Multa da Sabesp: lições para estações elevatórias

A multa da Sabesp de aproximadamente R$ 29,9 milhões, aplicada em primeira instância administrativa pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), merece ser analisada por profissionais do saneamento por um motivo que vai muito além do valor financeiro: cerca de R$ 23 milhões estão relacionados a nove estações elevatórias de esgoto fiscalizadas na capital paulista, enquanto outros R$ 6,9 milhões se referem ao cumprimento de metas contratuais de saneamento em Ferraz de Vasconcelos. As decisões ainda admitem recurso administrativo. (noticias.uol.com.br)

Para operadores, engenheiros, gestores de manutenção, equipes ambientais, regulatórias e de planejamento, o episódio levanta uma questão muito mais relevante do que simplesmente perguntar quanto uma concessionária terá de pagar: como evitar que falhas operacionais, manutenção insuficiente, problemas de ativos ou atrasos no cumprimento de obrigações se transformem em risco ambiental, regulatório e financeiro?

Essa pergunta ganha ainda mais importância num período em que empresas brasileiras estão acelerando investimentos bilionários para alcançar a universalização.

A principal lição talvez seja esta: construir infraestrutura é essencial, mas operar, manter, monitorar e demonstrar ao regulador que cada ativo está funcionando adequadamente é igualmente estratégico.

O que aconteceu com a Sabesp

Segundo informações divulgadas a partir das decisões da Arsesp, as penalidades somam R$ 29.915.304,81.

A maior delas, de R$ 22.992.610,60, está relacionada a inspeções realizadas em janeiro de 2025 em nove estações elevatórias de esgoto localizadas na cidade de São Paulo. A Arsesp considerou procedentes nove infrações. Em quatro delas, houve aplicação de agravante de 30% associada, segundo o regulador, à existência de “danos irreversíveis”. A interpretação e a penalidade ainda podem ser questionadas administrativamente pela companhia. (noticias.uol.com.br)

A segunda penalidade, de R$ 6.922.694,21, envolve Ferraz de Vasconcelos e cinco infrações relacionadas ao cumprimento de metas contratuais referentes ao abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Segundo a Sabesp, esses fatos estão vinculados a obrigações do contrato anterior e a período precedente à desestatização concluída em 2024. (noticias.uol.com.br)

É importante registrar uma limitação relevante da informação disponível: nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, não foi localizada uma descrição técnica individualizada das falhas encontradas em cada uma das nove elevatórias. Portanto, seria incorreto atribuir o caso, sem documentação adicional, a defeito de bombas, falta de gerador, transbordamento, telemetria deficiente, entupimento ou qualquer outra causa específica.

A Sabesp informou que as elevatórias mencionadas estão atualmente operando normalmente e argumentou que ocorrências dessa natureza também podem sofrer influência de chuvas intensas e fatores externos. (UOL Notícias)

É justamente nessa diferença entre o fato confirmado e as possíveis causas técnicas que começa uma das principais lições do episódio.

Um detalhe importante: EEE não é ETE

A penalidade de maior valor não está relacionada, conforme as informações divulgadas, a nove estações de tratamento de esgoto.

Trata-se de estações elevatórias de esgoto — as EEEs.

A diferença é fundamental.

Uma estação de tratamento de esgoto, ou ETE, utiliza processos físicos, químicos e principalmente biológicos para remover contaminantes antes da devolução do efluente tratado ao meio ambiente.

Já uma estação elevatória existe principalmente para bombear o esgoto de uma cota mais baixa para outra mais alta, permitindo que ele continue percorrendo a rede ou chegue à estação de tratamento.

Embora normalmente ocupe uma área muito menor do que uma grande ETE, uma elevatória pode representar um ponto crítico de todo o sistema.

Se uma bomba para, o fornecimento de energia é interrompido, um equipamento fica indisponível ou a vazão recebida supera a capacidade operacional, a consequência pode se propagar rapidamente pelo sistema.

Por isso, manuais técnicos de operadores como a Sanepar tratam aspectos como acesso para manutenção, medição de vazão, resistência à corrosão, controle operacional, instalações para retirada de bombas e estratégias para condições de vazão elevada como elementos importantes do projeto de estações elevatórias. (Sanepar)

Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency (EPA) também relaciona a confiabilidade das estações elevatórias à capacidade de manutenção, disponibilidade dos equipamentos, energia de emergência, inspeções, controle de extravasamentos e redução de intervenções corretivas por meio de manutenção preventiva e preditiva. (EPA)

Portanto, uma EEE não deve ser vista apenas como “uma bomba no caminho do esgoto”. Trata-se de um ativo de risco operacional e ambiental elevado.

Por que a multa da Sabesp importa além dos R$ 29,9 milhões

O valor chama atenção, mas a dimensão financeira precisa ser colocada em perspectiva.

No primeiro semestre de 2026, a Sabesp informou investimentos de aproximadamente R$ 7,46 bilhões, dos quais cerca de R$ 5,17 bilhões foram destinados ao esgotamento sanitário. Somente no segundo trimestre, os investimentos alcançaram aproximadamente R$ 3,7 bilhões. (Mziq API)

A multa total de R$ 29,9 milhões corresponde, portanto, a aproximadamente 0,4% do investimento realizado pela companhia no primeiro semestre de 2026, em cálculo feito a partir dos números divulgados pela empresa.

Isso significa que o principal risco estratégico não deve ser avaliado apenas pelo impacto imediato no caixa.

Existe um problema potencialmente maior: falhas recorrentes podem transformar investimento em infraestrutura em desempenho operacional abaixo do esperado.

Além disso, a fiscalização tende a acompanhar a expansão do sistema.

A própria Arsesp informou que realizou mais de 980 fiscalizações na área de concessão da Sabesp entre 2025 e 2026, com autuações em aproximadamente 11% delas. Os processos possuem diferentes estágios administrativos. (UOL Notícias)

Quanto maior o número de ativos, redes, ligações, elevatórias e estações incorporados ao sistema, maior também será a necessidade de ampliar capacidade de inspeção, manutenção, operação, supervisão e controle documental.

Universalizar não significa apenas construir mais.

Significa conseguir operar mais infraestrutura mantendo confiabilidade.

A nova escala da universalização aumenta o desafio

O atual contrato de concessão da Sabesp antecipou para 31 de dezembro de 2029 o horizonte de universalização da área atendível, enquanto o marco legal nacional trabalha, de maneira geral, com 2033. O contrato também passou a incorporar localidades e segmentos anteriormente não atendidos nas mesmas condições, incluindo áreas rurais e núcleos informais. (Governo do Estado de São Paulo)

A Norma de Referência nº 8/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) reforça justamente a necessidade de metas progressivas e mensuráveis de universalização e prevê avaliação das metas no nível municipal, inclusive em estruturas regionalizadas. (Serviços e Informações do Brasil)

Esse contexto torna a multa da Sabesp particularmente interessante como estudo de gestão.

Há dois desafios acontecendo simultaneamente.

De um lado, existe pressão para construir redes, instalar ligações, ampliar tratamento e acelerar investimentos.

Do outro, cada ativo incorporado precisa entrar numa rotina de operação, manutenção, cadastro, inspeção, monitoramento, atendimento a emergências e prestação de informações ao regulador.

É possível cumprir rapidamente a primeira parte e criar um passivo operacional na segunda.

Capex sem gestão de ativos pode criar um problema futuro

Programas de universalização normalmente são medidos por indicadores bastante visíveis: quilômetros de rede construídos, novas ligações, capacidade de tratamento acrescentada e população atendida.

Entretanto, depois da inauguração começa uma fase menos visível e potencialmente mais difícil: os próximos 20 ou 30 anos de funcionamento do ativo.

Uma elevatória nova precisa entrar imediatamente no inventário patrimonial, sistema de manutenção, supervisório, plano de inspeção, estoque de peças críticas e plano de contingência.

Também deve existir clareza sobre quem responde pelo ativo.

Quando essa transição entre engenharia e operação é deficiente, surge um conhecido problema de empresas intensivas em infraestrutura: o ativo foi entregue fisicamente, mas ainda não foi totalmente incorporado à gestão operacional.

Isso pode acontecer tanto com infraestrutura nova quanto com sistemas antigos que foram ampliados sucessivamente.

O melhor processo de comissionamento, portanto, não termina quando uma bomba simplesmente liga.

O Brasil já mostra caminhos importantes

A experiência de diferentes operadores brasileiros ajuda a entender como reduzir esse tipo de exposição.

A Sanepar, por exemplo, estabelece em seu manual de projetos de estações elevatórias requisitos voltados à manutenção, acesso aos equipamentos, medição, controle de vazão e condições operacionais. O documento prevê ainda preocupações específicas para áreas sensíveis e situações em que extravasamentos representem risco elevado. (Sanepar)

Em outro caso, a companhia programou durante mais de um ano uma grande intervenção preventiva e corretiva em uma estação elevatória, organizando o desvio do fluxo para reduzir o risco ambiental durante a manutenção. A execução planejada demonstra uma lógica importante: grandes intervenções devem ser tratadas como operações de engenharia, e não apenas como ordens de manutenção. (Sanepar)

Na área concedida pela Iguá no Rio de Janeiro, a empresa informou ter iniciado intervenções em 87 elevatórias, incluindo adequações estruturais, substituição ou implantação de bombas, painéis e grupos geradores. As unidades passaram também por integração a centros de controle com telemetria 24 horas. Segundo a própria concessionária, houve redução de aproximadamente 39% no tempo médio de intervenção em comparação com o início da operação. (Iguá SA)

Na Cagece, a entrada em operação de nova infraestrutura de esgotamento em Porto das Dunas, no Ceará, incluiu uma fase de testes envolvendo bombeamento entre elevatória e ETE, sistemas elétricos, automação, calibração de bombas e verificação da infraestrutura de recalque. O empreendimento informado pela companhia representa investimento de aproximadamente R$ 55 milhões e capacidade para beneficiar mais de 50 mil pessoas. (Cagece)

Nenhum desses casos significa que determinada companhia esteja imune a falhas.

O aprendizado está no método: projeto para manutenção, redundância, testes antes da operação, monitoramento e preparação para contingências.

O que operadores internacionais fazem diferente

A experiência internacional reforça a mesma direção.

A EPA utiliza há anos o conceito de Capacity, Management, Operation and Maintenance — CMOM, uma abordagem que trata capacidade, gestão, operação e manutenção como componentes inseparáveis dos sistemas de coleta de esgoto.

Entre os pontos analisados estão confiabilidade de estações elevatórias, disponibilidade dos equipamentos, manutenção preventiva, peças sobressalentes, histórico de falhas, geradores, inspeções, alarmes e controle do backlog de manutenção. A agência destaca que reduzir a dependência de manutenção emergencial é parte essencial da confiabilidade do sistema. (EPA)

Na Austrália, a Sydney Water utiliza centros de operação para monitorar e comandar estações de bombeamento remotamente. Sistemas automáticos geram alarmes e permitem que a operação identifique falhas; grupos geradores são utilizados como proteção diante de interrupções de energia. Especificações técnicas da companhia também exigem verificações de sinais de controle e soluções temporárias para manter o serviço durante determinadas intervenções. (Sydney Water)

No Reino Unido, requisitos utilizados no setor de água e esgoto incluem telemetria para estações de bombeamento e mecanismos independentes de controle de contingência. Documentos técnicos da Thames Water também tratam da validação de sinais operacionais antes da entrega definitiva de determinadas instalações. (Water UK)

O benchmarking mostra uma tendência clara: telemetria não é apenas ferramenta para visualizar uma bomba ligada ou desligada.

Ela está se tornando parte do sistema de gestão do risco.

A defesa baseada em chuva precisa estar sustentada por dados

A Sabesp afirmou que ocorrências nas elevatórias podem sofrer influência de condições climáticas adversas e fatores externos. Do ponto de vista técnico, essa possibilidade é real.

Infiltração e entrada indevida de águas pluviais podem elevar significativamente a vazão transportada pelo sistema de esgotamento. A EPA, por exemplo, inclui infiltração, entrada de água de chuva, falhas de equipamentos, manutenção deficiente e problemas de energia entre fatores relacionados a extravasamentos de sistemas de esgoto. (US EPA)

Entretanto, para qualquer operador, alegar uma causa externa é apenas o primeiro passo.

Uma gestão tecnicamente madura precisa conseguir reconstruir o evento.

Qual era a intensidade da chuva? Qual vazão chegou à elevatória? Qual era o nível do poço? Quantas bombas estavam disponíveis? Houve interrupção elétrica? O gerador funcionou? Qual alarme foi disparado? Quando a equipe foi mobilizada? Quanto tempo levou a resposta? O equipamento estava dimensionado para a condição prevista em projeto?

Esse conjunto de evidências transforma uma justificativa em engenharia rastreável.

Consequentemente, telemetria, histórico de alarmes e registros de manutenção também possuem valor regulatório.

Oito lições que a multa da Sabesp deixa para o setor

Para outras companhias, a multa da Sabesp pode ser transformada em um roteiro preventivo de gestão:

  1. Classificar as elevatórias por criticidade. Uma pequena estação próxima de um curso d’água pode apresentar risco ambiental maior do que uma instalação muito maior. Criticidade deve considerar vazão, população afetada, existência de extravasor, receptor ambiental, redundância, possibilidade de bypass e tempo necessário para resposta.
  2. Tratar redundância como decisão de risco. Bomba reserva, alimentação elétrica alternativa, gerador, possibilidade de bombeamento temporário e peças estratégicas devem resultar de análise de consequência da falha, e não apenas de uma especificação padronizada.
  3. Integrar telemetria à manutenção. Alarmes sem fluxo de trabalho podem criar apenas um grande painel colorido. Um alarme crítico precisa gerar responsável, prioridade, prazo de resposta, registro da intervenção e encerramento rastreável.
  4. Reduzir o backlog de manutenção crítica. Ordens pendentes em bombas, painéis, válvulas, geradores e instrumentação precisam ser classificadas por risco. Equipamentos essenciais não deveriam competir em igualdade de prioridade com serviços de baixa consequência operacional.
  5. Testar contingências antes da emergência. Geradores, bombas reserva, bypass, comunicação e acionamento de equipes precisam ser testados periodicamente. Plano de contingência que nunca foi exercitado pode falhar exatamente quando se torna necessário.
  6. Fortalecer o comissionamento. Nova elevatória deve ser entregue à operação com cadastro atualizado, manuais, treinamento, testes de alarmes, curvas das bombas, peças críticas, documentação elétrica, supervisório funcional e plano de manutenção.
  7. Criar rastreabilidade das obrigações regulatórias. Cada obrigação contratual deve possuir responsável, prazo, evidência, indicador e alerta antecipado. O acompanhamento não pode começar quando chega uma fiscalização.
  8. Investigar causa raiz, e não apenas reparar o equipamento. Trocar uma bomba que queimou recupera o serviço. Entender por que ela queimou pode impedir a próxima ocorrência. É essa diferença que transforma manutenção corretiva em aprendizagem organizacional.

A multa da Sabesp também ensina sobre metas contratuais

A segunda parte da penalidade apresenta uma lição diferente.

Em Ferraz de Vasconcelos, as infrações julgadas procedentes estão relacionadas a metas contratuais de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. A documentação histórica da Arsesp mostra que o município possuía contrato de programa e que metas e investimentos do saneamento eram acompanhados dentro do processo regulatório. (Arsesp)

Isso mostra que gestão regulatória não pode ficar isolada no departamento jurídico ou regulatório.

Uma meta contratual normalmente depende de dezenas de atividades executadas por áreas diferentes: projeto, licenciamento, desapropriação, contratação, suprimentos, obras, cadastro, operação, ligações, comercial e relacionamento institucional.

O regulador enxerga a obrigação final.

A companhia precisa administrar todas as dependências que permitem cumpri-la.

Nesse ponto, uma ferramenta relativamente simples pode gerar grande resultado: transformar cada compromisso regulatório em uma estrutura semelhante a uma carteira de projetos, com marco contratual, responsável executivo, caminho crítico, riscos, evidências e indicadores de antecipação.

Um semáforo regulatório atualizado mensalmente pode valer mais do que descobrir um atraso durante uma fiscalização.

O que muda para cada área da companhia

Para operação e manutenção, o episódio reforça a necessidade de conhecer a condição real dos ativos e antecipar falhas.

Para engenharia, mostra que manutenibilidade precisa ser requisito do projeto. Uma estação difícil de acessar, retirar equipamentos ou isolar pode transformar qualquer manutenção em emergência.

Para tecnologia e automação, destaca que supervisórios, sensores e telemetria precisam estar ligados a processos de decisão e resposta.

Para áreas ambientais, amplia a importância da detecção antecipada de eventos, contenção, monitoramento e documentação.

Para regulação e jurídico, demonstra que a qualidade da evidência operacional pode ser tão importante quanto a argumentação jurídica posterior.

Para finanças, mostra que manutenção preventiva, redundância e renovação de ativos devem ser avaliadas também pelo custo evitado de interrupções, intervenções emergenciais, sanções e danos.

E para gestores, talvez esteja a maior mudança: manutenção de elevatórias não pode ser administrada apenas como questão técnica de uma equipe especializada. Trata-se de um risco empresarial.

Tecnologia ajuda, mas não substitui equipes preparadas

A digitalização oferece uma enorme oportunidade.

Sensores de vibração podem indicar degradação mecânica. Medidores de corrente podem revelar alterações no comportamento de motores. Histórico de partidas pode indicar operação inadequada. Medidores de nível permitem analisar ciclos da elevatória. Telemetria identifica falhas de energia. Sistemas de manutenção computadorizada podem combinar horas de operação com intervenções anteriores.

Com dados suficientes, modelos analíticos podem ajudar a migrar da manutenção baseada apenas em calendário para manutenção baseada em condição e risco.

Entretanto, tecnologia não elimina a importância das pessoas.

Uma estação elevatória continua dependendo de eletricistas, mecânicos, operadores, engenheiros, técnicos de automação e equipes de campo capazes de interpretar sintomas, decidir sob pressão e executar intervenções em ambientes difíceis.

A automação aumenta a capacidade dessas equipes quando transforma dados em informação útil.

Sem processo, treinamento e responsabilidade bem definidos, pode apenas aumentar o número de alarmes.

O que pode dar errado na tentativa de corrigir o problema

Existe um risco comum após uma autuação relevante: responder criando novas inspeções, formulários e relatórios sem atacar a causa estrutural.

Mais checklist não significa necessariamente mais confiabilidade.

Uma empresa pode possuir milhares de ordens de manutenção e ainda não saber quais representam risco real.

Pode possuir SCADA em todas as elevatórias e, mesmo assim, ter baixa capacidade de reação.

Pode ter geradores instalados que falham no dia da necessidade.

Pode monitorar dezenas de indicadores sem possuir um processo claro para transformar desvios em decisões.

Por isso, a questão estratégica não é simplesmente “quantos controles existem?”, mas quais controles realmente impedem ou reduzem a consequência de uma falha?

Oportunidade: criar um índice de risco das elevatórias

Uma evolução interessante para grandes operadores seria consolidar informações técnicas num Índice de Risco Operacional de Elevatórias.

Ele poderia combinar idade dos equipamentos, criticidade ambiental, vazão, histórico de falhas, quantidade de bombas disponíveis, redundância elétrica, existência de gerador, disponibilidade da telemetria, número de alarmes, ordens de manutenção pendentes, tempo médio de atendimento, condição estrutural e possibilidade de bypass.

Com isso, o investimento deixa de ser distribuído apenas pela percepção das equipes ou idade dos equipamentos.

Passa a seguir risco.

Uma companhia com centenas de elevatórias poderia saber diariamente quais 10 ou 20 ativos concentram a maior exposição operacional.

Essa é uma aplicação em que engenharia, manutenção, dados e regulação podem trabalhar juntas.

As multas podem ser pequenas diante do risco maior

A comparação com os investimentos da própria Sabesp é reveladora.

Quase R$ 30 milhões representam um valor relevante, porém muito menor do que os bilhões investidos anualmente pela companhia. Portanto, analisar a multa da Sabesp apenas como perda financeira seria reduzir demais a discussão.

O verdadeiro risco está em outro lugar.

Falhas operacionais podem gerar extravasamentos, impactos ambientais, reclamações, mobilização emergencial de equipes, desgaste institucional e aumento da pressão regulatória.

Ao mesmo tempo, atrasos em metas podem comprometer planejamento, investimentos e credibilidade do processo de universalização.

O novo contrato de concessão da Sabesp possui, inclusive, mecanismos associados ao cumprimento das metas de universalização. Em determinadas circunstâncias previstas contratualmente, descumprimentos persistentes e definitivamente reconhecidos administrativamente podem produzir consequências adicionais. Isso não significa que as multas agora divulgadas acionem automaticamente esses mecanismos, mas demonstra como o desempenho deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a integrar a arquitetura econômica da concessão. (Governo do Estado de São Paulo)

Lições para quem trabalha no saneamento

Existe uma leitura particularmente importante para os profissionais.

Falhas de infraestrutura raramente são evitadas por uma única grande decisão.

Normalmente são evitadas por centenas de decisões aparentemente pequenas: um técnico que percebe vibração diferente, uma equipe que testa o gerador, um supervisor que não aceita postergar determinada manutenção, um engenheiro que prevê acesso adequado à bomba, um operador que interpreta corretamente um alarme ou um gestor que autoriza a troca de um equipamento antes que ele deixe de funcionar.

É nesse ponto que o conhecimento acumulado das equipes se transforma em valor econômico.

A multa da Sabesp serve como lembrete de que confiabilidade operacional não depende apenas de orçamento. Depende de projeto, rotina, disciplina operacional, qualidade da informação, governança e pessoas preparadas para reconhecer risco antes que ele se transforme em ocorrência.

Conclusão: universalizar também significa conseguir manter

O setor brasileiro deverá construir e ampliar uma quantidade extraordinária de infraestrutura de água e esgoto nos próximos anos.

Isso representa oportunidade histórica.

Entretanto, existe uma segunda universalização menos visível que precisa acontecer simultaneamente: universalizar boas práticas de gestão dos ativos que estão sendo construídos.

Não será suficiente instalar bombas. Será necessário monitorá-las.

Não será suficiente construir elevatórias. Será necessário garantir acesso, redundância, manutenção e resposta.

Não será suficiente definir metas contratuais. Será necessário transformar cada uma delas em projetos acompanhados até sua conclusão.

E não será suficiente possuir milhares de dados. Será necessário transformá-los em decisões.

A principal lição da multa da Sabesp não está, portanto, em procurar culpados ou presumir causas ainda não divulgadas. Está em compreender que um sistema de saneamento moderno precisa conectar engenharia, operação, manutenção, automação, gestão de ativos e regulação em um único modelo de confiabilidade.

Quanto mais rapidamente o Brasil expandir o saneamento, mais importante será essa integração.

A infraestrutura que permitirá alcançar a universalização em 2029 ou 2033 continuará funcionando muito depois dessas datas.

Construir é apenas o começo.

O verdadeiro teste será mantê-la funcionando bem todos os dias.

Fontes e referências

UOL / Agência Estado — Sabesp é multada em R$ 29,9 mi por falhas em estações de esgoto e descumprir prazos de obras — 18 de setembro de 2026.
Acessar reportagem do UOL

ARSESP — Deliberação nº 1.600/2024 — processo fiscalizatório e aplicação de sanções administrativas no saneamento — 8 de novembro de 2024.
Consultar Deliberação ARSESP nº 1.600/2024

ARSESP — Relatório Analítico de Saneamento Básico de Ferraz de Vasconcelos — 2021.
Consultar relatório de Ferraz de Vasconcelos

Sabesp — Contrato de Concessão da URAE-1 Sudeste — 2024.
Consultar contrato de concessão

Sabesp — Universalização: acompanhamento dos indicadores e metas — atualizado em 2026.
Consultar acompanhamento da universalização

Sabesp — Release de Resultados do 2º trimestre de 2026 — 12 de agosto de 2026.
Consultar resultados da Sabesp 2T26

ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — Resolução ANA nº 192/2024 e Norma de Referência nº 8/2024 — metas progressivas de universalização.
Consultar Norma de Referência nº 8/2024

Sanepar — Manual de Projetos de Saneamento, Módulo 11.1: Diretrizes para Estações Elevatórias de Esgoto — versão 2023.
Consultar manual técnico da Sanepar

Sanepar — Manutenção programada em estação elevatória de esgoto.
Consultar caso de manutenção da Sanepar

Iguá Saneamento — Balanço do primeiro ano de operação no Rio de Janeiro e modernização de estações elevatórias.
Consultar caso da Iguá

Cagece — Implantação e testes do sistema de esgotamento sanitário de Porto das Dunas.
Consultar projeto da Cagece

U.S. Environmental Protection Agency — Guide for Evaluating Capacity, Management, Operation, and Maintenance Programs at Sanitary Sewer Collection Systems.
Consultar guia CMOM da EPA

U.S. Environmental Protection Agency — Collection Systems and Lift Station Maintenance.
Consultar material técnico da EPA

Sydney Water — Sistema de monitoramento e operação de estações de bombeamento e especificações para renovação de ativos.
Consultar referência da Sydney Water

Thames Water / Water UK — Requisitos técnicos e de telemetria para estações de bombeamento de esgoto.
Consultar referência técnica do setor britânico