Uma estação de tratamento construída originalmente na década de 1970 passou por uma modernização de US$ 14 milhões e se transformou em peça estratégica para aumentar a segurança hídrica de Maui, no Havaí. O projeto da Lahaina Wastewater Reclamation Facility recebeu, em 2026, o prêmio de Projeto do Ano da Hawaii Society of Professional Engineers. Mais do que modernizar uma ETE, a intervenção mostra como o reúso de água em ETE pode transformar esgoto tratado em recurso hídrico, reduzir a pressão sobre a água potável e aumentar a resiliência de uma região exposta à seca, eventos climáticos extremos e aos impactos dos incêndios de 2023.
A experiência chama atenção porque não foi baseada apenas na construção de novas estruturas. Pelo contrário, parte importante da solução consistiu em reaproveitar unidades existentes, melhorar a equalização das vazões, modernizar bombas e filtros e integrar automação, sensores e controles operacionais. Consequentemente, ativos antes limitantes passaram a participar de um sistema mais estável e preparado para produzir água de reúso de forma confiável.
Para profissionais do saneamento, o caso oferece uma lição particularmente relevante: uma ETE não precisa ser considerada apenas o ponto final do sistema de esgotamento sanitário. Quando tratamento, reservação, distribuição, automação e mercado consumidor são planejados de forma integrada, o efluente tratado pode se tornar um novo produto do próprio setor.
US$ 14 milhões para transformar uma ETE em ativo hídrico
A Lahaina Wastewater Reclamation Facility, conhecida pela sigla WWRF, atende a região oeste da ilha de Maui. A estrutura possuía componentes construídos ainda na década de 1970 e enfrentava um problema conhecido por operadores de ETEs em diversas partes do mundo: grandes variações de vazão ao longo da operação.
Essas oscilações não representam apenas uma dificuldade hidráulica. Quando uma ETE recebe vazões muito diferentes durante determinados períodos, bombas, filtros, tanques e demais etapas de tratamento podem trabalhar fora das condições ideais. Como consequência, aumentam os riscos de instabilidade operacional, desgaste prematuro dos equipamentos e perda de eficiência.
Por isso, um dos pontos centrais do projeto foi justamente estabilizar o comportamento hidráulico da instalação. A modernização passou a utilizar estruturas existentes como parte do sistema de equalização de vazão. Documentos públicos relacionados à obra indicam, por exemplo, a adaptação de antigos decantadores secundários de 1975 para funcionar como tanques de equalização, além de intervenções em bombas, unidades de filtração e outras estruturas da planta.
Em termos simples, o tanque de equalização funciona como um amortecedor hidráulico. Nos períodos de maior entrada de esgoto, parte do volume pode ser temporariamente armazenada. Posteriormente, esse volume é enviado de forma mais controlada para as etapas seguintes.
Assim, evita-se que toda a variação observada na entrada da estação seja transferida diretamente para filtros, desinfecção e demais processos.
Esse conceito é fundamental para qualquer projeto de reúso de água em ETE, porque a confiabilidade da água produzida depende diretamente da estabilidade do tratamento.
O que é a água R-1 produzida em Maui?
No Havaí, a água de reúso recebe classificações de acordo com o nível de tratamento. A chamada água R-1 representa a categoria de maior qualidade para diversos usos não potáveis.
Para ser classificada como R-1, a água precisa passar por processos de oxidação, filtração e desinfecção. A regulamentação havaiana determina, entre outros controles, limites bastante restritivos para coliformes fecais e turbidez. A mediana de coliformes fecais no efluente desinfetado, por exemplo, não deve ultrapassar 2,2 organismos por 100 mililitros, considerando os resultados dos sete dias anteriores analisados.
Além disso, sistemas de filtração precisam atender a critérios contínuos de turbidez. Em unidades utilizando areia, meio granular, tecido ou outros meios sintéticos, por exemplo, a média diária deve permanecer dentro dos parâmetros estabelecidos pela regulamentação. Portanto, não se trata simplesmente de direcionar o efluente de uma ETE para irrigação.
O reúso de água em ETE exige tratamento compatível com o uso, monitoramento, controle operacional e barreiras sanitárias adequadas.
Em Lahaina, a água reciclada de alta qualidade é destinada a aplicações como irrigação de campos de golfe, resorts e parques públicos. Além disso, existe expectativa de ampliação para usos agrícolas. Ao substituir água potável nessas aplicações, preserva-se água de melhor qualidade para usos mais nobres, sobretudo o abastecimento humano.
A dimensão da oportunidade existente em Lahaina
Um relatório de recursos hídricos do Havaí publicado em 2025 ajuda a compreender o tamanho da oportunidade. Naquele momento, a Lahaina WWRF produzia aproximadamente 4,2 milhões de galões por dia de água reciclada, volume equivalente a cerca de 15,9 milhões de litros por dia.
Entretanto, somente aproximadamente 1,7 milhão de galões por dia, ou cerca de 6,4 milhões de litros diários, alcançavam o padrão R-1. Entre os gargalos apontados estavam justamente a capacidade de desinfecção ultravioleta, a reservação e a infraestrutura de distribuição.
A diferença revela um aspecto frequentemente esquecido no reúso de água em ETE: produzir efluente tratado não significa necessariamente conseguir reutilizá-lo.
Além da tecnologia de tratamento, são necessários reservatórios, bombeamento, adutoras, redes específicas, usuários conectados e contratos capazes de criar demanda contínua.
Portanto, o desafio deixa de ser apenas sanitário e passa também a ser hidráulico, operacional, comercial e regulatório.
Equalização de vazão protege filtros e equipamentos
Uma das partes mais interessantes do projeto está justamente na engenharia de processo.
Segundo a Jacobs, responsável pelo projeto, oscilações significativas de vazão anteriormente prejudicavam o tratamento e chegavam a causar danos aos equipamentos. Com a modernização, modelagem avançada de processos e controles integrados passaram a ajudar na estabilização da operação.
Além disso, a instalação recebeu uma arquitetura de automação capaz de sincronizar bombas, válvulas e sensores.
Na prática, significa que decisões operacionais deixam de depender exclusivamente de ações isoladas dos equipamentos. O sistema passa a observar variáveis do processo e atuar de maneira coordenada.
Assim, o reúso de água em ETE passa a depender tanto da engenharia sanitária quanto da automação industrial.
Esse aspecto merece atenção especial no Brasil. À medida que ETEs passam a produzir água para clientes industriais, irrigação, limpeza urbana ou outros consumidores, a previsibilidade da qualidade e da vazão se torna cada vez mais importante.
Para quem compra água de reúso, não basta saber que existe efluente disponível. É necessário saber quanto será entregue, com qual qualidade e com qual confiabilidade.
Reaproveitar infraestrutura reduziu custo e desperdício
Outro diferencial foi evitar a lógica de substituir tudo por estruturas novas.
Bacias, canais e unidades existentes foram reaproveitados e receberam novas funções. Além de diminuir a quantidade de materiais descartados, essa estratégia reduziu necessidades construtivas, custos de capital e a pegada ambiental associada às intervenções.
Esse princípio pode ser especialmente útil para companhias brasileiras com ETEs antigas e áreas já consolidadas.
Antes de projetar grandes expansões, pode ser economicamente interessante realizar um diagnóstico completo dos ativos existentes. Tanques desativados, decantadores fora de operação, reservatórios, canais e estruturas hidráulicas podem eventualmente ser adaptados.
Naturalmente, qualquer reaproveitamento exige análise estrutural, hidráulica, sanitária, elétrica e operacional. Entretanto, o caso de Maui mostra que infraestrutura envelhecida não significa necessariamente infraestrutura sem valor.
No reúso de água em ETE, a engenharia de retrofit pode ser tão estratégica quanto a construção de novas unidades.
Menos dependência de poços de injeção
Existe ainda uma particularidade ambiental importante.
Historicamente, parte do efluente tratado da Lahaina WWRF era encaminhada para poços de injeção subterrânea. Entretanto, estudos financiados por órgãos norte-americanos demonstraram conexão hidrogeológica entre esses poços e águas costeiras próximas.
Um estudo com traçadores divulgado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, identificou que substâncias introduzidas nos poços 3 e 4 chegaram a pontos de descarga submarina próximos à costa. O estudo estimou que aproximadamente 64% do efluente injetado nesses dois poços chegava a duas zonas costeiras identificadas.
A situação ganhou enorme importância jurídica nos Estados Unidos. O caso envolvendo o Condado de Maui chegou à Suprema Corte, que decidiu em 2020 que descargas de fontes pontuais que chegam às águas superficiais através de águas subterrâneas podem exigir licença do sistema NPDES quando forem consideradas o equivalente funcional de um lançamento direto.
Portanto, aumentar o reúso de água em ETE também reduz a quantidade de efluente que precisa encontrar outra forma de disposição.
Em outras palavras, cada metro cúbico reutilizado pode representar simultaneamente um metro cúbico de água potável preservada e um metro cúbico de efluente que não necessita ser lançado ou disposto no ambiente.
Essa dupla vantagem ambiental ajuda a explicar por que o reúso vem ganhando importância em regiões sujeitas à escassez hídrica.
Uma infraestrutura preparada para secas e incêndios
O projeto também precisa ser compreendido dentro da realidade de Maui.
A região enfrenta limitações de disponibilidade hídrica e passou pelos graves incêndios de Lahaina em 2023. Consequentemente, aumentar a diversificação das fontes de água tornou-se ainda mais estratégico para a recuperação e para a resiliência da comunidade.
Utilizar água potável para irrigar jardins, parques, campos de golfe e determinadas culturas agrícolas representa um custo de oportunidade relevante quando existem fontes alternativas seguras.
Por isso, o reúso de água em ETE pode ser entendido como instrumento de segurança hídrica.
Não significa apenas economizar água. Significa criar uma nova fonte previsível dentro do próprio sistema urbano.
Enquanto chuva e disponibilidade dos mananciais podem variar, o esgoto sanitário apresenta geração relativamente contínua nas áreas atendidas. Depois de tratado adequadamente, esse fluxo pode retornar ao ciclo econômico.
Outro investimento de US$ 15,6 milhões ampliará o sistema
Existe um segundo movimento importante em andamento e os valores não devem ser confundidos.
Os US$ 14 milhões divulgados pela Jacobs referem-se à modernização premiada da Lahaina WWRF. Separadamente, em 2025, o Condado de Maui recebeu US$ 15,622 milhões em recursos federais para avançar em outra etapa de expansão do sistema de reciclagem de água.
Esse novo projeto prevê investimentos em estação de bombeamento de efluente, reservatórios, linhas de transmissão, ramais, distribuição e outras estruturas.
Quando concluída essa expansão, a previsão oficial é disponibilizar aproximadamente 3.472 acre-feet de água reciclada por ano. Convertido para unidades mais familiares no saneamento brasileiro, o volume corresponde a aproximadamente 4,28 milhões de metros cúbicos anuais, ou uma média próxima de 11,7 milhões de litros por dia.
O dado reforça outro ensinamento: a infraestrutura de distribuição precisa crescer junto com a capacidade de tratamento.
Uma companhia pode produzir excelente água de reúso dentro da ETE e, ainda assim, não conseguir comercializá-la se os potenciais consumidores estiverem distantes ou se faltarem bombeamento, reservação e rede.
O que o Brasil pode aprender com Maui?
O caso chega em momento relevante para o saneamento brasileiro.
O Marco Legal do Saneamento atribuiu à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico competência para editar normas de referência relacionadas ao reúso de efluentes sanitários tratados. Em 2026, a ANA realizou consulta e audiência públicas específicas para discutir diretrizes de reúso não potável de água proveniente de efluentes do esgotamento sanitário.
A própria ANA identifica como problema regulatório o baixo aproveitamento, no Brasil, dos efluentes produzidos pelas ETEs para reúso não potável. Além disso, a agência vem discutindo questões como segurança jurídica, incentivos econômicos, qualidade proporcional ao uso e definição das responsabilidades dos diferentes atores.
Nesse contexto, algumas lições de Maui se destacam:
- Equalizar vazões antes das etapas críticas: estabilidade hidráulica melhora a confiabilidade operacional.
- Definir a qualidade de acordo com o uso: nem toda aplicação exige o mesmo nível de tratamento.
- Pensar além dos limites da ETE: reservação, bombeamento e rede de distribuição fazem parte do negócio.
- Criar consumidores âncora: indústrias, irrigação, grandes empreendimentos e serviços urbanos podem garantir demanda.
- Automatizar processos: sensores, válvulas, bombas e controles integrados aumentam previsibilidade.
- Reaproveitar estruturas existentes: retrofit pode reduzir CAPEX e tempo de implantação.
- Incluir o reúso no planejamento hídrico: água recuperada precisa ser considerada uma fonte complementar.
- Criar indicadores específicos: volume produzido, volume efetivamente comercializado, qualidade, disponibilidade e receita podem ser acompanhados separadamente.
Essa visão permite que o reúso de água em ETE deixe de ser considerado um projeto ambiental complementar e passe a integrar o planejamento estratégico das empresas de saneamento.
O reúso também cria uma nova frente comercial
Existe ainda uma dimensão pouco explorada.
Quando uma companhia produz água de reúso e encontra consumidores dispostos a utilizá-la, surge uma nova relação comercial. Isso exige definição de preço, qualidade contratada, quantidade mínima, responsabilidade pela infraestrutura, medição, faturamento e regras para interrupções.
Consequentemente, áreas comercial, operacional, engenharia, regulação e jurídico precisam trabalhar de forma integrada.
Em regiões industriais, por exemplo, uma grande ETE pode estar relativamente próxima de consumidores que utilizam água em processos, torres de resfriamento, lavagem ou outras aplicações não potáveis.
Nesse cenário, o reúso de água em ETE pode gerar receita ao mesmo tempo em que reduz a demanda sobre o sistema de abastecimento convencional.
Entretanto, o modelo somente funciona quando existe confiabilidade. Nenhuma indústria relevante deseja substituir parte de sua fonte hídrica por um fornecimento que não possua previsibilidade de vazão ou qualidade.
Por isso, a excelência operacional continua sendo a base do negócio.
Profissionais do saneamento estão no centro dessa transformação
O prêmio recebido pelo projeto de Lahaina também chama atenção para um aspecto que frequentemente permanece longe das manchetes: infraestrutura de reúso depende diretamente de profissionais especializados.
Engenheiros sanitários, civis, eletricistas, mecânicos e de automação trabalham em conjunto com operadores de ETE, técnicos de laboratório, eletromecânicos, equipes de manutenção, especialistas ambientais, planejadores, reguladores e profissionais responsáveis pela gestão comercial.
São essas equipes que transformam conceitos como resiliência hídrica e economia circular em processos funcionando 24 horas por dia.
Um sensor precisa medir corretamente. Uma bomba precisa trabalhar dentro da faixa prevista. Um filtro precisa manter desempenho. O laboratório precisa identificar qualquer desvio. A manutenção precisa atuar antes da falha. A operação precisa compreender o comportamento do processo. E a engenharia precisa transformar essas informações em melhorias permanentes.
Portanto, o reúso de água em ETE não depende apenas de tecnologia. Depende, sobretudo, de pessoas qualificadas capazes de operar sistemas cada vez mais complexos.
Valorizar esses profissionais significa também aumentar a confiabilidade do saneamento.
De ETE a fábrica de recursos
O projeto de Lahaina representa uma mudança conceitual importante para o setor.
Durante décadas, a principal missão das ETEs foi remover poluentes do esgoto antes de sua disposição no ambiente. Essa função continua absolutamente essencial. Entretanto, tecnologias e novas necessidades hídricas estão ampliando esse papel.
Água, nutrientes, energia e outros recursos presentes nos sistemas de esgotamento podem ganhar valor econômico quando existem tecnologia, escala e planejamento adequados.
Assim, uma ETE moderna tende cada vez mais a funcionar como uma unidade de recuperação de recursos.
O caso de Maui mostra essa transformação de forma concreta. Uma infraestrutura originada nos anos 1970 recebeu engenharia de processo, equalização, automação e novas estratégias de aproveitamento para produzir um recurso necessário à própria comunidade.
Para o saneamento brasileiro, o principal aprendizado é claro: ampliar coleta e tratamento continuará sendo fundamental para a universalização, porém a próxima etapa de eficiência pode estar na capacidade de utilizar melhor aquilo que já chega às estações.
Nesse cenário, o reúso de água em ETE pode se tornar uma das principais conexões entre saneamento, segurança hídrica, economia circular, resiliência climática e sustentabilidade financeira.
E, no centro de toda essa transformação, estarão novamente os profissionais responsáveis por projetar, operar, manter, monitorar e aperfeiçoar os sistemas de saneamento.
Fontes
Jacobs – Modernização da Lahaina Wastewater Reclamation Facility e prêmio de engenharia
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County of Maui – Informações oficiais sobre o sistema de reúso e águas residuárias
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Hawaii Department of Health – Regras para água reciclada R-1
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County of Maui – Financiamento de US$ 15,6 milhões para expansão do reúso em Lahaina
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U.S. Bureau of Reclamation – Projetos Title XVI selecionados para financiamento
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U.S. EPA – Estudo de rastreamento dos poços de injeção de Lahaina
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U.S. EPA – Caso County of Maui e descargas através de águas subterrâneas
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ANA – Discussão da Norma de Referência para reúso de efluentes sanitários tratados
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ANA – Situação regulatória e desafios do reúso de efluentes no Brasil
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