ABES-SP destaca publicações sobre segurança da água

A segurança da água não começa no laboratório e não termina na estação de tratamento. Cada vez mais, o setor de saneamento trabalha com uma lógica diferente: identificar o que pode dar errado antes que o problema alcance o consumidor.

É justamente nesse contexto que o Plano de Segurança da Água ganha importância estratégica no Brasil. Em 21 de agosto de 2026, a ABES-SP reuniu e disponibilizou três publicações técnicas relacionadas à elaboração e implementação dessa ferramenta, ampliando o acesso de profissionais, gestores, municípios e prestadores de serviços a referências práticas sobre gestão preventiva de riscos. (ABES SP⁠)

A iniciativa merece atenção porque representa muito mais do que a divulgação de novos materiais técnicos. Na prática, o Plano de Segurança da Água ajuda a transformar uma operação baseada principalmente em controle de qualidade em uma operação estruturada também sobre prevenção, monitoramento de riscos e resposta antecipada.

Isso muda significativamente a forma de enxergar um sistema de abastecimento.

Em vez de perguntar somente se a água produzida atende aos parâmetros de potabilidade, passa-se a perguntar também: quais eventos podem comprometer essa qualidade amanhã, onde estão os pontos mais vulneráveis do sistema e quais barreiras precisam estar funcionando para impedir que um perigo chegue ao consumidor?

ABES-SP reúne três referências para o setor

A ABES-SP disponibilizou três documentos em sua seção de materiais de consulta:

  • Guia prático para o desenvolvimento de Planos Municipais de Segurança da Água;
  • Plano de Segurança da Água para consumo humano;
  • Guia para elaboração e implementação do Plano de Segurança da Água.

Segundo a entidade, os materiais apresentam diferentes abordagens relacionadas ao desenvolvimento de planos municipais, à gestão dos riscos existentes nos sistemas de abastecimento e aos procedimentos necessários para elaboração e implementação do PSA. (ABES SP⁠)

A disponibilização conjunta dessas publicações facilita a consulta principalmente para equipes responsáveis pela operação de sistemas de abastecimento, controle de qualidade da água, planejamento, engenharia, vigilância sanitária e gestão de riscos.

Além disso, a iniciativa contribui para disseminar conhecimento técnico em um momento no qual a prevenção tende a ocupar espaço cada vez maior na gestão das companhias de saneamento.

Afinal, o que é um Plano de Segurança da Água?

De forma simples, o Plano de Segurança da Água é uma metodologia de gerenciamento preventivo dos riscos relacionados ao abastecimento de água.

A Organização Mundial da Saúde recomenda essa abordagem como uma das formas mais eficazes de garantir continuamente a segurança e a aceitabilidade da água destinada ao consumo humano. O princípio fundamental é analisar toda a cadeia de abastecimento, desde o manancial até o consumidor. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Isso significa que o PSA não deve ficar restrito à Estação de Tratamento de Água.

A avaliação precisa considerar, entre outros elementos:

manancial → captação → adução → tratamento → reservação → distribuição → consumidor.

Cada etapa possui perigos diferentes.

No manancial, por exemplo, podem existir lançamentos de esgoto, produtos químicos, florações de cianobactérias, atividades agrícolas, acidentes ambientais ou eventos extremos.

Na estação de tratamento, falhas na dosagem de produtos químicos, problemas em equipamentos, interrupções de energia ou alterações bruscas da qualidade da água bruta podem representar riscos.

Por outro lado, mesmo quando a água sai da ETA dentro do padrão, ainda existe uma extensa rede de distribuição até o consumidor.

Nesse percurso podem ocorrer rompimentos, pressões negativas, contaminações cruzadas, perda de residual de desinfetante, problemas em reservatórios e diversas outras ocorrências.

Portanto, a grande mudança trazida pelo Plano de Segurança da Água está justamente em tratar o abastecimento como uma cadeia completa de barreiras de proteção.

A lógica muda: de detectar problemas para evitar problemas

Tradicionalmente, grande parte do controle da qualidade da água está associada à coleta de amostras e realização de análises laboratoriais.

Esse trabalho continua sendo indispensável.

Entretanto, existe uma limitação natural: a análise geralmente mostra uma condição que já ocorreu.

O Plano de Segurança da Água, por sua vez, adiciona uma camada preventiva à gestão.

Em vez de depender exclusivamente da detecção posterior de uma irregularidade, procura-se identificar antecipadamente os perigos, avaliar os riscos, estabelecer medidas de controle e verificar permanentemente se essas barreiras estão funcionando.

A OMS estrutura essa abordagem justamente sobre avaliação do sistema, identificação de perigos, priorização de riscos, definição de medidas de controle, monitoramento operacional, procedimentos de gestão e revisão periódica do plano. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Consequentemente, o PSA não substitui o controle laboratorial.

Ele complementa esse controle.

O que significa perigo e risco no abastecimento?

Essa diferenciação é fundamental para os profissionais envolvidos na elaboração do plano.

Um perigo é um agente ou situação capaz de causar dano.

Já o risco considera, de maneira geral, a possibilidade de aquele evento ocorrer e a gravidade de suas consequências.

Imagine, por exemplo, uma captação localizada próxima a uma rodovia pela qual circulam caminhões transportando produtos químicos.

O transporte de substâncias perigosas próximo ao manancial representa uma fonte potencial de perigo.

Entretanto, o nível de risco dependerá de diversos fatores, como frequência do transporte, distância da captação, características do terreno, existência de contenções, tempo de resposta operacional e capacidade de interromper rapidamente a captação.

É justamente essa análise que permite estabelecer prioridades.

Nem todos os problemas possuem o mesmo risco.

Consequentemente, nem todos precisam receber o mesmo nível de investimento ou atenção imediata.

Uma matriz ajuda a definir prioridades

Uma das ferramentas mais utilizadas no Plano de Segurança da Água é a matriz de risco.

De maneira simplificada, dois elementos são considerados:

probabilidade de ocorrência × consequência do evento.

Um evento pouco provável e de baixa consequência pode apresentar risco relativamente pequeno.

Entretanto, uma ocorrência com alta probabilidade e consequência grave pode exigir intervenção imediata.

Esse raciocínio permite transformar uma extensa lista de vulnerabilidades em um plano de ação priorizado.

Assim, recursos financeiros e humanos podem ser direcionados primeiro aos riscos mais críticos.

Para gestores de saneamento, essa característica é especialmente importante, pois praticamente nenhum sistema consegue eliminar todas as vulnerabilidades simultaneamente.

Portaria 888 fortalece a gestão preventiva

No Brasil, o tema possui também relevância regulatória e sanitária.

A Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e o padrão de potabilidade.

Dentro desse arcabouço, a autoridade de saúde pública pode exigir dos responsáveis por Sistemas de Abastecimento de Água e Soluções Alternativas Coletivas a elaboração e implementação de Plano de Segurança da Água para fins de gestão preventiva dos riscos à saúde. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Há ainda outro aspecto relevante.

Segundo o Ministério da Saúde, o responsável pelo abastecimento pode solicitar alteração de parâmetros monitorados e da frequência mínima de amostragem em determinadas situações, porém essa possibilidade está condicionada, entre outros requisitos, à existência do PSA e à avaliação da autoridade de saúde pública. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Portanto, não se trata apenas de produzir um documento.

É necessário demonstrar conhecimento técnico sobre o sistema e capacidade efetiva de controlar os riscos.

ABNT NBR 17080:2023 trouxe uma referência brasileira

Outro avanço importante ocorreu com a publicação da ABNT NBR 17080:2023 — Plano de Segurança da Água — Princípios e diretrizes para elaboração e implementação.

A norma apresenta requisitos relacionados à elaboração, implementação e avaliação dos planos, utilizando uma abordagem de gerenciamento de riscos desde o manancial ou fonte até o ponto de consumo.

Além disso, sua aplicação independe do porte do sistema e das tecnologias utilizadas no tratamento da água. (ABES SP⁠)

Essa característica é importante.

Um Plano de Segurança da Água não deve ser entendido como ferramenta exclusiva de grandes companhias ou grandes sistemas metropolitanos.

Pequenos sistemas também possuem riscos sanitários e operacionais.

Aliás, em determinadas situações, podem apresentar vulnerabilidades ainda maiores devido a limitações de equipe, automação, laboratório, redundância operacional ou capacidade de investimento.

Guia dos Comitês PCJ foi atualizado em 2026

Entre os materiais reunidos pela ABES-SP está o Guia Prático para o Desenvolvimento de Planos Municipais de Segurança da Água.

A segunda edição desse guia foi lançada pelos Comitês PCJ e pela Agência das Bacias PCJ em maio de 2026.

A atualização incorporou as diretrizes da ABNT NBR 17080:2023 e fortaleceu as orientações relacionadas à elaboração, implantação, manutenção e verificação dos planos. (Agência das Bacias PCJ⁠)

Existe ainda um dado histórico relevante.

A primeira edição do guia, publicada em 2020, serviu como uma das referências para a elaboração da própria ABNT NBR 17080:2023. (Agência das Bacias PCJ⁠)

Dessa forma, existe uma evolução importante do conhecimento técnico brasileiro: experiências práticas contribuíram para a normalização e, posteriormente, a nova norma passou a alimentar a atualização dos próprios guias técnicos.

Mudanças climáticas também entram na equação

A segunda edição do manual internacional da OMS sobre Water Safety Plans, publicada em 2023, incorporou com mais força dois elementos: resiliência climática e equidade. (Organização Mundial da Saúde⁠)

Isso possui forte conexão com a realidade brasileira.

Secas prolongadas podem reduzir vazões e aumentar a concentração de determinados contaminantes.

Chuvas intensas, por outro lado, podem elevar rapidamente turbidez, matéria orgânica e carreamento de contaminantes para os mananciais.

Inundações também podem afetar estações elevatórias, unidades de tratamento, sistemas elétricos e estruturas de captação.

Portanto, um Plano de Segurança da Água moderno precisa considerar cenários que antes poderiam ser classificados apenas como excepcionais.

Com eventos climáticos extremos cada vez mais relevantes para a operação, planejamento e segurança hídrica, a gestão de riscos precisa se tornar dinâmica.

O PSA precisa chegar à operação

Um dos maiores riscos na implementação dessa ferramenta é transformar o plano em um documento burocrático armazenado em uma pasta.

Um PSA efetivo precisa chegar ao cotidiano operacional.

Por exemplo, se determinado sistema identifica risco elevado de contaminação do manancial durante chuvas intensas, precisam existir procedimentos claros de monitoramento e resposta.

Se uma zona de abastecimento apresenta histórico frequente de pressão negativa, devem ser identificadas causas, controles e medidas de melhoria.

Se determinado equipamento é crítico para a desinfecção e não possui redundância, essa vulnerabilidade precisa aparecer na análise de risco.

Nesse ponto, os profissionais do saneamento tornam-se essenciais.

Operadores, técnicos, engenheiros, laboratoristas, equipes de manutenção, profissionais de automação, controle de qualidade, recursos hídricos, planejamento, atendimento e gestão possuem conhecimentos diferentes sobre o mesmo sistema.

Por isso, um Plano de Segurança da Água construído somente em escritório dificilmente conseguirá enxergar todas as vulnerabilidades existentes no campo.

O conhecimento do operador tem enorme valor

Um profissional que opera uma ETA há anos frequentemente conhece sinais que dificilmente aparecem em relatórios.

Pode saber, por exemplo, que determinado manancial muda rapidamente depois de uma chuva específica.

Pode conhecer uma adutora que sofre rompimentos recorrentes.

Pode identificar um equipamento que apresenta instabilidade antes de falhar.

Pode conhecer reservatórios que exigem atenção especial.

Esse conhecimento operacional precisa ser incorporado ao processo de avaliação de riscos.

Os profissionais do saneamento são, portanto, parte fundamental da segurança sanitária da população.

Cada ajuste realizado corretamente em uma estação, cada análise de qualidade, cada manutenção preventiva, cada inspeção em reservatórios e cada intervenção na rede fazem parte de uma cadeia invisível de proteção da saúde pública.

PSA também pode orientar investimentos

Existe ainda uma dimensão gerencial relevante.

Quando os riscos do sistema são classificados, torna-se possível relacioná-los aos investimentos necessários para reduzi-los.

Uma companhia pode identificar, por exemplo:

  • necessidade de redundância em equipamentos;
  • melhorias na proteção do manancial;
  • automação de processos;
  • novos analisadores on-line;
  • setorização da rede;
  • melhorias em reservatórios;
  • substituição de redes críticas;
  • proteção de instalações;
  • implantação de geradores;
  • melhoria de laboratórios;
  • revisão de procedimentos operacionais.

Assim, o Plano de Segurança da Água pode contribuir para justificar tecnicamente investimentos e definir prioridades.

Em vez de investir apenas porque determinado equipamento está antigo, passa-se a demonstrar também qual risco operacional ou sanitário aquele investimento reduz.

Essa abordagem aproxima segurança da água, engenharia, planejamento e gestão econômica.

Indicadores e telemetria podem fortalecer o PSA

A digitalização dos sistemas de abastecimento abre novas possibilidades para a gestão de riscos.

Sensores de turbidez, cloro residual, pH, condutividade, pressão, nível de reservatórios e outros parâmetros podem fornecer informações praticamente em tempo real.

Da mesma forma, sistemas supervisórios, telemetria, inteligência de dados e alarmes operacionais permitem detectar desvios rapidamente.

Entretanto, tecnologia isoladamente não resolve o problema.

É necessário saber quais variáveis são críticas, quais limites precisam ser acompanhados e qual ação deve ocorrer quando determinado valor sair da faixa esperada.

É exatamente nesse ponto que o Plano de Segurança da Água pode conectar tecnologia e processo operacional.

Do manancial à torneira: uma responsabilidade compartilhada

A segurança da água depende de diferentes atores.

Prestadores precisam controlar adequadamente captação, tratamento e distribuição.

Municípios possuem responsabilidades relacionadas ao território, planejamento urbano e proteção ambiental.

Órgãos ambientais atuam sobre atividades potencialmente poluidoras.

Autoridades de saúde realizam a vigilância da qualidade da água.

Entidades reguladoras acompanham a prestação do serviço.

Além disso, usuários também possuem responsabilidades sobre instalações prediais e reservatórios internos.

Portanto, proteger a água exige integração.

Quanto melhor forem definidos os riscos e responsabilidades, maior tende a ser a capacidade de prevenção.

O futuro do abastecimento será cada vez mais preventivo

A reunião das três publicações pela ABES-SP ajuda a ampliar o acesso a uma metodologia que tende a ocupar espaço crescente na gestão do abastecimento de água.

A evolução das recomendações da OMS, a Portaria GM/MS nº 888/2021, a ABNT NBR 17080:2023 e a atualização recente dos materiais brasileiros mostram que a segurança da água está caminhando para uma abordagem cada vez mais estruturada e preventiva. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

O desafio, entretanto, não será apenas elaborar planos.

Será incorporá-los ao funcionamento diário das companhias.

O Plano de Segurança da Água precisa conversar com operação, manutenção, laboratório, engenharia, recursos hídricos, planejamento, regulação, tecnologia e gestão.

Quando isso acontece, o PSA deixa de ser apenas um documento técnico.

Transforma-se em uma ferramenta de gestão.

E, acima de tudo, reforça algo que muitas vezes não é percebido pela população: por trás de cada copo de água segura existe uma extensa cadeia de profissionais do saneamento avaliando riscos, controlando processos, realizando análises, mantendo equipamentos e tomando decisões diariamente para proteger a saúde pública.

Fontes