O CASAN aposta em financiamentos internacionais para universalizar


Santa Catarina precisa ampliar em quase 60 pontos percentuais o acesso à coleta de esgoto para alcançar a meta nacional de 90% até 2033. Diante desse desafio, o saneamento em Santa Catarina entrou em uma discussão estratégica: como acelerar investimentos bilionários, preservar a capacidade financeira da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) e evitar aumentos excessivos nas tarifas pagas pela população?

O governo estadual aposta em financiamentos internacionais, parcerias público-privadas (PPPs) e na possibilidade de ampliar o prazo de universalização. Entretanto, a legislação federal estabelece condições específicas para qualquer prorrogação, e os dados mais recentes disponíveis mostram que o desafio vai muito além da captação de recursos.

Segundo o Painel Saneamento Brasil, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, com dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) referentes a 2024, 69,3% da população catarinense ainda não tinha acesso à coleta de esgoto, aproximadamente 5,58 milhões de pessoas. No abastecimento de água, o déficit atingia 839,8 mil habitantes.

Esses números colocam uma questão decisiva para gestores, engenheiros, reguladores e profissionais comerciais: o maior obstáculo à universalização será a falta de dinheiro, a capacidade de executar obras ou a dificuldade de transformar infraestrutura construída em atendimento efetivo?

Governo aposta em financiamentos e parcerias

Em reportagem publicada em 6 de outubro de 2026, o jornalista Renato Igor, do NSC Total, destacou declarações do governador Jorginho Mello sobre o futuro do saneamento catarinense.

O governador defendeu o fortalecimento da Casan, a ampliação das parcerias com o setor privado e a contratação de financiamentos internacionais para acelerar a expansão dos serviços.

Também manifestou a expectativa de que o prazo de 2033 seja prorrogado, considerando as dificuldades para atingir os índices estabelecidos pelo Marco Legal do Saneamento.

Outro ponto relevante é a preocupação com o impacto tarifário. A orientação defendida pelo governo é buscar modelos capazes de ampliar os investimentos sem produzir aumentos significativos para os consumidores.

A combinação dessas propostas revela três desafios interdependentes: disponibilidade de capital, sustentabilidade econômico-financeira e cumprimento das obrigações regulatórias.

A questão é que nenhum desses instrumentos, isoladamente, garante a universalização.

Financiamentos precisam se transformar em obras concluídas. PPPs dependem de contratos bem estruturados. E tarifas acessíveis exigem produtividade, equilíbrio financeiro e mecanismos adequados de proteção às famílias de baixa renda.

O tamanho real do déficit em Santa Catarina

O saneamento em Santa Catarina apresenta uma diferença expressiva entre os indicadores de abastecimento de água e os de esgotamento sanitário.

De acordo com o Painel Saneamento Brasil, utilizando dados de 2024:

Indicador

Resultado

População sem coleta de esgoto

5,58 milhões

Parcela sem coleta de esgoto

69,3%

Parcela com coleta de esgoto

30,7%

População sem acesso à água

839,8 mil

Parcela sem acesso à água

10,4%

Esgoto tratado referido à água consumida

31,8%

O indicador de 31,8% de esgoto tratado representa uma relação entre volumes e não significa que exatamente essa proporção dos moradores receba simultaneamente coleta e tratamento.

Essa distinção é fundamental.

Uma localidade pode apresentar índice elevado de tratamento do esgoto coletado e, ainda assim, possuir baixa cobertura populacional. Isso ocorre quando as estações existentes tratam boa parte do volume que chega até elas, mas uma parcela expressiva dos imóveis permanece fora das redes coletoras.

Também é necessário distinguir a situação estadual do desempenho específico da Casan, uma vez que diferentes prestadores atuam nos municípios catarinenses.

Na prática, não basta aumentar a capacidade das estações de tratamento de esgoto (ETEs). É preciso implantar coletores, interceptores, estações elevatórias, ligações prediais e garantir que os imóveis utilizem efetivamente os sistemas.

Quanto seria necessário avançar?

Considerando a cobertura de coleta de 30,7% registrada em 2024, alcançar 90% representa uma expansão de aproximadamente 59,3 pontos percentuais.

Em um exercício matemático simplificado, distribuir esse avanço uniformemente entre 2024 e 2033 exigiria crescimento médio de cerca de 6,6 pontos percentuais por ano.

Não se trata de uma projeção oficial, mas de uma referência para dimensionar o ritmo necessário.

O desafio é ainda maior porque obras de esgotamento sanitário não apresentam evolução linear. Projetos passam por etapas de licenciamento, desapropriações, licitação, execução, testes operacionais e conexão dos usuários.

Por isso, índices de cobertura podem permanecer praticamente estáveis durante longos períodos e aumentar somente depois da entrada em operação de sistemas completos.

O indicador decisivo não é quanto se investiu, mas quantas pessoas passaram a receber um serviço adequado e efetivamente utilizado.

Financiamento internacional: os recursos que estão em jogo

A estratégia de financiamento internacional da Casan não começou em 2026.

Documentos oficiais demonstram que a companhia vem estruturando operações com instituições de desenvolvimento há vários anos.

Um exemplo concreto é o contrato com o Banco Europeu de Investimento (BEI).

Segundo o próprio banco, a operação de 100 milhões de euros foi assinada em 14 de dezembro de 2023, com a finalidade de apoiar a modernização e a ampliação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

O projeto possui custo total estimado de 200 milhões de euros, dos quais a participação do BEI corresponde à metade.

A estrutura contempla investimentos em novas estações de tratamento, expansão da infraestrutura e melhoria da eficiência dos sistemas existentes.

Em dezembro de 2025, Santa Catarina também aprovou a Lei Estadual nº 19.663, autorizando o governo a prestar garantia à operação de crédito externo com o BEI.

Essa autorização constitui um instrumento relevante de segurança financeira, mas não deve ser confundida com o desembolso integral do financiamento.

Outra frente envolve a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

Em junho de 2026, a Casan informou que estava estruturando uma nova operação de crédito de 150 milhões de euros, com previsão de conclusão ainda naquele ano.

A instituição francesa realizou uma missão técnica para avaliar governança, desempenho operacional, sustentabilidade financeira, riscos e estratégia climática da companhia.

A situação das operações precisa ser apresentada com precisão: o financiamento do BEI possui assinatura confirmada, enquanto a operação da AFD estava em fase de estruturação na atualização institucional consultada. Não foi comprovada nesta apuração a liberação integral dos recursos de ambas as operações.

O que os financiadores internacionais exigem?

O aspecto mais importante desses financiamentos não está apenas nas taxas de juros ou nos prazos de pagamento.

Instituições multilaterais e bancos de desenvolvimento costumam avaliar fatores como viabilidade técnica, capacidade de pagamento, governança, gestão ambiental, riscos climáticos e procedimentos de contratação.

Para as companhias, isso significa que a área financeira não consegue conduzir sozinha um programa de captação.

Engenharia, operação, planejamento, gestão comercial, meio ambiente, jurídico e regulação precisam produzir informações consistentes e demonstrar a capacidade de executar os investimentos.

Existe ainda um risco que merece atenção: operações contratadas em moeda estrangeira podem criar exposição cambial, dependendo das condições de desembolso, conversão, proteção financeira e amortização.

Consequentemente, financiamentos aparentemente atrativos precisam ser avaliados pelo custo total e pela compatibilidade com as receitas futuras.

Captar recursos representa uma conquista financeira. Transformá-los em infraestrutura funcional representa uma conquista de gestão.

Prorrogar a meta de 2033 é legalmente possível?

A possibilidade de ampliação do prazo é um dos pontos mais sensíveis do debate sobre o saneamento em Santa Catarina.

O artigo 11-B da Lei Federal nº 11.445/2007, com as alterações introduzidas pela Lei nº 14.026/2020, estabelece como regra geral:

  • atendimento de 99% da população com água potável até 31 de dezembro de 2033;
  • atendimento de 90% da população com coleta e tratamento de esgotos até a mesma data.

Entretanto, o parágrafo 9º do artigo 11-B prevê uma possibilidade específica de dilação.

Quando estudos destinados à licitação de uma prestação regionalizada demonstrarem inviabilidade econômico-financeira da universalização em 2033, mesmo após o agrupamento de municípios de diferentes portes, o prazo poderá ser ampliado até 1º de janeiro de 2040.

A medida exige anuência prévia da agência reguladora competente, que deverá considerar a modicidade tarifária.

Portanto, a prorrogação não é automática nem resulta simplesmente de uma decisão política estadual.

A possibilidade depende do enquadramento jurídico, da modelagem adotada, dos estudos apresentados e da avaliação regulatória.

A Norma de Referência ANA nº 8/2024, aprovada pela Resolução ANA nº 192/2024, também estabelece parâmetros para acompanhamento das metas e diferencia indicadores de cobertura e atendimento.

Outro detalhe importante: a avaliação da universalização considera os municípios individualmente, inclusive quando existe prestação regionalizada.

Isso impede que os bons resultados de uma cidade escondam integralmente a ausência de atendimento em outras.

O risco de transformar 2040 em estratégia principal

A dilação pode oferecer espaço para distribuir investimentos e reduzir pressões financeiras sobre determinados projetos.

Entretanto, utilizar a possibilidade de prorrogação como premissa inicial, sem comprovação de inviabilidade, pode fragilizar o planejamento.

Além disso, ampliar o prazo não elimina investimentos. Apenas altera sua distribuição temporal e potencialmente posterga benefícios sanitários e ambientais.

Para os profissionais de planejamento e regulação, a recomendação técnica é trabalhar com o prazo de 2033 como referência e avaliar cenários alternativos somente quando devidamente fundamentados.

PPPs podem acelerar a expansão sem aumentar tarifas?

As parcerias público-privadas estão entre os instrumentos discutidos para ampliar a infraestrutura de esgoto em Santa Catarina.

Na prática, uma PPP permite que uma empresa privada participe da implantação, operação e manutenção de serviços ou estruturas mediante contrato de longo prazo.

Na concessão administrativa, modelo utilizado em diversos projetos de saneamento, a remuneração do parceiro privado ocorre por meio de contraprestações públicas ou pagamentos contratualmente estruturados.

Esses pagamentos podem estar associados a indicadores de disponibilidade, desempenho e cumprimento de metas.

Mas existe um princípio econômico que não pode ser ignorado: a participação privada não elimina o custo da universalização.

O investimento precisa ser remunerado por receitas tarifárias, contraprestações, aportes públicos ou por uma combinação dessas fontes.

A vantagem potencial está na antecipação de investimentos, na transferência contratualmente definida de riscos e na incorporação de capacidade técnica e operacional.

Para funcionar adequadamente, o modelo precisa estabelecer metas claras, garantias, indicadores verificáveis, mecanismos de fiscalização e regras de equilíbrio econômico-financeiro.

Benchmarking brasileiro: o que o Ceará ensina

Uma experiência diretamente relacionada ao desafio catarinense é a PPP de esgotamento sanitário estruturada pelo BNDES para a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).

O projeto foi licitado em 2022 e contratado em 2023, envolvendo municípios das regiões metropolitanas de Fortaleza e do Cariri.

A Aegea venceu a licitação dos dois blocos, cuja modelagem previa aproximadamente R$ 6,2 bilhões em investimentos em infraestrutura, com R$ 2,8 bilhões programados para os primeiros cinco anos.

Os documentos do projeto estabeleceram metas de 90% de cobertura até 2033 e 95% até 2040.

A modelagem também contemplou atividades de gestão comercial, incluindo atualização cadastral, substituição de hidrômetros, verificação de fraudes e telemetria.

Esse último aspecto oferece um aprendizado especialmente relevante.

A expansão de esgoto não foi tratada exclusivamente como obra de engenharia, mas como um processo integrado que também exige informações comerciais, medição e relacionamento com os usuários.

Em dezembro de 2023, foi anunciado financiamento de R$ 556 milhões do Banco do Nordeste à Ambiental Ceará, concessionária vinculada à Aegea, destinado a investimentos e atividades relacionadas ao projeto.

Entretanto, os valores contratados e as metas anunciadas não representam, por si, comprovação de universalização já alcançada. Os resultados efetivos precisam ser acompanhados durante a execução.

Qual é a lição para Santa Catarina?

A experiência cearense demonstra que empresas públicas podem permanecer como protagonistas da organização dos serviços enquanto parceiros privados assumem obrigações específicas de investimento e operação.

Também evidencia que a gestão comercial deve fazer parte da modelagem desde o início.

Em Santa Catarina, a estruturação de eventuais PPPs precisará considerar a dispersão territorial dos municípios, a diversidade de prestadores e os custos específicos das soluções necessárias.

Não existe garantia de que reproduzir a modelagem de outro estado produzirá o mesmo resultado.

O que pode ser replicado são os princípios: planejamento regional, metas mensuráveis, alocação de riscos e integração entre investimento e operação.

Benchmarking internacional: Paraguai combina diferentes fontes de financiamento

A experiência do Paraguai oferece outro exemplo de mobilização de financiamento internacional para ampliar serviços de água e esgoto.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estruturou uma linha de crédito voltada à melhoria dos sistemas da Região Metropolitana de Assunção.

Na primeira operação relacionada à bacia de Lambaré, o BID aprovou um financiamento de US$ 105 milhões, associado a um aporte de US$ 60 milhões do Fundo para a Promoção do Desenvolvimento (FONPRODE), vinculado à cooperação espanhola.

O investimento total previsto alcança US$ 165 milhões.

O projeto contempla reabilitação, otimização e ampliação das redes de água e esgoto, além de medidas para fortalecer a gestão dos serviços.

As informações institucionais consultadas indicam que a operação permanecia em implementação em 2026. Portanto, os benefícios projetados não devem ser apresentados como resultados integralmente alcançados.

A experiência mostra que instituições internacionais podem atuar de forma complementar, combinando recursos e exigências de governança para viabilizar projetos complexos.

Para as companhias brasileiras, o principal aprendizado está na capacidade de estruturar projetos financiáveis, com documentação técnica consistente, gestão de riscos e acompanhamento da execução.

Portugal oferece outra referência: comparar desempenho

Portugal possui uma experiência relevante na avaliação regulatória dos serviços de águas e resíduos.

A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) mantém um sistema de indicadores voltado à avaliação da qualidade e da eficiência dos prestadores, divulgando informações por meio do Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal.

O sistema permite comparar entidades gestoras e acompanhar resultados técnicos e financeiros.

Esse modelo demonstra que a evolução do saneamento não depende apenas da disponibilidade de capital, mas também de informações confiáveis e de mecanismos permanentes de avaliação de desempenho.

Para Santa Catarina, a experiência reforça a importância de medir não somente investimentos realizados, mas também qualidade do serviço, atendimento efetivo, eficiência operacional e sustentabilidade financeira.

O papel das soluções descentralizadas

Outro caminho discutido pela Casan envolve soluções alternativas de esgotamento sanitário.

A companhia já apresentou o programa Esgotamento Sobre Rodas como uma iniciativa para ampliar o atendimento em localidades onde a implantação imediata de redes coletoras convencionais apresenta dificuldades.

A estratégia envolve o aproveitamento de soluções individuais e a organização de serviços de coleta e transporte dos resíduos para tratamento adequado.

Esse tipo de modelo pode ser relevante em municípios pequenos, comunidades rurais e áreas de baixa densidade populacional.

Entretanto, existe uma diferença entre possuir uma fossa e dispor de uma solução sanitária comprovadamente adequada.

Para que uma solução descentralizada funcione, é necessário avaliar projeto, impermeabilização, condições do solo, operação, remoção periódica do lodo, transporte e destinação final.

A Norma de Referência ANA nº 8/2024 admite soluções alternativas adequadas dentro das condições regulatórias aplicáveis.

Portanto, elas não devem ser utilizadas como simples mecanismo de elevação estatística da cobertura, mas como alternativas técnicas que garantam proteção sanitária e ambiental.

Em determinados locais, sistemas compactos, tratamento descentralizado e soluções individuais podem apresentar custos de implantação e operação inferiores aos de redes extensas.

A escolha exige análise de ciclo de vida, considerando investimento inicial, manutenção, energia, necessidade de pessoal, transporte, substituição de equipamentos e fiscalização.

A gestão comercial pode determinar o sucesso da expansão

Um dos aspectos menos discutidos sobre o saneamento em Santa Catarina é a importância da gestão comercial.

Em uma companhia de saneamento, o processo de universalização não termina quando uma rede coletora é construída.

A nova infraestrutura precisa ser incorporada ao cadastro técnico, disponibilizada aos imóveis, comunicada à população e convertida em ligações efetivas.

Isso exige atuação coordenada entre engenharia, operação, cadastro, atendimento, faturamento e fiscalização.

Uma rede concluída que não recebe contribuições suficientes pode produzir custos permanentes de manutenção sem entregar os benefícios sanitários esperados.

Além disso, a baixa adesão prejudica as projeções de arrecadação que sustentaram os investimentos.

Nesse contexto, os profissionais comerciais precisam acompanhar indicadores como taxa de adesão ao esgoto disponível, imóveis factíveis não conectados, economias efetivamente atendidas, faturamento incremental, inadimplência e consistência cadastral.

Esses indicadores precisam estar associados à legislação e às regras regulatórias aplicáveis.

A conexão efetiva pode ser considerada uma etapa determinante para a sustentabilidade de um sistema de esgotamento sanitário.

Tarifas acessíveis: o desafio não pode ser resolvido apenas com subsídios

A preocupação manifestada pelo governo catarinense com as tarifas possui fundamento social.

A ampliação dos sistemas de esgoto pode acrescentar custos de implantação, depreciação, energia, produtos químicos, operação e manutenção.

Parte desses custos precisa ser considerada nas receitas necessárias à sustentabilidade dos serviços.

Por outro lado, tarifas elevadas podem dificultar a adesão, comprometer a capacidade de pagamento e aumentar a inadimplência.

A solução não consiste necessariamente em impedir qualquer recomposição tarifária.

O caminho está na combinação entre eficiência operacional, financiamento adequado, produtividade, planejamento regulatório e mecanismos de proteção social.

A Lei Federal nº 14.898/2024 instituiu diretrizes nacionais para a Tarifa Social de Água e Esgoto, prevendo desconto de 50% sobre a tarifa aplicável aos primeiros 15 m³ de consumo, observadas as condições legais e regulatórias.

Isso reforça a necessidade de tratar acessibilidade econômica e equilíbrio financeiro de maneira integrada.

Para as companhias, melhorar a arrecadação, reduzir perdas, aumentar produtividade e aprimorar o cadastro pode ajudar a diminuir pressões sobre a estrutura de receitas.

Entretanto, não se deve presumir que esses ganhos sejam suficientes para financiar integralmente a universalização.

Essa conclusão depende de estudos específicos sobre custos, demanda, investimentos e capacidade de pagamento.

O que pode dar errado na estratégia catarinense?

Os riscos identificados não são exclusivos de Santa Catarina. Eles fazem parte da realidade de companhias que precisam acelerar grandes programas de investimento.

O primeiro é captar recursos sem possuir carteira de projetos suficientemente madura. Quando os projetos básicos, licenças e desapropriações não estão preparados, o dinheiro pode ficar contratado sem gerar entregas no ritmo necessário.

O segundo é estruturar PPPs sem uma divisão adequada de riscos. Obrigações pouco claras podem provocar disputas, atrasos, pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro e aumento do custo final.

O terceiro é construir estruturas que não sejam utilizadas integralmente. Redes sem conexões e estações com baixa utilização comprometem o retorno operacional e ambiental.

O quarto envolve a sustentabilidade financeira. O aumento do endividamento exige planejamento do serviço da dívida, especialmente quando as receitas adicionais dependem de obras e ligações futuras.

O quinto é a fragilidade dos indicadores. Confundir rede disponível, população atendida, volume tratado e soluções individuais pode produzir uma percepção equivocada de avanço.

Por fim, existe o risco de priorizar o debate sobre a prorrogação do prazo e reduzir a urgência das decisões que precisam ser tomadas agora.

Como transformar a estratégia em resultados concretos

Para empresas que enfrentam desafios semelhantes, a discussão catarinense permite organizar uma agenda prática de gestão.

  1. Consolidar um diagnóstico territorial: identificar, por município e localidade, a população sem atendimento, a infraestrutura existente, as soluções alternativas e as demandas prioritárias.
  2. Classificar os investimentos pela maturidade: separar projetos em estudo, licenciados, licitados, contratados, em execução e prontos para operação. Isso permite identificar gargalos antes da liberação de recursos.
  3. Integrar engenharia e gestão comercial: prever desde o projeto as ligações prediais, o cadastramento, a comunicação com os usuários e os procedimentos para transformar cobertura em atendimento efetivo.
  4. Construir cenários econômico-financeiros: simular custos, receitas, subsídios, tarifas, investimentos, riscos cambiais e desempenho operacional em diferentes horizontes.
  5. Estabelecer indicadores de entrega: acompanhar população efetivamente atendida, volume tratado, desempenho ambiental, utilização da capacidade instalada, adesão dos imóveis e custo operacional.
  6. Priorizar soluções tecnicamente adequadas: comparar redes convencionais, sistemas descentralizados e soluções individuais considerando condições locais e custos ao longo de todo o ciclo de vida.
  7. Fortalecer a governança dos contratos: criar mecanismos de fiscalização, acompanhamento físico-financeiro, gestão de riscos e responsabilização por resultados.

Esse conjunto de práticas pode ser aplicado tanto em companhias estaduais quanto em concessionárias privadas e serviços municipais.

A oportunidade que pode estar sendo subestimada

A universalização costuma ser tratada como um programa de expansão de infraestrutura.

Entretanto, uma parcela importante dos ganhos pode surgir do melhor aproveitamento dos ativos existentes.

Estações com capacidade ociosa, redes disponíveis com baixa adesão, inconsistências cadastrais e problemas operacionais podem representar oportunidades de ampliação do atendimento com investimentos marginais inferiores aos necessários para construir sistemas completamente novos.

Isso não significa que a expansão estrutural possa ser substituída por melhorias administrativas.

Significa que o planejamento precisa distinguir três situações: localidades que dependem de novas obras, sistemas que precisam de ampliação e áreas onde a infraestrutura já existe, mas o atendimento efetivo ainda não foi consolidado.

Cada situação exige solução diferente.

Para os profissionais, esse diagnóstico cria oportunidades de atuação em geoprocessamento, gestão de ativos, modelagem hidráulica, cadastro técnico, regulação, planejamento financeiro, análise de dados e relacionamento com os clientes.

Lições para os profissionais de saneamento

O debate catarinense evidencia que a universalização é um desafio multidisciplinar.

O engenheiro precisa compreender as consequências econômicas da solução projetada. O profissional financeiro precisa conhecer os riscos de execução das obras. O gestor comercial precisa identificar como a expansão será convertida em usuários efetivamente atendidos.

O regulador precisa acompanhar a qualidade do serviço e a sustentabilidade dos contratos. Já as equipes operacionais precisam garantir que os novos ativos funcionem dentro dos padrões exigidos.

A formação técnica continua indispensável, mas a capacidade de trabalhar com dados, contratos, indicadores e decisões integradas se torna cada vez mais relevante.

O profissional que compreende apenas sua atividade específica pode executar bem uma tarefa. Aquele que entende como essa atividade influencia os resultados de toda a companhia contribui diretamente para a universalização.

Conclusão: Santa Catarina precisa transformar capital em atendimento

O futuro do saneamento em Santa Catarina não dependerá exclusivamente da definição de um novo prazo.

Financiamentos internacionais podem ampliar a capacidade de investimento. PPPs podem antecipar obras e incorporar competências. Soluções descentralizadas podem oferecer alternativas tecnicamente adequadas para localidades onde os sistemas convencionais apresentam dificuldades.

Entretanto, os resultados dependerão da capacidade de combinar todos esses instrumentos em um planejamento consistente, economicamente sustentável e sujeito a acompanhamento regulatório.

A prorrogação até 2040, quando juridicamente cabível, pode representar uma alternativa para projetos cuja inviabilidade no prazo de 2033 seja demonstrada. Não deve, porém, substituir o esforço de acelerar investimentos e melhorar a eficiência dos serviços.

A experiência catarinense também apresenta uma lição para companhias de todo o Brasil: universalização não é apenas uma meta de investimento, mas uma meta de atendimento efetivo, qualidade e continuidade do serviço.

Até 2033, o maior diferencial entre as empresas não será necessariamente o volume de recursos anunciados. Será a capacidade de transformar projetos, financiamentos, contratos, obras e ações comerciais em melhorias comprovadas para a população.

O verdadeiro avanço acontecerá quando cada investimento puder ser associado a novos usuários atendidos, esgoto efetivamente tratado, redução da poluição e operação sustentável.


Fontes e referências

NSC Total — Renato Igor / Associação FloripAmanhã
SC aposta em financiamento internacional, parcerias e prorrogação de prazo para atingir meta de saneamento.
6 de outubro de 2026. Reprodução da reportagem original consultada no portal FloripAmanhã.
Consultar a reportagem reproduzida

Ministério das Cidades — SINISA
Resultados SINISA 2025 — ano de referência 2024.
Publicado em 23 de dezembro de 2025, com atualização em 2026.
Consultar resultados oficiais

Instituto Trata Brasil — Painel Saneamento Brasil
Indicadores de saneamento de Santa Catarina — dados de 2024.
Consultar painel estadual

Câmara dos Deputados — Legislação Federal
Lei nº 11.445/2007, texto atualizado com as alterações do Marco Legal do Saneamento.
Consultar texto legal

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Resolução nº 192/2024 — Norma de Referência nº 8/2024: Metas progressivas de universalização e indicadores de acesso.
8 de maio de 2024.
Consultar norma

Banco Europeu de Investimento — BEI
CASAN Brazil Water and Sanitation FL — Projeto nº 20210814.
Contrato assinado em 14 de dezembro de 2023.
Consultar projeto e condições de financiamento

Assembleia Legislativa de Santa Catarina — ALESC
Lei nº 19.663/2025 — Autorização de garantia à operação de crédito externo da Casan com o BEI.
18 de dezembro de 2025.
Consultar lei estadual

Casan — Companhia Catarinense de Águas e Saneamento
Casan recebe missão internacional para ampliar investimentos em saneamento.
1º de junho de 2026.
Consultar publicação oficial

Casan — Companhia Catarinense de Águas e Saneamento
SC reforça regionalização do saneamento e projeta investimentos privados a partir de 2027.
13 de agosto de 2025.
Consultar publicação oficial

Casan — Companhia Catarinense de Águas e Saneamento
Casan projeta ampliação de cobertura com Esgotamento Sobre Rodas.
Consultar publicação institucional

Governo Federal — Ministério da Gestão e da Inovação
Leilão define as Parcerias Público-Privadas que atenderão 24 municípios do Ceará com esgotamento sanitário.
28 de setembro de 2022.
Consultar dados do projeto

Governo do Ceará — Superintendência Estadual do Meio Ambiente
Ambiental Ceará e Banco do Nordeste assinam contrato de R$ 556 milhões para financiar obras de saneamento.
11 de dezembro de 2023.
Consultar comunicado

Banco Interamericano de Desenvolvimento — BID
Proyecto de agua potable y saneamiento para el Área Metropolitana de Asunción — Cuenca Lambaré, PR-L1172.
Aprovado em 15 de maio de 2020, com informações de execução atualizadas em 2026.
Consultar projeto internacional

Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos — ERSAR, Portugal
Qualidade dos Serviços — Sistema de avaliação de desempenho dos prestadores de águas e resíduos.
Consultar metodologia institucional

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico — ANA
Tarifa Social de Água e Esgoto — Diretrizes da Lei nº 14.898/2024.
Consultar orientações oficiais