento de água passam necessariamente a trabalhar juntos.
O SWIFT também ensina gestão de grandes projetos
A inovação não está limitada à tecnologia.
Segundo a direção do programa, existem atualmente 38 projetos ativos, envolvendo duas grandes instalações, sistemas de transporte, poços e diversas obras complementares. Para controlar essa estrutura, foi implantada uma função de gestão de programa com acompanhamento integrado de orçamento, cronograma, riscos e documentação contratual. (Smart Water Magazine)
Além disso, foi desenvolvido um plano de gerenciamento do programa com mais de 20 capítulos, atualizado regularmente.
Outro detalhe merece especial atenção: profissionais da operação passaram a trabalhar diretamente nos projetos, em vez de participarem apenas ocasionalmente enquanto mantinham todas as atividades rotineiras.
Isso permitiu inserir experiência operacional ainda durante o projeto.
Também foi adotada uma implantação escalonada. Assim, as lições obtidas em uma unidade puderam modificar as seguintes antes que todas as decisões estivessem definitivamente comprometidas. (Smart Water Magazine)
É uma lição valiosa para companhias de saneamento: o conhecimento do operador precisa chegar ao projeto antes da partida da instalação, e não depois dela.
Comunicação pública também é infraestrutura
A aceitação social é outro componente importante do reúso potável.
O HRSD chegou a criar uma identidade própria para o produto, denominado SWIFT Water®. A estratégia pretendia deixar claro que aquela água representava um produto específico, produzido sob critérios e controles definidos.
O centro de pesquisa também passou a receber visitantes e utilizar demonstrações da água produzida como instrumento de comunicação. (Smart Water Magazine)
A experiência mostra que comunicação não deveria começar quando surgem questionamentos da população.
Em projetos envolvendo água de reúso, comunicação precisa fazer parte do planejamento desde o início, juntamente com engenharia, licenciamento, saúde pública e operação.
Transparência de resultados, linguagem simples, monitoramento independente e participação de instituições acadêmicas também ajudam a construir confiança.
O que o SWIFT ensina ao saneamento brasileiro?
A aplicação integral do modelo norte-americano não poderia ser simplesmente copiada para o Brasil. Condições hidrogeológicas, sanitárias, ambientais e regulatórias precisam ser analisadas localmente.
Entretanto, os princípios técnicos são altamente relevantes.
Em 2026, a própria Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico avançou na discussão de uma Norma de Referência voltada ao reúso não potável proveniente de efluentes dos serviços públicos de esgotamento sanitário. A ANA destacou fatores como segurança técnica, regulação, sustentabilidade e necessidade de ampliar o aproveitamento dos efluentes tratados. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, soluções futuras envolvendo reúso potável exigiriam uma discussão ainda mais ampla envolvendo saúde pública, órgãos ambientais, gestão de recursos hídricos, reguladores e prestadores.
Ainda assim, algumas etapas do SWIFT podem ser aproveitadas imediatamente como referência metodológica:
1. Caracterizar profundamente o efluente disponível.
Não existe tratamento avançado bem projetado sem conhecer a variabilidade da água de entrada.
2. Definir primeiro o destino da água.
A qualidade necessária depende da aplicação final.
3. Comparar tecnologias em piloto.
O SWIFT demonstrou que uma solução aparentemente mais sofisticada nem sempre apresenta melhor custo-benefício.
4. Avaliar resíduos gerados pelo próprio tratamento.
Concentrados, lodos e carvão utilizado também precisam entrar na análise econômica.
5. Implantar múltiplas barreiras.
Segurança sanitária não pode depender de um único processo.
6. Criar pontos críticos de controle.
Processos devem detectar falhas e impedir automaticamente que água fora de especificação siga para o destino.
7. Colocar a operação dentro do projeto.
A experiência de quem operará a instalação precisa influenciar decisões de engenharia.
8. Trabalhar com reguladores desde a concepção.
Licenciamento não deveria aparecer apenas no fim do projeto.
9. Monitorar o sistema depois da entrega da água.
Quando existe recarga de aquífero, o meio subterrâneo passa a fazer parte do sistema operacional.
10. Comunicar antes que apareça resistência pública.
Projetos de reúso dependem de confiança tanto quanto dependem de bombas, filtros e reatores.
Efluente tratado pode deixar de ser passivo e virar ativo
O maior legado do SWIFT talvez seja uma mudança de mentalidade.
Durante décadas, boa parte da engenharia sanitária concentrou esforços em uma pergunta: como tratar o esgoto suficientemente bem para lançá-lo no meio ambiente?
O avanço do reúso potável cria outra pergunta: por que descartar uma água que já recebeu grande investimento em tratamento se ela pode retornar ao ciclo hídrico de maneira segura?
Essa mudança altera a própria função estratégica das estações de tratamento.
Uma ETE passa a ter potencial para se tornar também uma fábrica de água recuperada, uma infraestrutura de proteção de mananciais e, em determinadas condições, uma ferramenta de armazenamento hídrico subterrâneo.
Entretanto, nada disso reduz a responsabilidade humana.
Ao contrário, projetos como o SWIFT demonstram que o futuro do saneamento dependerá cada vez mais de profissionais capazes de integrar tratamento de esgoto, tratamento avançado, hidrogeologia, automação, qualidade da água, gestão de riscos, engenharia de projetos e comunicação pública.
São operadores, técnicos, engenheiros, pesquisadores, laboratoristas, gestores e especialistas que transformam conceitos sofisticados em sistemas seguros funcionando 24 horas por dia.
A tecnologia pode transformar efluente em água de altíssima qualidade. Porém, são os profissionais do saneamento que transformam essa tecnologia em proteção à saúde pública, segurança hídrica e desenvolvimento sustentável.
Fontes
- Smart Water Magazine — entrevista sobre o SWIFT e a estratégia One Water
- HRSD — página oficial do programa SWIFT
- HRSD — funcionamento e objetivos do SWIFT
- HRSD — Advanced Water Treatment Process
- HRSD — Managed Aquifer Recharge
- HRSD — Nansemond Treatment Plant SWIFT Improvements
- U.S. EPA — Alternative Water Sources Research
- U.S. Geological Survey — monitoramento de subsidência na Virgínia
- ANA — discussão da Norma de Referência sobre reúso de efluentes



