Biossólido na agricultura: BRK leva lodo ao campo

A BRK/Saneatins anunciou no Tocantins uma parceria com a Fazenda Regenerativa Fertilizantes Kairós para transformar resíduos gerados no tratamento de água e esgoto em insumos destinados ao campo. O movimento aproxima duas cadeias que normalmente são administradas separadamente: o tratamento de esgoto, que precisa dar destino seguro ao lodo, e a agricultura, que consome grandes quantidades de nutrientes e matéria orgânica

O potencial é relevante, mas o ponto mais importante para os profissionais de saneamento está além da ideia de “transformar resíduo em fertilizante”. Para que o biossólido na agricultura deixe de ser apenas uma boa iniciativa ambiental e se transforme em uma estratégia operacional, a companhia precisa dominar qualidade sanitária, contaminantes, logística, rastreabilidade, responsabilidade técnica, custo por tonelada e desempenho agronômico.

E há outro aspecto que merece atenção: a divulgação informa que o projeto envolve resíduos de Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Tecnicamente, porém, lodo de ETA, lodo de ETE, biossólido e fertilizante não são automaticamente a mesma coisa. O enquadramento de cada material é determinante para saber como ele poderá ser tratado, registrado e utilizado.

É justamente nessa diferença que começa uma das principais lições do caso.

O que a BRK/Saneatins está fazendo no Tocantins

A iniciativa divulgada em 21 de setembro de 2026 prevê que resíduos remanescentes dos processos de tratamento sejam submetidos a etapas de higienização e compostagem antes da utilização agrícola. Segundo a publicação, o material possui nutrientes como nitrogênio e fósforo e poderá atuar também como fonte de matéria orgânica para o solo. 

A reportagem apresenta a BRK/Saneatins como a primeira concessionária da Região Norte e a segunda do Brasil a estabelecer uma parceria técnica desse tipo com representantes do agronegócio. Entretanto, não foi localizada, durante a apuração, uma base nacional oficial que classifique projetos dessa natureza por ordem cronológica. Portanto, o caráter de “primeira” ou “segunda” deve ser entendido como informação divulgada pela própria iniciativa, e não como ranking nacional independentemente comprovado.

Também não foram divulgados no material consultado dados fundamentais para uma avaliação econômico-operacional completa, como volume anual de lodo a ser processado, investimento necessário, custo de transformação por tonelada, redução esperada de despesas com destinação, culturas que receberão o produto, preço ou modelo de comercialização e resultados agronômicos em escala comercial.

Essas informações serão decisivas para determinar se o projeto conseguirá sair da condição de iniciativa sustentável para se tornar uma nova cadeia de valorização de resíduos do saneamento.

A iniciativa não começou do zero

A própria BRK/Saneatins já havia desenvolvido no Tocantins uma experiência de utilização de biossólido no cultivo de eucalipto. O projeto utilizava lodo proveniente da ETE Pouso do Meio, em Gurupi, com destinação para uma propriedade em Dueré, onde o material era incorporado à compostagem. A iniciativa chegou a receber reconhecimento interno da companhia. 

Isso indica uma evolução interessante: a companhia passa de experiências pontuais de destinação de lodo para uma aproximação mais estruturada com a indústria de fertilizantes e o agronegócio.

Para outras empresas de saneamento, essa trajetória oferece uma pista importante. O caminho mais seguro provavelmente não começa com grandes volumes. Começa com caracterização, testes agronômicos, projetos demonstrativos, monitoramento, criação de procedimentos e construção gradual de confiança com produtores e órgãos ambientais.

Biossólido na agricultura: lodo não vira fertilizante sozinho

No Brasil, a referência ambiental central é a Resolução Conama nº 498/2020, que substituiu a antiga Resolução nº 375/2006 e estabelece critérios para produção e aplicação de biossólidos em solos.

A própria definição regulatória é esclarecedora: biossólido é o produto resultante do tratamento de lodo de esgoto sanitário que atende aos critérios microbiológicos e químicos estabelecidos pela regulamentação e, por isso, encontra-se apto à aplicação no solo. 

Portanto, retirar lodo de uma ETE e encaminhá-lo a uma propriedade rural não significa produzir biossólido.

Existe uma cadeia de controle.

A Resolução 498 determina que a caracterização considere potencial agronômico, redução da atratividade de vetores, qualidade microbiológica e substâncias químicas. O material recebe classificações sanitárias e químicas que influenciam suas possibilidades de utilização. 

A norma estabelece, por exemplo, limites para elementos como arsênio, cádmio, chumbo, cobre, cromo, mercúrio, níquel e zinco.

Além disso, a aplicação deve possuir projeto específico para cada área, elaborado por profissional habilitado e acompanhado de Anotação de Responsabilidade Técnica. O projeto precisa considerar localização, características do solo, dose, forma de aplicação, conservação do solo e da água, restrições legais e condições de segurança. 

A dose também não pode ser simplesmente escolhida em função da disponibilidade de lodo. A resolução determina cálculos relacionados, entre outros fatores, à necessidade de nitrogênio da cultura, às características do biossólido e aos limites químicos aplicáveis. 

Isso muda completamente a lógica gerencial: o campo não é local de descarte; é destino agronômico controlado.

O detalhe que merece atenção: lodo de ETA não é lodo de ETE

A notícia do Tocantins cita resíduos provenientes tanto do tratamento de água quanto do tratamento de esgoto. Essa combinação merece atenção técnica.

O lodo de ETE sanitária contém matéria orgânica e nutrientes provenientes principalmente do esgoto doméstico. Depois de tratamento adequado e atendimento às exigências regulatórias, pode originar biossólido.

Já o lodo de ETA resulta principalmente da remoção de sólidos existentes na água bruta e dos produtos químicos utilizados no tratamento, frequentemente coagulantes à base de ferro ou alumínio.

Por isso, sua utilização agrícola não deve ser automaticamente equiparada à do biossólido de esgoto. Estudos técnicos apontam que o benefício agronômico do lodo de ETA precisa ser demonstrado caso a caso, considerando composição química, nutrientes, contaminantes e possíveis interferências no solo. 

Há, entretanto, caminhos regulatórios para produtos que utilizem diferentes matérias-primas. Em julho de 2026, por exemplo, o próprio Ministério da Agricultura publicou uma autorização denominada “Mix Lodo (ETE+ETA)”, demonstrando que combinações podem ser tecnicamente enquadradas quando submetidas aos procedimentos específicos aplicáveis. Isso não significa autorização genérica para qualquer mistura de lodos. 

Para companhias interessadas nesse mercado, essa distinção é essencial.

O MAPA também entra nessa equação

Quando o material deixa de ser apenas um resíduo ambientalmente destinado e passa a integrar a cadeia de fertilizantes, outra camada regulatória ganha importância.

A Instrução Normativa MAPA nº 61/2020 disciplina fertilizantes orgânicos e biofertilizantes destinados à agricultura. A regulamentação estabelece definições, especificações, garantias, tolerâncias, registro, embalagem e rotulagem. Produtos que utilizam matérias-primas provenientes do tratamento de despejos sanitários são classificados, dentro dessa regulamentação, como fertilizantes orgânicos Classe D

Portanto, uma companhia de saneamento que pretenda construir um verdadeiro negócio de biossólido na agricultura precisa enxergar simultaneamente três mundos: saneamento, gestão ambiental e produção de insumos agrícolas.

É exatamente essa interseção que torna projetos desse tipo tecnicamente interessantes — e gerencialmente complexos.

Por que isso pode ganhar escala no Brasil

A expansão do esgotamento sanitário produzirá um efeito inevitável: quanto mais esgoto for coletado e tratado, maior será a quantidade de sólidos que precisará ser gerenciada.

Os dados mais recentes divulgados pela ANA com base no SINISA 2025 indicam que 62,3% da população brasileira é atendida por rede coletora de esgoto e que 85,2% do esgoto coletado é tratado. No abastecimento de água, a cobertura por rede chega a 84,1% da população. 

A ampliação necessária para as metas de universalização, portanto, não significa apenas construir redes e ETEs. Significa também preparar digestores, desaguamento, secagem, armazenamento, transporte, tratamento e destinação dos resíduos gerados por essas novas instalações.

Ao mesmo tempo, existe demanda do outro lado da cadeia.

O Plano Nacional de Fertilizantes reconhece a elevada dependência brasileira de produtos importados. Documentos oficiais registram que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país vêm do exterior; em 2022, a dependência superou 85%. 

O biossólido evidentemente não substituirá toda essa demanda. Sua composição também não equivale a um fertilizante mineral NPK convencional.

Entretanto, recuperar fósforo, nitrogênio, carbono orgânico e outros nutrientes existentes nos resíduos urbanos pode representar uma fonte complementar regional, especialmente próxima às ETEs.

E aí aparece uma variável decisiva: logística.

Transportar um material com elevado teor de água durante centenas de quilômetros pode consumir boa parte do benefício econômico e ambiental pretendido. Quanto maior o teor de sólidos, maior a concentração de nutrientes transportada por viagem.

Para gestores de ETE, portanto, desaguamento deixa de ser apenas uma etapa operacional. Pode tornar-se uma etapa de viabilização comercial do produto.

O maior benchmark brasileiro está no Paraná

Uma companhia brasileira já demonstra o tamanho que esse modelo pode atingir.

A Sanepar mantém há anos um programa de utilização agrícola de lodo de esgoto. Em 2025, foram destinados mais de 27 mil toneladas, beneficiando 183 agricultores no Paraná. A companhia informa que o programa já ultrapassou aproximadamente meio milhão de toneladas destinadas à agricultura ao longo de sua trajetória. 

Mas o desenvolvimento mais interessante ocorreu em 2026.

A empresa começou a estruturar o SaneBio, avançando da simples destinação gratuita para um modelo de valorização do biossólido. No primeiro edital de 2026 foram ofertadas 1,2 mil toneladas e todo o volume foi reservado. No segundo, a disponibilidade subiu para 1,5 mil toneladas. 

Essa experiência oferece um sinal estratégico para BRK, Sabesp, Embasa, Copasa, Cagece, Caesb, Corsan, Aegea e demais operadores.

O próximo estágio da gestão de lodo pode não ser apenas “quanto custa eliminar esse resíduo?”, mas também “quanto valor é possível recuperar dele?”.

Inglaterra mostra que escala também aumenta o controle

O benchmarking internacional ajuda a colocar o tema em perspectiva.

Segundo a Environment Agency, empresas de água da Inglaterra produziram mais de 800 mil toneladas de biossólidos em 2024, sendo aproximadamente 93% reutilizados em apoio ao solo e à agricultura. 

Trata-se de uma demonstração de que o biossólido na agricultura pode atingir escala industrial.

Porém, o mesmo país está fortalecendo sua estrutura regulatória. Em janeiro de 2026, a Environment Agency atualizou sua estratégia para incluir o lodo no sistema de licenciamento ambiental, substituindo progressivamente uma regulamentação específica mais antiga. 

A razão é relevante: quanto maior a utilização agrícola, maior precisa ser a capacidade de controlar contaminantes, rastrear aplicações e proteger águas superficiais e subterrâneas.

Circularidade não elimina risco. Ela transfere a responsabilidade de gerenciamento para uma cadeia mais ampla.

Nos Estados Unidos, esgoto virou produto comercial

Um dos exemplos internacionais mais interessantes ocorre em Washington.

A DC Water produz o Bloom, fertilizante e condicionador de solo fabricado a partir de biossólidos Classe A de qualidade excepcional da estação Blue Plains.

O processo utiliza tratamento com alta temperatura e pressão, seguido de processos biológicos, incluindo digestão anaeróbia. A unidade informa reciclar aproximadamente 450 toneladas de biossólidos por dia, comercializados para agricultura, paisagismo e recuperação de solos. 

A principal lição não está apenas na tecnologia.

Está na mudança de percepção gerencial.

O material deixou de ser apresentado simplesmente como “lodo tratado” e passou a possuir especificação, marca, composição nutricional, aplicações definidas e mercado.

Esse pode ser um dos caminhos futuros do biossólido na agricultura brasileira: transformar um custo operacional em um produto padronizado.

Europa já discute o passo seguinte: recuperar o fósforo

Outra tendência internacional merece atenção.

Em vez de utilizar todo o lodo diretamente no solo, alguns países estão avançando para tecnologias capazes de separar e recuperar nutrientes específicos.

O projeto europeu LIFE ENRICH, implantado em uma ETE de Murcia, na Espanha, demonstrou tecnologias para recuperar nitrogênio e fósforo das águas residuárias e transformá-los novamente em fertilizantes. A recuperação de fósforo também reduziu em 85% a necessidade de produtos antincrustantes na instalação estudada. 

Na Alemanha, a legislação vai ainda mais longe. A partir de 2029, determinados lodos com concentração de fósforo igual ou superior a 20 gramas por quilograma de matéria seca estarão sujeitos à recuperação obrigatória desse nutriente. Além disso, a aplicação direta de lodo no solo será progressivamente limitada para ETEs de maior porte. 

A tendência mostra que economia circular no saneamento poderá evoluir em duas direções: utilização segura do biossólido e mineração urbana de nutrientes.

A ETE começa, assim, a se aproximar do conceito de unidade de recuperação de recursos.

O que muda financeiramente para uma companhia

Para avaliar corretamente um projeto como o da BRK/Saneatins, não basta contabilizar eventual receita obtida com o fertilizante.

O resultado financeiro precisa considerar toda a cadeia.

Um gestor deveria comparar custo de transporte e destinação convencional, desaguamento, secagem ou compostagem, análises laboratoriais, armazenamento, carregamento, transporte até as fazendas, acompanhamento agronômico, licenciamento, rastreabilidade e eventuais receitas ou custos evitados.

Na prática, o indicador correto seria algo próximo de:

valor líquido da valorização = custo evitado de destinação + valor obtido com o produto − custos adicionais de tratamento, controle e logística.

Uma companhia pode produzir um excelente biossólido e, ainda assim, possuir uma operação economicamente ruim se precisar transportá-lo por longas distâncias ou se o produto apresentar baixo teor de sólidos.

Esse é um dos pontos pouco percebidos na discussão sobre economia circular.

Indicadores que deveriam acompanhar qualquer projeto

Para transformar o biossólido na agricultura em ferramenta de gestão, companhias poderiam acompanhar pelo menos:

  • toneladas de lodo produzidas e toneladas de sólidos secos;
  • percentual do lodo destinado à valorização;
  • teor médio de sólidos após desaguamento;
  • classificação microbiológica e química dos lotes;
  • concentração e disponibilidade de nitrogênio e fósforo;
  • custo completo por tonelada de biossólido produzida;
  • custo evitado de transporte e destinação convencional;
  • quilômetros médios percorridos até a área agrícola;
  • número de propriedades e hectares atendidos;
  • resultados agronômicos e economia obtida pelo produtor;
  • percentual de lotes rejeitados por não conformidade;
  • ocorrências ambientais ou sanitárias;
  • emissões de gases de efeito estufa da alternativa em comparação com a destinação anterior;
  • rastreabilidade desde a ETE até a área e a cultura que recebeu cada lote.

Esses indicadores permitem que sustentabilidade deixe de ser apenas narrativa institucional e passe a ser desempenho operacional mensurável.

O risco invisível: contaminantes emergentes

O reaproveitamento de nutrientes não pode fazer o setor esquecer o que mais existe dentro do esgoto.

Nos Estados Unidos, a EPA publicou em 2025 uma avaliação preliminar sobre PFOA e PFOS — dois compostos do grupo dos PFAS — em lodos de esgoto. Em julho de 2026, a agência avançou e apresentou orientações preliminares específicas para redução de riscos relacionados a PFOA e PFOS em biossólidos. 

A Environment Agency britânica também alerta para a presença potencial de PFAS, resíduos farmacêuticos e microplásticos em biossólidos. 

Isso não significa que todo biossólido seja inseguro.

Significa que a próxima geração de programas provavelmente terá de ampliar o olhar além dos parâmetros historicamente monitorados.

A Resolução Conama 498 já permite que o órgão ambiental exija ensaios adicionais quando houver fundamentação técnica. 

Para companhias brasileiras, a gestão de fontes industriais conectadas à rede também se torna estratégica. Um programa robusto de controle de efluentes não domésticos pode ser tão importante para a qualidade futura do biossólido quanto o próprio tratamento realizado dentro da ETE.

O que gestores devem observar no caso do Tocantins

O verdadeiro teste da parceria BRK/Saneatins–Kairós virá quando os números de operação começarem a aparecer.

Algumas respostas serão especialmente importantes: qual será a quantidade anual processada; quais ETEs e eventualmente ETAs fornecerão matéria-prima; qual teor de sólidos será alcançado; quais culturas receberão o produto; qual será a composição nutricional típica; qual o custo final por tonelada; qual a distância média de transporte; como será feita a rastreabilidade; quem assumirá a responsabilidade agronômica pela aplicação; e qual será a economia efetiva comparada à destinação anterior.

Também será importante saber se o objetivo é apenas utilizar o material diretamente no campo ou desenvolver um fertilizante comercial padronizado.

São modelos de negócio bastante diferentes.

A grande oportunidade para o saneamento

Durante décadas, grande parte das ETEs foi projetada com uma lógica essencialmente linear: receber esgoto, remover poluentes, produzir efluente tratado e dar destino ao lodo.

A economia circular muda essa arquitetura mental.

Água tratada pode se tornar água de reúso.

Biogás pode se transformar em energia ou biometano.

Carbono pode alimentar processos biológicos.

Fósforo e nitrogênio podem retornar à agricultura.

E o lodo, quando adequadamente tratado e controlado, pode deixar de ser exclusivamente um passivo.

Nesse cenário, profissionais que dominarem simultaneamente processos de tratamento, gestão de resíduos, agronomia, legislação, logística e análise econômica passarão a ocupar uma posição cada vez mais estratégica dentro das companhias.

Lições para profissionais de saneamento

O caso da BRK/Saneatins mostra que a inovação mais interessante nem sempre está em instalar um novo equipamento dentro da ETE. Às vezes, ela nasce ao redesenhar o destino de algo que já existe no processo.

A primeira lição é técnica: qualidade vem antes de comercialização. Sem controle microbiológico, químico e operacional consistente, não existe produto confiável.

A segunda é regulatória: lodo, biossólido e fertilizante possuem enquadramentos diferentes. Confundir os conceitos aumenta o risco ambiental e jurídico.

A terceira é econômica: reduzir aterro não basta. É necessário conhecer o custo total da nova rota.

A quarta é logística: água transportada dentro do lodo custa dinheiro. Melhorar o desaguamento pode valer tanto quanto desenvolver o mercado agrícola.

A quinta é comercial: o agricultor não deseja receber um “resíduo do saneamento”. Ele precisa de um insumo com composição conhecida, recomendação agronômica, previsibilidade, segurança e resultado.

A sexta é estratégica: o valor pode estar menos no lodo inteiro e mais nos recursos existentes dentro dele. A experiência europeia de recuperação de fósforo mostra onde parte dessa indústria poderá chegar.

Conclusão

A parceria anunciada pela BRK/Saneatins no Tocantins representa algo maior do que uma alternativa para destinação de lodo.

Ela coloca o saneamento dentro de uma cadeia produtiva que envolve agricultura, fertilizantes, logística, química, gestão ambiental e segurança alimentar.

O potencial existe. O Brasil ainda possui um grande déficit de esgotamento sanitário, precisará ampliar intensamente sua infraestrutura e, consequentemente, produzirá mais lodo. Ao mesmo tempo, permanece fortemente dependente da importação de fertilizantes.

Conectar essas duas realidades é tecnicamente coerente.

Mas o sucesso do biossólido na agricultura dependerá da capacidade de transformar uma matéria-prima extremamente variável em um produto previsível, rastreável, seguro e economicamente competitivo.

Sanepar demonstra que a reciclagem agrícola pode atingir dezenas de milhares de toneladas por ano. A Inglaterra mostra que o modelo pode alcançar escala nacional. A DC Water demonstra que biossólidos podem ganhar marca, mercado e especificação comercial. Espanha e Alemanha indicam que o próximo passo poderá ser recuperar nutrientes individualmente.

Para as empresas brasileiras, a pergunta estratégica já não deveria ser apenas “onde será colocado o lodo produzido pela ETE?”.

A pergunta mais avançada é:

“que recursos existem dentro desse lodo — e quanto valor a companhia está deixando de recuperar?”

Essa mudança de pergunta pode definir uma das próximas fronteiras da economia circular no saneamento.

Fontes e referências

T1 Notícias — BRK/Saneatins une saneamento e agronegócio em parceria inédita de economia circular
21 de setembro de 2026.
Acessar a reportagem⁠

BRK Ambiental — Projetos da BRK/Saneatins premiados no BRK Atitude Inovação
Projeto “Biossólido no Cultivo do Eucalipto”.
Acessar a publicação da BRK⁠

Conselho Nacional do Meio Ambiente — Resolução Conama nº 498/2020
Critérios e procedimentos para produção e aplicação de biossólido em solos.
19 de agosto de 2020.
Acessar a resolução oficial⁠

Ministério da Agricultura e Pecuária — Instrução Normativa nº 61/2020
Regras para fertilizantes orgânicos e biofertilizantes destinados à agricultura.
8 de julho de 2020.
Acessar a norma⁠

Ministério da Agricultura e Pecuária — Legislação de fertilizantes
Página normativa atualizada em julho de 2026.
Consultar a legislação vigente⁠

Ministério da Agricultura e Pecuária — Autorização SISV-SP 08/2026, Mix Lodo ETE+ETA
Publicado em 7 de julho de 2026.
Consultar a autorização⁠

ANA — Água e Desenvolvimento: o papel da ANA na universalização do saneamento
Dados do SINISA 2025 sobre atendimento de água e esgoto.
2026.
Acessar a publicação da ANA⁠

Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Nacional de Fertilizantes
Dados sobre dependência brasileira de fertilizantes importados.
Acessar o Plano Nacional de Fertilizantes⁠

Sanepar — Destinação agrícola do lodo de esgoto
Dados de 2025: mais de 27 mil toneladas e 183 agricultores atendidos.
Conhecer o programa⁠

Sanepar — Novo edital amplia disponibilidade de SaneBio
16 de junho de 2026.
Acessar a publicação⁠

US Environmental Protection Agency — Land Application of Biosolids
Regulamentação e utilização agrícola de biossólidos nos Estados Unidos.
Acessar a EPA⁠

US Environmental Protection Agency — PFAS in Sewage Sludge
Atualização incluindo orientação preliminar publicada em julho de 2026.
Consultar a atualização da EPA⁠

DC Water — Bloom
Programa de fertilizante e condicionador de solo produzido a partir de biossólidos da estação Blue Plains.
Conhecer o projeto Bloom⁠

Environment Agency — Safe and Sustainable Sludge Use
Estratégia regulatória inglesa atualizada em 28 de janeiro de 2026.
Consultar a estratégia⁠

Environment Agency — Chief Regulator’s Report 2024–25
Dados sobre produção e reutilização agrícola de biossólidos na Inglaterra.
Acessar o relatório⁠

Comissão Europeia — LIFE ENRICH
Recuperação de nitrogênio e fósforo de águas residuárias para produção de fertilizantes.
Conhecer o projeto europeu⁠

Joint Research Centre — Closing the phosphorus loop
Estratégias europeias para recuperação de fósforo de águas residuárias e lodos.
Acessar o estudo do JRC⁠

Umweltbundesamt — Compost and sewage sludge
Regras alemãs para recuperação de fósforo e utilização de lodo.
Consultar a referência alemã⁠