Copasa reduz perdas em 2,6 p.p. e troca 654 mil hidrômetros

A Copasa chegou ao segundo trimestre de 2026 com um dado que merece atenção especial dos profissionais de saneamento: o índice de perdas de água na distribuição caiu para 35%, redução de 2,6 pontos percentuais em relação a junho de 2025. Ao mesmo tempo, a companhia substituiu 654 mil hidrômetros nos últimos 12 meses, alcançou 100% de hidrometração e destinou R$ 156 milhões ao programa de combate às perdas somente no primeiro semestre.

Os números mostram uma transformação que vai muito além da troca de medidores. A estratégia combina renovação de redes, controle de pressão, macromedição, tecnologias para identificação de vazamentos, modernização da medição e aumento dos investimentos.

Além disso, a companhia fechou o primeiro semestre de 2026 com R$ 1,5 bilhão em investimentos, crescimento de 27% em relação ao mesmo período de 2025. No segundo trimestre, a receita líquida aproximou-se de R$ 2 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado chegou a R$ 762 milhões.

Para profissionais do setor, entretanto, talvez a informação mais interessante esteja na relação entre perdas de água, medição, faturamento, eficiência operacional e capacidade de investimento.

Copasa chega a 35% de perdas de água

O índice de perdas de água na distribuição da Copasa chegou a 35% em junho de 2026. Um ano antes, estava 2,6 pontos percentuais acima desse nível.

Em termos simples, o indicador procura demonstrar quanto da água disponibilizada ao sistema de distribuição não é efetivamente apropriada como consumo autorizado segundo a metodologia utilizada.

Entretanto, é fundamental fazer uma ressalva técnica: a redução observada não decorre exclusivamente de intervenções físicas nas redes.

Parte da variação está relacionada à adequação metodológica realizada pela ARSAE-MG em alinhamento aos critérios regulatórios nacionais. A metodologia passou a considerar o Consumo Autorizado Não Faturado, que inclui determinados volumes operacionais, emergenciais e sociais.

Portanto, comparar simplesmente os percentuais de períodos diferentes, sem observar alterações metodológicas, pode produzir interpretações equivocadas.

Ainda assim, existem evidências claras de ações operacionais relevantes. Em 2025, por exemplo, a Copasa já havia reduzido seu indicador de perdas na distribuição de 38,1% para 35,6%, ao mesmo tempo em que ampliava programas de substituição de hidrômetros, detecção de vazamentos e modernização das redes.

R$ 156 milhões destinados ao combate às perdas

Somente no primeiro semestre de 2026, aproximadamente R$ 156 milhões foram direcionados ao programa de combate às perdas de água.

Esse valor ajuda a dimensionar uma realidade conhecida pelos profissionais de saneamento: reduzir perdas de maneira estrutural exige investimento contínuo.

Não existe uma solução tecnológica única capaz de resolver o problema.

Um programa consistente normalmente precisa integrar macromedição, micromedição, setorização, controle de pressão, pesquisa ativa de vazamentos, substituição de ramais, renovação de redes, gestão comercial, combate às irregularidades e análise permanente dos dados operacionais.

Por isso, reduzir perdas de água exige integração entre áreas operacionais, comerciais, engenharia, manutenção, tecnologia da informação e planejamento.

É justamente nessa integração que o trabalho dos profissionais de saneamento se torna decisivo. Um vazamento identificado rapidamente, um hidrômetro corretamente dimensionado ou uma inconsistência cadastral corrigida pode parecer uma ação isolada. Quando essas iniciativas são executadas em escala, entretanto, o impacto pode atingir milhões de metros cúbicos e valores financeiros expressivos.

654 mil hidrômetros substituídos em apenas 12 meses

Outro número chama atenção: 654 mil hidrômetros foram substituídos nos últimos 12 meses.

A estratégia inclui medidores inteligentes e equipamentos de maior precisão. Além disso, a Copasa informa ter alcançado índice de 100% de hidrometração.

A renovação do parque de hidrômetros possui relação direta com o controle das perdas de água aparentes.

Com o passar dos anos, determinados medidores podem apresentar submedição. Isso significa que uma parcela da água consumida pelo cliente pode deixar de ser corretamente registrada.

Consequentemente, embora a água tenha sido efetivamente utilizada, parte desse volume pode não aparecer adequadamente no faturamento.

É uma diferença essencial para compreender a gestão de perdas.

As perdas reais representam principalmente vazamentos em adutoras, redes, ramais e reservatórios. Já as perdas aparentes estão relacionadas, entre outros fatores, à submedição, fraudes, ligações clandestinas, erros cadastrais e problemas no processo comercial.

Portanto, trocar hidrômetros não recupera apenas água. Dependendo das características do sistema, a medida pode recuperar receita.

Por que hidrômetros novos podem aumentar o faturamento?

Um hidrômetro não precisa parar completamente para apresentar problema.

Medidores envelhecidos podem perder sensibilidade, principalmente nas vazões menores. Pequenos consumos podem passar sem registro adequado.

Por isso, companhias de saneamento precisam analisar o parque de medição considerando idade, tecnologia, classe metrológica, perfil de consumo, histórico de leituras e retorno econômico esperado da substituição.

A troca indiscriminada de medidores não representa necessariamente a estratégia mais eficiente. O ideal é utilizar dados para identificar os grupos com maior probabilidade de submedição.

Nesse contexto, analytics, inteligência artificial e modelos estatísticos podem ajudar a priorizar substituições.

Assim, a gestão moderna das perdas de água passa também pela inteligência comercial.

Quanto melhor a companhia conhece seu parque de hidrômetros, maior tende a ser sua capacidade de identificar anomalias e direcionar investimentos para os pontos de maior retorno.

Renovação de 351 quilômetros de redes e ramais

A estratégia da Copasa não está concentrada apenas na medição.

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma ampla intervenção prevê a substituição e renovação de aproximadamente 351 quilômetros de redes de água e ramais prediais.

O objetivo inclui melhorar o controle de pressão e combater vazamentos não visíveis.

Essa frente é especialmente importante porque uma parcela significativa das perdas de água pode ocorrer abaixo do solo, sem manifestação evidente na superfície.

Um vazamento subterrâneo pode permanecer ativo durante semanas ou meses.

Por isso, programas modernos utilizam diferentes tecnologias de pesquisa, como geofones, correlacionadores de ruído, sensores acústicos, telemetria e análise de dados.

A própria Copasa já informou utilizar tecnologias de satélite e inteligência artificial na detecção de vazamentos.

Entretanto, tecnologia sem processo não resolve o problema. Detectar um vazamento rapidamente tem pouco valor quando o reparo demora excessivamente. Assim, indicadores como tempo médio de reparo e reincidência precisam acompanhar os indicadores tradicionais de perdas.

Controle de pressão é uma das ferramentas mais importantes

Outra estratégia fundamental é o gerenciamento de pressão.

Quanto maior a pressão na rede, maior tende a ser a vazão de determinados vazamentos e maior pode ser o esforço mecânico sobre tubulações e conexões.

Por outro lado, simplesmente reduzir pressão sem planejamento pode comprometer o abastecimento.

Por isso, a engenharia precisa encontrar equilíbrio entre continuidade, pressão adequada e redução das perdas de água.

Uma das ferramentas utilizadas pelo setor é a válvula redutora de pressão, associada à setorização e ao monitoramento remoto.

Distritos de Medição e Controle também permitem dividir grandes sistemas em áreas menores, facilitando a comparação entre volume disponibilizado e volume efetivamente consumido.

Quando uma determinada área apresenta comportamento fora do padrão, equipes podem concentrar as pesquisas naquele setor.

Essa lógica transforma o combate às perdas de uma atividade predominantemente reativa em uma operação orientada por dados.

Macromedição e micromedição precisam conversar

Não basta medir corretamente o consumo dos clientes.

Também é necessário saber quanto de água está entrando em cada sistema, setor ou distrito.

É justamente a comparação entre macromedição e micromedição que permite construir balanços hídricos mais confiáveis.

A Norma de Referência nº 15/2025 da ANA reforça essa visão ao estabelecer diretrizes nacionais para diagnóstico, planejamento, controle e monitoramento das perdas.

Entre os indicadores considerados estão perdas por ligação, segregação entre perdas reais e aparentes, intermitência, macromedição e incidência de hidrometração.

Portanto, o setor caminha para uma abordagem mais sofisticada.

O percentual global continua importante, porém já não é suficiente para explicar sozinho a eficiência de um sistema.

O que muda com a Norma de Referência nº 15 da ANA

A regulamentação nacional tende a aumentar a importância da gestão estruturada das perdas de água.

A Norma de Referência nº 15/2025 estabelece diretrizes para que prestadores desenvolvam planos formais de redução e controle de perdas.

Um ponto particularmente relevante é a necessidade de diagnóstico padronizado e balanço hídrico.

Além disso, a norma determina que os planos sejam desenvolvidos considerando as características dos municípios e que a escolha entre combater perdas reais ou aparentes seja fundamentada também em análise de custo-benefício.

Esse aspecto representa uma evolução importante.

Em determinadas localidades, substituir redes pode proporcionar maior retorno. Em outras, a prioridade pode estar na renovação de hidrômetros. Existem ainda sistemas nos quais controle de pressão, macromedição ou regularização de ligações podem apresentar melhores resultados.

Assim, gestão de perdas precisa ser economicamente inteligente.

Copasa investe R$ 1,5 bilhão no primeiro semestre

O programa de perdas faz parte de um ciclo muito maior de investimentos.

A Copasa investiu aproximadamente R$ 1,5 bilhão entre janeiro e junho de 2026, crescimento de 27% sobre o mesmo período do ano anterior.

Para 2026, o programa plurianual de negócios da companhia indica investimentos previstos de aproximadamente R$ 3,1 bilhões.

O planejamento aumenta posteriormente: R$ 3,9 bilhões em 2027, R$ 4,8 bilhões em 2028, R$ 4,7 bilhões em 2029 e R$ 4,5 bilhões em 2030.

Somados, são aproximadamente R$ 21 bilhões previstos entre 2026 e 2030.

Esse volume mostra a dimensão do desafio da universalização e modernização dos sistemas.

Rio Manso aumenta segurança hídrica da Grande BH

Outra frente importante envolve a ampliação do Sistema Rio Manso.

O projeto prevê aproximadamente 12 quilômetros de adutoras entre Mário Campos, Sarzedo e Betim e investimento total próximo de R$ 400 milhões.

No primeiro semestre de 2026, um trecho estratégico entrou em operação.

A etapa entregue recebeu aproximadamente R$ 87 milhões e compreende cerca de três quilômetros de adutoras de grande porte, com diâmetro de 1.800 milímetros.

Segundo a companhia, a intervenção acrescentou entre 700 e 1.000 litros por segundo à capacidade e possibilitou incremento de aproximadamente 60 milhões a 86 milhões de litros de água distribuída por dia.

Além de aumentar a capacidade operacional, investimentos dessa natureza precisam caminhar lado a lado com a redução das perdas de água.

A lógica é simples: produzir e transportar mais água enquanto uma parcela elevada continua sendo perdida aumenta custos de energia, produtos químicos e operação.

Receita cresce, mas eficiência precisa acompanhar

No segundo trimestre de 2026, a receita líquida da Copasa ficou próxima de R$ 2 bilhões, crescimento de 8,9% sobre o mesmo trimestre de 2025.

O EBITDA ajustado alcançou aproximadamente R$ 762 milhões, avanço de 11,7%, com margem ajustada de 39%.

Já o lucro líquido ajustado ficou em R$ 275,5 milhões.

Parte da expansão da receita foi favorecida pela revisão tarifária e pelo crescimento do volume medido de água e esgoto.

Entretanto, para profissionais da área comercial, existe uma mensagem adicional: eficiência operacional e eficiência comercial estão cada vez mais conectadas.

Reduzir perdas aparentes pode melhorar o volume medido. Melhorar a medição aumenta a qualidade do faturamento. Melhor cadastro aumenta a capacidade analítica. Melhor análise permite identificar anomalias. E melhores informações permitem direcionar investimentos.

Forma-se, portanto, um ciclo de eficiência.

A grande lição para profissionais de saneamento

O caso da Copasa reforça que programas modernos de perdas de água não pertencem exclusivamente à área operacional.

Eles precisam integrar operação, engenharia e gestão comercial.

Para gestores comerciais, algumas prioridades tornam-se particularmente relevantes: acompanhar a idade do parque de hidrômetros, identificar quedas atípicas de consumo, monitorar imóveis com consumo incompatível, melhorar cadastros, combater irregularidades, integrar macromedição e micromedição e analisar a recuperação de receita após substituições.

Para equipes operacionais, a estratégia envolve setorização, controle de pressão, pesquisa ativa de vazamentos, velocidade de reparo, renovação de redes e ramais, telemetria e melhoria da macromedição.

Já para a gestão corporativa, o desafio é transformar todas essas informações em decisões de investimento.

A pergunta deixa de ser simplesmente “quanto a companhia perde?” e passa a ser “onde ocorre a perda, qual sua natureza, quanto custa eliminá-la e qual intervenção oferece maior retorno?”.

Essa mudança de mentalidade é decisiva.

De 35% para patamares mais eficientes será o desafio

Chegar a 35% representa avanço, mas ainda existe um caminho significativo para reduzir as perdas de água.

E, conforme o indicador diminui, normalmente os próximos ganhos tornam-se mais difíceis.

Vazamentos evidentes são encontrados primeiro. Hidrômetros mais problemáticos são substituídos. Áreas críticas são priorizadas.

Depois disso, cada redução adicional exige dados melhores, maior precisão operacional e investimentos cada vez mais direcionados.

É justamente nesse estágio que os profissionais de saneamento ganham ainda mais importância.

Tecnologia pode detectar anomalias. Inteligência artificial pode priorizar ocorrências. Sensores podem transmitir informações em tempo real. Hidrômetros inteligentes podem ampliar a disponibilidade de dados.

Porém, são os profissionais de saneamento que transformam dados em diagnóstico, diagnóstico em decisão e decisão em resultado.

O desempenho apresentado pela Copasa mostra que o combate às perdas de água está deixando de ser tratado apenas como manutenção de redes para se consolidar como estratégia corporativa envolvendo engenharia, tecnologia, faturamento, regulação, segurança hídrica e sustentabilidade financeira.

Para um setor pressionado pela universalização até 2033, essa integração tende a ser uma das principais competências das companhias de saneamento nos próximos anos.

Fontes