Lixo no esgoto: 75 toneladas desafiam Piracicaba

Mais de 75 toneladas de lixo no esgoto foram interceptadas pelo sistema de gradeamento das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e Estações Elevatórias de Esgoto (EEEs) que atendem as bacias do Piracicamirim, Ponte do Caixão e Bela Vista, em Piracicaba (SP). Entre os materiais encontrados estão plásticos, fraldas, tecidos, absorventes, madeira, pedras, cimento, capacetes e até tubos de televisão. 

O número chama atenção, mas a principal lição para quem trabalha com saneamento não está apenas nas toneladas retiradas. Está no que acontece antes de esse material chegar às grades: redução da seção útil das tubulações, obstruções, desgaste de bombas, aumento das desobstruções emergenciais, risco de extravasamentos, necessidade de caminhões de hidrojateamento e sucção, horas de trabalho operacional e possibilidade de refluxo de esgoto para imóveis.

Em outras palavras, o lixo no esgoto transforma um comportamento inadequado do usuário em custo operacional, risco ambiental, demanda de atendimento e problema de experiência do cliente.

E Piracicaba oferece um caso especialmente interessante porque dispõe de infraestrutura robusta de esgotamento sanitário. A operação administrada pela Mirante possui atualmente 25 ETEs, 67 estações elevatórias, cerca de 1.800 quilômetros de redes e trata mais de 40 bilhões de litros de esgoto por ano. Desde 2012, a concessionária informa ter investido mais de R$ 600 milhões no sistema. 

Portanto, a questão é estratégica: mesmo um sistema com ampla cobertura, investimentos e tratamento estruturado continua vulnerável ao que entra na tubulação.

O que aconteceu em Piracicaba

O gradeamento instalado no sistema funciona como uma barreira física. Nas estações elevatórias, grades retêm materiais maiores antes que possam atingir equipamentos de bombeamento. Nas estações de tratamento, etapas de gradeamento capturam resíduos de menor dimensão.

O objetivo não é apenas retirar sujeira. O gradeamento é uma etapa de proteção de ativos.

Segundo a U.S. Environmental Protection Agency (EPA), o peneiramento ou gradeamento é normalmente a primeira operação de uma estação de tratamento de esgoto. Sua função é remover materiais como panos, papéis, plásticos e metais capazes de provocar entupimentos ou danos em equipamentos e tubulações posteriores. Sistemas podem utilizar grades grosseiras e finas, dependendo do projeto e das necessidades da unidade. 

Isso ajuda a compreender por que uma fralda ou pedaço de tecido pode representar muito mais do que alguns gramas de resíduo. Materiais fibrosos podem se prender a outros objetos, acumular gordura e formar massas progressivamente maiores.

O problema também pode chegar às bombas das elevatórias, válvulas, tubulações e demais equipamentos eletromecânicos.

Um cuidado importante ao interpretar as 75 toneladas

A publicação que informa as mais de 75 toneladas não especifica claramente o período usado para consolidar esse volume. Portanto, não é tecnicamente correto transformar o dado automaticamente em média mensal ou anual nem compará-lo diretamente com indicadores de outras concessionárias. 

Essa distinção é importante porque existem diferentes formas de medir resíduos encontrados em sistemas de esgotamento.

Em 2021, por exemplo, foram reportadas 110 toneladas retiradas das redes de Piracicaba; em 2022, 88 toneladas. Já uma limpeza preventiva realizada em 2025 retirou aproximadamente 450 toneladas de areia, pedras e lixo de cerca de cinco quilômetros de coletores. São universos de medição diferentes: material acumulado em grandes coletores não deve ser comparado diretamente com resíduos retidos pelo gradeamento das ETEs. 

Essa é uma lição importante para benchmarking: toneladas absolutas impressionam, mas podem enganar.

Uma companhia que pretende utilizar esse tipo de informação como indicador deveria separar, por exemplo, resíduos de gradeamento, areia, gordura, sedimentos de limpeza de coletores e objetos removidos em desobstruções. Depois, o ideal é normalizar os números por variáveis como volume de esgoto transportado, extensão da rede ou população atendida.

Lixo no esgoto já aparece na rotina operacional

Outro dado ajuda a dimensionar o problema em Piracicaba.

No primeiro semestre de 2025, a Mirante registrou cerca de 6 mil intervenções de desobstrução de rede, número 15% superior ao do mesmo período do ano anterior. A empresa informa que grande parte das ocorrências estava associada à gordura e ao descarte inadequado de resíduos. No mesmo semestre, foram realizadas mais de 6,6 mil vistorias preventivas no âmbito do Programa Ribeirão Limpo. 

Em julho de 2026, outro caso mostrou como a carga pode se concentrar em determinados ativos: somente na Estação Elevatória de Esgoto Bongue foram retiradas mais de 36 toneladas de resíduos nos primeiros meses do ano. Entre eles estavam pedras, plásticos, fraldas, absorventes, panos, cabelos e fios dentais. Para a limpeza dos coletores, são empregados caminhões hidrojato de alta potência capazes de combinar lavagem e sucção. 

Esses números revelam uma oportunidade gerencial pouco percebida: tratar obstrução como dado, e não apenas como ocorrência de manutenção.

Cada ordem de serviço contém informação sobre endereço, horário, tipo de material, equipamento mobilizado, reincidência e trecho da rede. Quando esses dados são georreferenciados e cruzados, podem revelar hotspots onde uma ação preventiva custa menos do que sucessivas intervenções emergenciais.

A regulação de Piracicaba também trata do problema

O descarte inadequado não é apenas uma recomendação ambiental.

A Resolução ARES-PCJ nº 510/2023, que regulamenta os serviços de água e esgoto no município, estabelece expressamente os tipos de lançamento que não podem alcançar o sistema público.

O artigo 146 proíbe materiais capazes de provocar obstrução ou interferir na operação, citando, entre outros, areia, metais, vidro, madeira, pano, lixo, asfalto e estopa. O regulamento também determina a separação das águas pluviais do esgoto sanitário e classifica como irregular o lançamento de água de chuva nos coletores de esgoto. 

Esse ponto é relevante porque o problema pode ser agravado durante eventos de chuva.

Quando água pluvial entra indevidamente em uma rede concebida para receber esgoto sanitário, aumenta a vazão transportada. Ao mesmo tempo, resíduos das ruas podem chegar ao sistema por conexões ou estruturas inadequadas. O resultado potencial é uma combinação particularmente ruim: mais água, mais resíduos e menos capacidade hidráulica disponível.

Como outras companhias brasileiras estão enfrentando o lixo no esgoto

Piracicaba está longe de ser um caso isolado.

A Cagece informou ter retirado mais de 36 mil toneladas de resíduos das redes de esgoto em 2022, incluindo latas, garrafas plásticas e areia. A companhia associa o descarte inadequado a obstruções e extravasamentos e mantém ações permanentes de limpeza e orientação à população. A escala não deve ser comparada diretamente com Piracicaba, porque extensão das redes, população, metodologia de pesagem e tipos de resíduos considerados são diferentes. 

A Sanepar combina comunicação com tecnologia operacional. Além de hidrojateamento e sucção, a companhia utiliza telediagnóstico das redes, com câmeras que inspecionam internamente as tubulações para localizar rachaduras, incrustações, lixo e pontos de obstrução. 

Em Andradina (SP), uma operação ligada à Iguá adotou equipamento compacto de hidrojateamento com reservatório de mil litros e mangueira de 100 metros para substituir parte das desobstruções anteriormente executadas manualmente. A concessionária registrava aproximadamente 40 ordens de serviço mensais relacionadas à atividade quando implantou a solução. 

A Sabesp também trabalha o problema pela frente preventiva. Materiais institucionais da companhia orientam que lixo, restos de alimentos e óleo não sejam destinados à rede e alertam para o risco de retorno do esgoto quando a drenagem pluvial é conectada irregularmente aos coletores sanitários. A empresa mantém ainda histórico de ações de recolhimento de óleo usado para evitar sua entrada na rede. 

O benchmarking brasileiro sugere, portanto, uma combinação de quatro frentes: educação, inspeção, manutenção preventiva e tecnologia de desobstrução.

O que o mundo está fazendo

A experiência internacional mostra que o problema pode atingir dimensão financeira muito relevante.

Na Austrália, a Sydney Water informa gastar até A$ 27 milhões por ano para administrar e remover até 20 mil obstruções em seu sistema de esgoto. Segundo a empresa, lenços umedecidos não descartáveis no vaso estão relacionados a aproximadamente 75% dos bloqueios. A orientação aos usuários é simples: no vaso sanitário, apenas os chamados “3 Ps” — urina, fezes e papel higiênico. 

No Reino Unido, a Thames Water enfrenta os conhecidos fatbergs, massas formadas principalmente pela combinação de gorduras, óleos e materiais que não se desintegram adequadamente.

Em março de 2026, equipes removeram próximo ao aeroporto de Heathrow um fatberg com aproximadamente 500 metros de extensão. A companhia relata mais de 20 mil bloqueios anuais relacionados a gorduras, óleos e graxas e custos de dezenas de milhões de libras relacionados ao problema. 

Mas talvez o exemplo mais interessante esteja na prevenção.

Em agosto de 2026, a Thames Water divulgou que campanhas direcionadas a áreas críticas produziram redução geral de 67% na quantidade de lenços umedecidos descartados na rede nos locais trabalhados. A estratégia combina ferramentas que capturam resíduos, identificação de hotspots, comunicação localizada e mais de 20 mil monitores instalados na rede para ajudar a identificar problemas. 

Há uma diferença relevante em relação às campanhas genéricas: a comunicação passa a ser orientada por dados operacionais.

Em vez de informar toda a população da mesma maneira, a companhia identifica onde o comportamento inadequado efetivamente está gerando obstruções e direciona intervenção, educação e fiscalização.

Essa abordagem tem grande potencial de aplicação no Brasil.

Impactos para as empresas de saneamento

O primeiro impacto do lixo no esgoto é operacional. Grades precisam ser limpas, bombas podem travar, tubulações precisam de hidrojateamento, caminhões e equipes são mobilizados e determinados equipamentos sofrem desgaste adicional.

O segundo é financeiro. Piracicaba não divulgou, na reportagem analisada, quanto as 75 toneladas representaram em custo. Portanto, qualquer estimativa monetária seria especulativa. Entretanto, as milhares de desobstruções registradas no município deixam claro que o problema consome mão de obra, equipamentos e capacidade operacional que poderiam ser destinados a atividades planejadas. 

Existe ainda impacto ambiental. Uma obstrução pode provocar extravasamento antes que o esgoto alcance a ETE, anulando temporariamente justamente a função principal do sistema: transportar o efluente de forma segura até o tratamento.

E há um efeito comercial importante. Para o cliente que presencia esgoto transbordando na rua ou retornando dentro do imóvel, pouco importa inicialmente se a causa foi uma fralda lançada quilômetros acima. A percepção imediata é de falha da empresa de saneamento.

Por isso, gestão de rede de esgoto também é gestão da experiência do cliente.

O que gestores e profissionais devem observar

O indicador mais útil provavelmente não será simplesmente “toneladas de lixo retiradas”.

Uma gestão mais madura pode acompanhar quilos de resíduos de gradeamento por volume de esgoto tratado; desobstruções por 100 quilômetros de rede; reincidência por trecho; número de extravasamentos; eventos de travamento de bombas; horas de caminhão hidrojato; proporção entre manutenção preventiva e corretiva; tempo médio de atendimento; custo por desobstrução; reclamações associadas; concentração de ocorrências por bairro; e presença de gordura nas áreas comerciais.

Esse conjunto permite passar da manutenção reativa para a gestão de causas.

Um mapa que mostre 50 obstruções recorrentes em poucas quadras pode justificar inspeções prediais, revisão de caixas de gordura, fiscalização de ligações pluviais ou ação específica com restaurantes.

É justamente aí que dados operacionais deixam de ser apenas registros de ordem de serviço e viram inteligência de saneamento.

O que pode dar errado

Há um risco de concentrar esforços apenas no final do processo.

Instalar grades mais eficientes protege bombas e ETEs, mas não elimina a causa. Quanto mais lixo chegar ao gradeamento, maior continuará sendo o esforço necessário para retirar, transportar e dar destino ao resíduo.

Outra armadilha é usar toneladas absolutas como indicador de desempenho. Uma redução pode significar melhora no comportamento dos usuários, mas também alteração na metodologia de medição, mudança de ponto de coleta ou diferença de precipitação. Da mesma forma, um aumento pode refletir uma limpeza preventiva mais eficiente.

Por isso, série histórica e padronização da medição são essenciais.

Uma oportunidade: transformar manutenção em prevenção

O caso de Piracicaba sugere uma evolução possível para empresas de saneamento.

Sistemas comerciais sabem onde estão os clientes. Sistemas de manutenção sabem onde ocorrem obstruções. Supervisórios conhecem alarmes de bombas e níveis de elevatórias. Call centers registram reclamações. Equipes de campo encontram fisicamente os resíduos.

A integração dessas bases permite criar uma espécie de mapa de risco de lixo no esgoto.

Com analytics, sensores de nível, inspeção por vídeo e inteligência artificial, seria possível priorizar trechos com maior probabilidade de falha, programar hidrojateamento antes do extravasamento e direcionar campanhas a comunidades, condomínios ou setores comerciais específicos.

A experiência da Thames Water mostra que a tecnologia produz mais valor quando combinada à mudança de comportamento. 

Lições para quem trabalha no saneamento

O lixo encontrado nas grades também evidencia algo que normalmente fica invisível para o cidadão: a importância dos profissionais que mantêm a rede funcionando.

Operadores de ETE, equipes de manutenção, eletricistas, mecânicos, técnicos de redes, engenheiros e profissionais responsáveis pelas elevatórias lidam diariamente com materiais que jamais deveriam chegar à infraestrutura sanitária.

Retirar um pano de uma bomba ou desobstruir um coletor não é simplesmente “limpeza”. Envolve segurança ocupacional, conhecimento da rede, hidráulica, equipamentos de alta pressão, operação eletromecânica e capacidade de responder rapidamente sem interromper um serviço essencial.

A valorização desse trabalho também pode fazer parte da comunicação com o usuário. Mostrar o que acontece depois que um objeto é jogado no vaso ajuda a tornar tangível uma infraestrutura que normalmente permanece enterrada.

Conclusão

As 75 toneladas de lixo no esgoto de Piracicaba são mais do que uma estatística curiosa. Elas revelam um dos paradoxos da operação moderna de saneamento: investimentos milionários, automação, ETEs sofisticadas e centenas de quilômetros de redes ainda podem ter sua eficiência reduzida por decisões tomadas dentro de uma residência, restaurante ou estabelecimento comercial.

A resposta também não está apenas em ampliar grades ou comprar mais caminhões.

O caminho mais eficiente combina engenharia, manutenção preventiva, fiscalização, educação ambiental, dados, tecnologia e comunicação direcionada.

Para os gestores, a principal oportunidade está em transformar cada obstrução registrada em informação sobre causa, localização e comportamento. Para as equipes operacionais, está em utilizar tecnologia para chegar antes da falha. Para as áreas comerciais e de relacionamento, está em mostrar ao usuário que a rede de esgoto é uma infraestrutura compartilhada — e que seu uso inadequado gera custos e consequências para toda a cidade.

No futuro, a melhor companhia não será necessariamente aquela que consegue retirar mais toneladas de resíduos de sua rede.

Será aquela que consegue evitar que essas toneladas entrem nela.

Fontes e referências

  1. Portal Saneamento Básico — reprodução da reportagem sobre Piracicaba
    “Mais de 75 toneladas de lixo desafiam o sistema de esgoto de Piracicaba” — 11/09/2026.
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  2. Mirante
    “Investimento de R$ 600 milhões fortalece esgotamento sanitário em Piracicaba” — 01/07/2026.
    Acessar a fonte⁠Attachment.png
  3. Mirante
    “Manutenção preventiva retira 36 toneladas de lixo do esgoto em Piracicaba” — 13/07/2026.
    Acessar a fonte⁠Attachment.png
  4. Mirante
    “Mais de 6 mil atendimentos para desobstrução da rede de esgoto foram realizados pela Mirante no primeiro semestre de 2025”.
    Acessar a fonte⁠Attachment.png
  5. Mirante
    “Limpeza dos coletores da rede de esgoto retira quase 450 toneladas de resíduos” — 30/05/2025.
    Acessar a fonte⁠Attachment.png
  6. ARES-PCJ — Agência Reguladora PCJ
    Resolução ARES-PCJ nº 510/2023 — Regulamento dos serviços de água e esgotamento sanitário de Piracicaba.
    Consultar a resolução⁠Attachment.png
  7. U.S. Environmental Protection Agency — EPA
    “Wastewater Technology Fact Sheet: Screening and Grit Removal”.
    Consultar o documento técnico⁠Attachment.png
  8. Cagece — Companhia de Água e Esgoto do Ceará
    “36 mil toneladas de lixo foram retiradas das redes de esgoto da Cagece no último ano” — 12/05/2023.
    Acessar a publicação⁠Attachment.png
  9. Sanepar — Companhia de Saneamento do Paraná
    “Lixo na rede de esgoto causa obstrução e danos ao meio ambiente”.
    Acessar a publicação⁠Attachment.png
  10. Iguá Saneamento — Águas Andradina
    “Águas Andradina utiliza novo equipamento para desobstrução de redes de esgoto” — 09/02/2021.
    Acessar a publicação⁠Attachment.png
  11. Sabesp
    Material técnico sobre utilização adequada da ligação e da rede coletora de esgoto.
    Consultar o material⁠Attachment.png
  12. Sydney Water — Austrália
    “Wastewater blockages” e informações operacionais sobre bloqueios da rede.
    Consultar a Sydney Water⁠Attachment.png
  13. Thames Water — Reino Unido
    “Thames Water clears 500-metre fatberg near Heathrow” — 19/03/2026.
    Acessar o caso⁠Attachment.png
  14. Thames Water — Reino Unido
    “‘Hedgehog’ customer awareness campaign cuts flushed wipes by almost two-thirds” — 21/08/2026.
    Acessar o benchmarking⁠Attachment.png