Uma estação de tratamento de esgoto dos Estados Unidos colocou em operação uma nova linha capaz de tratar 10 milhões de galões por dia, aproximadamente 37,9 mil m³ de esgoto diariamente, utilizando lodo granular aeróbio. Porém, para os profissionais de saneamento, o aspecto mais interessante do projeto talvez não seja a capacidade.
A experiência da Four Rivers Sanitation Authority, em Rockford, Illinois, mostra como uma companhia pode testar uma tecnologia durante anos, compreender seus riscos operacionais, preparar suas equipes e somente depois levá-la para uma escala muito maior.
A cerimônia de apresentação da nova instalação AquaNereda® está programada para 9 de setembro de 2026. Entretanto, a unidade entrou efetivamente em operação em novembro de 2025. A nova estrutura possui quatro reatores e trabalha em paralelo ao tratamento secundário existente, com o objetivo de ampliar a capacidade da estação e preparar a instalação para limites futuros mais rigorosos de fósforo. (AOL.com)
O caso merece atenção no Brasil porque o lodo granular aeróbio não é uma tecnologia experimental restrita a pequenas instalações. Há aplicações brasileiras em escala real, estudos científicos de longo prazo e projetos cada vez maiores em diferentes partes do mundo.
Mais importante ainda: a discussão não se resume a trocar uma tecnologia por outra. Ela envolve área disponível, consumo de energia, remoção de nitrogênio e fósforo, investimento, automação, qualificação dos operadores e planejamento das ETEs para exigências ambientais futuras.
O que aconteceu em Rockford
A Four Rivers Sanitation Authority implantou uma nova instalação de tratamento secundário baseada em lodo granular aeróbio, conhecida comercialmente na América do Norte como AquaNereda®.
O sistema possui capacidade projetada de 10 MGD — million gallons per day — equivalentes a aproximadamente 37,9 mil m³/dia.
A estrutura inclui quatro reatores de lodo granular, galeria de tubulações, sopradores, bombeamento, sistemas elétricos, mecânicos, instrumentação e controle.
A instalação opera paralelamente ao sistema de lodos ativados existente. Portanto, não se trata simplesmente da retirada da tecnologia convencional e da colocação de outra em seu lugar.
A estratégia é de intensificação e modernização progressiva da ETE. (Autoridade de Saneamento Quatro Rios)
Esse detalhe é relevante porque muitas companhias brasileiras enfrentam exatamente esse problema: precisam aumentar capacidade ou melhorar qualidade de efluente, mas possuem ETEs em operação, espaço físico limitado e pouca possibilidade de interromper o tratamento durante grandes obras.
A tecnologia foi testada antes de ganhar escala
Rockford oferece uma lição especialmente interessante para gestores.
A Four Rivers Sanitation Authority mantém parceria com a Aqua-Aerobic Systems para pesquisa aplicada desde 2011. Em 2017, foi implantada no local uma instalação demonstrativa de lodo granular aeróbio com capacidade de aproximadamente 200 mil galões por dia.
Essa unidade permitiu testar a tecnologia utilizando esgoto real da própria estação.
O projeto demonstrativo tinha ainda objetivos adicionais: treinamento de profissionais, pesquisas sobre o processo e produção de biomassa granular que pudesse ser utilizada como inóculo na partida de futuras instalações. (Aqua-Aerobic Systems)
Ou seja, aproximadamente oito anos separaram a demonstração em escala relevante da entrada em operação, em novembro de 2025, do novo sistema de 10 MGD.
Esse histórico muda a interpretação da notícia.
Rockford não está simplesmente adotando uma tecnologia nova. Está transformando anos de pesquisa operacional em infraestrutura permanente.
Como funciona o lodo granular aeróbio
No sistema convencional de lodos ativados, grande parte dos microrganismos responsáveis pelo tratamento está organizada em flocos.
No lodo granular aeróbio, esses microrganismos formam estruturas compactas chamadas grânulos.
Essa diferença aparentemente simples altera significativamente o comportamento da biomassa.
Os grânulos possuem excelentes características de sedimentação. Além disso, dentro de um mesmo grânulo podem existir regiões submetidas a diferentes concentrações de oxigênio.
A camada externa pode permanecer predominantemente aeróbia, enquanto regiões mais internas apresentam condições anóxicas ou anaeróbias.
Consequentemente, diferentes processos biológicos podem ocorrer em uma estrutura extremamente pequena.
Entre eles estão:
- remoção de matéria orgânica;
- nitrificação;
- desnitrificação;
- remoção biológica de fósforo.
O processo comercial Nereda® utiliza ciclos compostos essencialmente por alimentação/retirada, reação e sedimentação. Durante a operação, estratégias de seleção favorecem a permanência da biomassa que apresenta melhor capacidade de sedimentação. (DOI)
Na prática, isso permite concentrar elevada quantidade de biomassa no reator e acelerar a separação entre sólidos e água tratada.
Por que essa tecnologia chama tanta atenção
Uma das limitações das ETEs convencionais está justamente na quantidade de estruturas necessárias.
Em configurações tradicionais de lodos ativados podem ser necessários tanques de aeração, decantadores secundários, recirculação de lodo e diferentes zonas destinadas à remoção de nutrientes.
O lodo granular aeróbio pode integrar parte dessas funções.
Um estudo clássico publicado na revista científica Water Research avaliou uma instalação em escala real na Holanda. Após aproximadamente cinco meses de partida, foi formada uma biomassa granular estável com concentração superior a 8 g/L.
A planta atendeu requisitos de 7 mg/L de nitrogênio e 1 mg/L de fósforo. No caso estudado, o consumo energético reportado foi de 13,9 kWh por equivalente populacional ao ano, ficando entre 58% e 63% abaixo da média das estações convencionais consideradas na comparação holandesa. (PubMed)
Isso não significa que qualquer ETE que adotar a tecnologia reduzirá automaticamente sua energia nessa proporção.
Características do esgoto, temperatura, limites de lançamento, configuração de processo, aeração e estratégia operacional influenciam diretamente o resultado.
Entretanto, os dados mostram por que a tecnologia passou a ser avaliada com atenção por operadores de grande porte.
O ponto estratégico de Rockford está nos nutrientes
O projeto americano foi planejado para preparar a Four Rivers Sanitation Authority para requisitos futuros relacionados principalmente à remoção de fósforo.
A documentação oficial informa que o sistema de lodo granular aeróbio integra o plano de melhorias destinado ao atendimento de futuros limites de fósforo previstos na licença ambiental NPDES da instalação. (Autoridade de Saneamento Quatro Rios)
Esse é um movimento que merece acompanhamento no Brasil.
A evolução da regulação ambiental tende a aumentar a importância da remoção de nutrientes em determinadas bacias hidrográficas, sobretudo onde existe risco de eutrofização.
Quando uma ETE precisa remover nitrogênio e fósforo em níveis cada vez menores, o custo e a complexidade operacional podem aumentar significativamente.
Portanto, tecnologias capazes de combinar remoção de matéria orgânica e nutrientes em configurações compactas ganham valor estratégico.
O Brasil já tem experiência com lodo granular aeróbio
A discussão está longe de ser exclusivamente americana ou europeia.
A BRK Ambiental já possui experiência operacional relevante com a tecnologia no país.
Em Araguaína, Tocantins, a ETE Lontra utiliza Nereda® e possui capacidade informada pela concessionária de 395 litros por segundo, beneficiando mais de 190 mil habitantes.
A BRK informa também que a instalação é uma das cinco ETEs da companhia que utilizam a tecnologia. (BRK Ambiental)
O caso de Araguaína é particularmente interessante porque demonstra aplicação em condições climáticas brasileiras e em uma instalação de porte significativo.
Segundo a companhia, a escolha foi influenciada pela necessidade de eficiência no uso do espaço, qualidade do efluente, menor dependência de produtos químicos e eficiência energética.
Além disso, a experiência brasileira não começou em Tocantins.
A ETE Deodoro, no Rio de Janeiro, entrou em operação em 2016 com tecnologia Nereda®. O projeto foi concebido para alcançar capacidade futura aproximada de 64,8 mil m³ por dia, correspondente ao esgoto de cerca de 432 mil pessoas. (Haskoning NEREDA®)
Em 2026, outro movimento importante apareceu no estado do Rio de Janeiro.
Foi anunciado o desenvolvimento de um projeto em Arraial do Cabo, envolvendo Prolagos/Aegea, com previsão de aproximadamente 10.368 m³ por dia nesta etapa e utilização da mesma tecnologia de lodo granular. (Haskoning NEREDA®)
Portanto, o benchmarking brasileiro já permite uma conclusão importante: lodo granular aeróbio não deve ser tratado apenas como uma tendência estrangeira.
Existem ativos brasileiros capazes de fornecer aprendizado real de projeto, comissionamento, operação e manutenção.
O que o mundo está fazendo
A escala internacional também cresceu.
Artigo publicado em agosto de 2026 pela IWA Publishing e com participação de pesquisadores da Delft University of Technology analisou experiências de lodo granular aeróbio em ETEs de grande porte.
Segundo o estudo, havia 132 projetos utilizando a tecnologia ou em implantação no início de 2026.
Entre os casos apresentados aparecem instalações em diferentes condições climáticas e configurações híbridas nas quais o lodo granular também é utilizado para intensificar sistemas de lodos ativados existentes.
Em uma das comparações técnico-econômicas apresentadas, uma configuração de lodo granular seguida por ultrafiltração apresentou custo operacional 39% inferior à alternativa comparada de biorreator com membranas, além de maior capacidade de tratamento em área semelhante. (DOI)
Novamente, esse percentual não deve ser generalizado para qualquer projeto.
A principal conclusão é outra: a tecnologia deixou de ser avaliada somente em pequenas demonstrações e passou a competir em estudos de alternativas para grandes ETEs.
O verdadeiro benchmarking de Rockford não é apenas tecnológico
Talvez a maior lição para empresas de saneamento brasileiras esteja no processo de decisão.
A Four Rivers não instalou uma tecnologia emergente diretamente em grande escala.
Primeiro, criou uma parceria de pesquisa.
Depois, utilizou uma planta demonstrativa.
Em seguida, avaliou comportamento do processo, sedimentabilidade, integração com estruturas existentes e possíveis exigências regulatórias futuras.
Finalmente, transformou parte desse conhecimento em um projeto permanente.
A estratégia ajuda a reduzir um dos principais problemas da inovação no saneamento: o risco de experimentar diretamente em uma infraestrutura essencial que precisa funcionar 24 horas por dia.
Essa abordagem pode ser replicada.
Companhias podem estabelecer áreas demonstrativas, pilotos, sandboxes tecnológicos, contratos de desempenho, parcerias com universidades ou fabricantes e protocolos estruturados de avaliação antes de decidir pela implantação em larga escala.
O que gestores de ETE deveriam observar
A análise de uma solução de lodo granular aeróbio não deveria começar pela pergunta “a tecnologia é melhor?”.
A pergunta correta é: para quais condições ela pode ser melhor?
Entre os aspectos que precisam ser estudados estão:
- custo de implantação;
- consumo específico de energia;
- demanda de aeração;
- capacidade de remoção de nitrogênio e fósforo;
- área disponível;
- características do esgoto afluente;
- variação sazonal de vazão e carga;
- estratégia de partida;
- origem do inóculo;
- automação e instrumentação;
- produção e características do lodo excedente;
- integração com digestão e desaguamento;
- manutenção dos equipamentos;
- treinamento da equipe operacional;
- capacidade de suporte tecnológico;
- custo total durante toda a vida útil da instalação.
Sobretudo, a comparação precisa considerar CAPEX e OPEX em conjunto.
Uma alternativa mais cara para construir pode consumir menos energia e produtos químicos. Por outro lado, uma solução compacta pode evitar aquisição de terreno ou grandes obras civis.
É justamente essa visão de ciclo de vida que transforma tecnologia em decisão de engenharia.
O que pode dar errado
Apesar dos resultados promissores, o lodo granular aeróbio não deve ser tratado como solução universal.
A literatura científica registra desafios envolvendo tempo de formação dos grânulos, estabilidade da biomassa, características do esgoto, temperatura e condições operacionais.
Uma revisão brasileira publicada na revista Engenharia Sanitária e Ambiental destaca relatos de instabilidade da biomassa, formação lenta dos grânulos quando se utiliza esgoto real, grânulos pequenos e acúmulo de nitrito em determinadas condições. (SciELO)
Revisão internacional publicada em 2024 também aponta o tempo de startup e a estabilidade dos grânulos entre os desafios relevantes para ampliação do uso do processo. (DOI)
Isso reforça a importância do comissionamento.
Experiências brasileiras analisadas pelo fornecedor da tecnologia indicam partidas tipicamente entre 30 e 120 dias, dependendo do inóculo, condições operacionais e estratégia adotada. A inoculação com biomassa granular ou lodo ativado pode acelerar o desenvolvimento quando comparada ao início baseado somente em esgoto bruto. (Haskoning NEREDA®)
Portanto, simplesmente construir reatores não garante desempenho.
A competência das equipes de processo, operação, laboratório, automação e manutenção continua sendo determinante.
Uma oportunidade importante para profissionais brasileiros
O avanço do lodo granular aeróbio cria uma necessidade adicional no setor: formação técnica.
Operadores precisam compreender comportamento da biomassa.
Laboratórios precisam acompanhar indicadores relacionados à granulação e sedimentabilidade.
Engenheiros precisam saber comparar tecnologias e dimensionamentos.
Equipes de automação passam a ter papel ainda mais relevante na manutenção dos ciclos e condições operacionais.
Gestores precisam compreender CAPEX, OPEX e riscos tecnológicos.
Áreas ambientais e regulatórias precisam avaliar limites presentes e futuros.
Consequentemente, uma inovação de processo altera também o perfil das competências necessárias dentro das companhias.
Lições para quem trabalha no saneamento
O caso de Rockford deixa pelo menos cinco aprendizados diretamente aplicáveis.
1. Inovação não precisa significar assumir riscos desnecessários.
Tecnologias podem ser testadas progressivamente antes de grandes investimentos.
2. A regulação futura deve entrar no planejamento atual.
A instalação americana está sendo preparada hoje para requisitos de nutrientes que podem se tornar mais rigorosos.
3. Área física tornou-se variável estratégica.
Em ETEs cercadas pela expansão urbana, intensificar o tratamento dentro do terreno existente pode ter enorme valor econômico.
4. Energia precisa fazer parte da escolha tecnológica.
Aeração está entre os grandes consumidores de eletricidade do tratamento biológico. Pequenas diferenças de eficiência acumuladas durante décadas podem representar valores expressivos.
5. Tecnologia não substitui conhecimento operacional.
Quanto mais sofisticado o processo, maior a necessidade de equipes capazes de interpretar dados, microbiologia, automação e comportamento da estação.
O que essa experiência ensina para o futuro das ETEs
A nova instalação de Rockford representa mais do que uma aplicação de AquaNereda.
Ela mostra uma mudança na forma como grandes operadores podem planejar a evolução do tratamento de esgoto.
ETE moderna não precisa ser projetada apenas para atender o limite ambiental atual. Ela pode ser planejada para acomodar futuras exigências, novas tecnologias, crescimento da vazão e objetivos de eficiência energética.
Nesse contexto, o lodo granular aeróbio surge como uma das alternativas que merecem entrar com maior frequência nos estudos de concepção e comparação tecnológica realizados no Brasil.
Isso não significa que deva substituir automaticamente sistemas UASB, lodos ativados, MBR, MBBR ou outras tecnologias.
Significa que já existem evidências suficientes para que seja tecnicamente avaliado.
A principal lição de Rockford, portanto, talvez não esteja dentro dos quatro novos reatores.
Está no método utilizado para chegar até eles: pesquisar, testar, aprender, capacitar, comparar e somente então investir em escala.
Para um setor que precisará expandir o tratamento de esgoto ao mesmo tempo em que enfrenta pressão por eficiência, sustentabilidade e maior qualidade ambiental, essa forma de tomar decisões pode ser tão importante quanto a própria tecnologia.
Fontes e referências
Rockford Register Star / AOL
“Rockford unveils new energy efficient water system” — 2 de setembro de 2026.
Acessar a matéria
Four Rivers Sanitation Authority
“Aerobic Granular Sludge Project, Phase 1, Capital Project No. 2207 — IEPA Project No. L17-6127”.
Acessar a documentação do projeto
Four Rivers Sanitation Authority
“Cultivating a Culture of Innovation” — histórico de pesquisa e implantação de novas tecnologias na ETE de Rockford.
Acessar a publicação
Aqua-Aerobic Systems
“On-Site Demonstration Facilities” — informações sobre a planta demonstrativa AquaNereda em Rockford.
Acessar a página técnica
IWA Publishing — Water Practice & Technology
Giesen, A. et al. “Experiences with aerobic granular sludge for large urban wastewater treatment plants” — 2026.
Acessar o artigo científico
Water Research / PubMed
Pronk, M. et al. “Full scale performance of the aerobic granular sludge process for sewage treatment” — 2015.
Acessar o estudo no PubMed
Engenharia Sanitária e Ambiental — SciELO
“Tecnologia de lodo granular aeróbio no tratamento de esgoto doméstico: oportunidades e desafios”.
Acessar a revisão científica brasileira
BRK Ambiental
“Trabalho da BRK evita que mais de 1 bilhão de litros de esgoto sejam despejados em rios e córregos de Araguaína” — 14 de outubro de 2024.
Acessar a publicação
BRK Ambiental
Relatório ESG 2023 — informações sobre a adoção da tecnologia Nereda e a ETE Lontra.
Acessar o relatório
Haskoning / Nereda
“Brazil — Deodoro, Rio de Janeiro” — informações técnicas e capacidade da ETE Deodoro.
Acessar o caso Deodoro
Haskoning / Nereda
“Start of development announced for Arraial do Cabo wastewater treatment project” — 6 de maio de 2026.
Acessar o projeto de Arraial do Cabo
Haskoning / Nereda Brasil
“Estratégias de Start-up em Estações de Tratamento de Esgoto com Lodo Granular Aeróbio” — comparação de quatro casos brasileiros.
Acessar o estudo de casos brasileiros



