Saneamento e saúde infantil: 100 mil internações

Mais de 100 mil internações de crianças de zero a nove anos foram registradas no Sistema Único de Saúde (SUS), em 2024, por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado. Aproximadamente 70 mil dessas hospitalizações envolveram crianças de até quatro anos, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil baseado em dados do DATASUS.

O número revela a dimensão de uma questão que ultrapassa a infraestrutura urbana: saneamento e saúde infantil estão diretamente relacionados à prevenção de doenças, à proteção da vida e ao desenvolvimento das próximas gerações.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 395 mil mortes de crianças menores de cinco anos, em todo o mundo, foram atribuíveis à falta de condições adequadas de água, saneamento e higiene em 2019, ano de referência de seu levantamento publicado em 2023.

Para as companhias de saneamento, esses números representam mais do que uma responsabilidade social. Eles demonstram que decisões sobre expansão de redes, qualidade da água, continuidade do abastecimento, tratamento de esgoto e atendimento a comunidades vulneráveis podem influenciar diretamente a exposição de crianças a riscos sanitários.

Mas existe uma questão estratégica que merece atenção: as empresas de saneamento estão priorizando seus investimentos apenas pela quantidade de ligações executadas ou também pelo impacto que essas ligações podem produzir na saúde das populações atendidas? A resposta pode transformar a maneira como o setor planeja a universalização.

O que os números revelam sobre a saúde das crianças brasileiras

O estudo Saneamento é Saúde, desenvolvido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a EX Ante Consultoria, analisou a ocorrência de Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI) no Brasil.

Em 2024, foram registradas aproximadamente 344,4 mil internações por essas doenças, com desembolso hospitalar estimado em R$ 174,3 milhões no âmbito analisado pelo estudo.

As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Do total de hospitalizações, aproximadamente 20% ocorreram entre crianças de zero a quatro anos. Quando considerada a faixa de zero a nove anos, o número ultrapassa 100 mil internações.

O Nordeste registrou cerca de 26,1 mil internações de crianças menores de cinco anos, enquanto o Sudeste contabilizou aproximadamente 16,2 mil. Esses resultados demonstram que a relação entre saneamento e saúde infantil não se restringe a pequenas localidades ou regiões historicamente menos atendidas. O problema também está presente em grandes centros urbanos, especialmente em territórios periféricos.

É necessário, entretanto, interpretar os números corretamente. As DRSAI incluem enfermidades associadas a condições ambientais inadequadas. Portanto, nem todas as internações registradas podem ser atribuídas exclusivamente à ausência de redes de água ou esgoto. Alimentação, higiene, renda, condições habitacionais, vacinação e acesso aos serviços de saúde também influenciam o risco de adoecimento.

Ainda assim, o conjunto das evidências científicas demonstra que melhorar o abastecimento de água, o esgotamento sanitário e as condições de higiene reduz fatores importantes de transmissão de doenças. Para gestores, o aprendizado é que indicadores de cobertura precisam ser acompanhados de indicadores de qualidade, continuidade e efetiva utilização dos serviços.

Por que a falta de saneamento é tão perigosa para crianças?

A primeira infância é uma fase de intensa formação do sistema imunológico, crescimento físico e desenvolvimento neurológico. Nessa etapa, infecções intestinais podem provocar consequências mais graves, especialmente quando associadas à desnutrição e à dificuldade de acesso a atendimento médico.

A transmissão de doenças relacionadas ao saneamento ocorre, principalmente, quando microrganismos presentes em fezes humanas alcançam água, alimentos, mãos, utensílios ou superfícies. Esse processo é conhecido como transmissão fecal-oral.

Em comunidades sem esgotamento sanitário adequado, os dejetos podem contaminar o solo, cursos d’água e fontes subterrâneas utilizadas para consumo. Quando o abastecimento de água também é precário, a população pode recorrer a poços contaminados, ligações improvisadas, reservatórios sem proteção ou fontes superficiais sem tratamento. O risco se multiplica.

Entre os problemas de saúde associados a essas condições estão diarreias infecciosas, gastroenterites, infecções por parasitas intestinais, hepatite A, cólera em contextos de circulação da doença e agravamento da desnutrição e da desidratação. Além disso, água indisponível ou insuficiente dificulta a lavagem adequada das mãos e a limpeza dos ambientes.

Segundo a OMS, as doenças diarreicas provocam aproximadamente 443,8 mil mortes anuais de crianças menores de cinco anos no mundo, considerando a estimativa apresentada pela organização em março de 2024. Esse número não deve ser confundido com as mortes atribuíveis especificamente ao saneamento inadequado: nem todos os episódios de diarreia decorrem da ausência desses serviços.

O aspecto mais relevante é que uma parcela importante desses casos pode ser prevenida por intervenções sanitárias. A OMS também destaca a importância da reidratação oral, da suplementação de zinco quando indicada e do tratamento oportuno. O saneamento atua na prevenção, mas não substitui vacinação, nutrição adequada e assistência médica.

Saneamento e saúde infantil: como a infraestrutura interrompe a transmissão de doenças

Água tratada reduz a exposição a agentes patogênicos

O tratamento de água utiliza processos físicos e químicos para remover partículas e reduzir ou inativar organismos capazes de provocar doenças. Dependendo da qualidade da água bruta e da tecnologia empregada, são utilizadas etapas como coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção.

Entretanto, a proteção sanitária não termina na estação de tratamento. É necessário preservar a qualidade da água durante a distribuição, controlar pressões, monitorar a desinfecção, prevenir intrusões de contaminantes e reduzir ocorrências de intermitência. Uma água que sai adequada da estação pode encontrar situações de risco em redes comprometidas, reservatórios irregulares ou instalações prediais inadequadas.

Coleta de esgoto reduz a exposição ambiental

O sistema de esgotamento sanitário afasta os efluentes dos ambientes onde as pessoas vivem. Isso reduz o contato direto com dejetos e diminui a possibilidade de contaminação do solo e da água, desde que a infraestrutura seja corretamente implantada e operada.

Mas a simples existência de uma tubulação pública não garante esse resultado. Se o imóvel não estiver conectado, continuar lançando esgoto em valas ou utilizar instalações inadequadas, parte do risco permanece.

Tratamento de esgoto protege o ambiente e a saúde coletiva

Após a coleta, os efluentes precisam receber tratamento apropriado para reduzir sua carga poluidora e os riscos sanitários associados à disposição final. A eficácia depende da tecnologia, da operação, do controle de processos e das características do lançamento.

O tratamento convencional pode reduzir significativamente a presença de organismos patogênicos, mas nem todos os processos garantem sua eliminação completa. A necessidade de desinfecção e outras barreiras deve ser avaliada conforme os riscos e as exigências aplicáveis.

Higiene completa a proteção

Mesmo com infraestrutura adequada, hábitos de higiene continuam fundamentais. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), intervenções de educação para lavagem das mãos com sabão estão associadas a reduções de aproximadamente 23% a 40% na ocorrência de doenças diarreicas, dependendo dos contextos estudados.

A conclusão técnica é importante: a proteção da saúde infantil depende de uma cadeia de segurança, e não de uma única obra.

O Brasil ainda apresenta desigualdades que começam na infância

A falta de saneamento não atinge todas as crianças da mesma maneira. Famílias de menor renda, comunidades rurais, periferias urbanas, populações indígenas e localidades com dificuldades de abastecimento enfrentam vulnerabilidades específicas.

O UNICEF identificou, em estudo publicado em janeiro de 2025, que 2,78 milhões de crianças e adolescentes brasileiros ainda enfrentavam privações relacionadas ao acesso à água, com dados referentes a 2023. Desse total, aproximadamente 1,54 milhão vivia em residências sem água canalizada, enquanto outros 1,24 milhão tinham acesso à água canalizada apenas no terreno ou na área externa da propriedade.

O problema também alcança o ambiente escolar. Segundo informações do Censo Escolar 2024 analisadas pelo UNICEF, mais de 500 mil estudantes frequentavam escolas públicas municipais sem acesso à água por fontes consideradas adequadas. Entre eles, aproximadamente 138 mil estavam matriculados em escolas sem qualquer acesso à água.

Essas condições podem comprometer higiene pessoal, preparo de alimentos, utilização de sanitários, limpeza de ambientes e permanência dos alunos nas atividades escolares. Consequentemente, saneamento e saúde infantil devem ser tratados de forma integrada às políticas de educação, desenvolvimento territorial e redução das desigualdades.

Uma criança que adoece repetidamente pode perder dias de aula, apresentar dificuldades nutricionais e enfrentar obstáculos ao desenvolvimento. Isso não significa que todas essas consequências ocorrerão individualmente, mas demonstra a existência de riscos que podem persistir além do episódio de doença.

Como companhias brasileiras estão enfrentando o problema

Sabesp: regularização de ligações em comunidades vulneráveis

Um exemplo brasileiro de integração entre engenharia, gestão comercial e proteção sanitária é o Programa Água Legal, desenvolvido pela Sabesp, em São Paulo. A iniciativa busca regularizar o abastecimento em comunidades onde moradores utilizavam sistemas improvisados, muitas vezes expostos à contaminação e a perdas de água.

Segundo informações institucionais divulgadas pela companhia, o programa acumulou mais de 250 mil ligações regularizadas, beneficiando aproximadamente 870 mil pessoas, com investimentos informados de R$ 350 milhões.

O modelo envolve intervenções nas redes, adequação das ligações, regularização cadastral e aproximação com as comunidades atendidas. A relevância sanitária está na substituição de instalações precárias por abastecimento regular e controlado.

O aspecto comercial também merece destaque. Ao regularizar uma ligação, a companhia pode melhorar a micromedição, reduzir perdas aparentes e físicas, ampliar a rastreabilidade do consumo e estabelecer uma relação formal com o usuário.

O investimento pode produzir benefícios simultâneos para a operação e para a população. Entretanto, os números de ligações regularizadas não constituem, isoladamente, evidência de quantas doenças ou mortes infantis foram evitadas pelo programa. Para medir esse impacto, seriam necessárias avaliações específicas de saúde pública.

Lição para outras companhias: a regularização de abastecimento em áreas vulneráveis deve ser considerada uma intervenção de segurança sanitária, e não exclusivamente uma ação de recuperação comercial.

UNICEF: soluções de água e esgoto nas escolas brasileiras

Outro exemplo importante está nas iniciativas de Água, Saneamento e Higiene (WASH) desenvolvidas pelo UNICEF em parceria com instituições públicas e comunidades.

Em 2025, a organização registrou melhorias sanitárias em 25 escolas rurais de Barcarena, no Pará, beneficiando aproximadamente 2.600 estudantes. As intervenções incluíram captação de água da chuva, cloração, instalações para lavagem das mãos, melhorias em banheiros e soluções para esgotamento sanitário.

Em Manaus, mais de 2.400 estudantes de 43 escolas ribeirinhas também foram beneficiados por ações de WASH, incluindo orientação e capacitação.

O diferencial desses projetos está na adaptação às condições territoriais. Em áreas isoladas, a expansão convencional de grandes redes nem sempre é a solução técnica ou economicamente mais adequada. Sistemas descentralizados, tratamento local, armazenamento seguro e operação comunitária podem representar alternativas, desde que respeitem os padrões de qualidade, a segurança sanitária e a manutenção necessária.

Para empresas de saneamento, a experiência reforça a importância de desenvolver soluções específicas para escolas, unidades de saúde e comunidades fora dos centros urbanos.

O que o mundo está fazendo para proteger crianças com saneamento

Índia: estudo associa expansão de sanitários à redução da mortalidade infantil

A experiência da Índia oferece uma das evidências internacionais mais relevantes sobre a relação entre saneamento e saúde infantil. O programa nacional Swachh Bharat Mission, lançado em 2014, promoveu uma grande expansão do acesso a instalações sanitárias, buscando reduzir a defecação a céu aberto.

Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, em setembro de 2024, investigou a associação entre a expansão de sanitários e a mortalidade infantil em 640 distritos indianos. Os pesquisadores utilizaram dados do período de 2011 a 2020 e modelos estatísticos para controlar diferentes características socioeconômicas e relacionadas aos serviços de saúde.

Os resultados identificaram associação entre maior cobertura de sanitários e menores taxas de mortalidade infantil. Segundo as estimativas dos autores, a expansão em larga escala pode ter contribuído para evitar aproximadamente 60 mil a 70 mil mortes de bebês por ano.

Esse número deve ser interpretado com cautela: trata-se de uma estimativa produzida por modelo estatístico, e não de uma contagem direta de vidas salvas ou de comprovação de que todas as reduções decorreram exclusivamente do programa.

O estudo também reconhece a importância de fatores relacionados à saúde materna, renda e assistência médica. Outro ponto merece atenção: a construção de sanitários não garante automaticamente seu uso contínuo ou a destinação segura dos dejetos.

A experiência indiana demonstra a importância da escala das intervenções, mas também reforça a necessidade de ações educativas, manutenção e acompanhamento dos resultados.

Zâmbia: saneamento inclusivo com soluções operacionais e comerciais

Em Lusaka, capital da Zâmbia, um projeto apoiado pelo Banco Mundial mostra como a proteção sanitária pode ser incorporada à modernização da gestão de uma companhia. O Lusaka Sanitation Project, desenvolvido entre 2015 e 2024, beneficiou mais de 345 mil pessoas.

Segundo o Banco Mundial, os resultados incluíram aproximadamente 117 quilômetros de redes de esgoto construídas ou reabilitadas, mais de 2.200 novas ligações domiciliares e acesso de cerca de 264 mil pessoas a serviços melhorados de gerenciamento de lodo fecal.

O projeto contou com financiamento de US$ 65 milhões da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), além de US$ 3,5 milhões de contrapartida do governo zambiano e apoio técnico complementar.

A experiência é especialmente relevante porque combinou soluções convencionais de esgotamento com sistemas descentralizados e gerenciamento de lodo em regiões de menor renda.

Também foram desenvolvidas ferramentas de gestão, contratos por desempenho, aplicativos para comunicação de obstruções e melhorias nos mecanismos de pagamento. Um dos indicadores operacionais apresentados pelo Banco Mundial foi a evolução do percentual de reclamações de obstrução de esgoto resolvidas em até 48 horas: de 28% para 100% ao final do projeto.

O resultado demonstra a importância da gestão dos ativos depois da construção. O programa foi implementado em uma cidade historicamente exposta a surtos de cólera e outras doenças relacionadas à contaminação ambiental. Entretanto, os dados apresentados não permitem atribuir uma quantidade específica de mortes infantis evitadas ao projeto.

A lição para o Brasil é objetiva: ampliar o esgotamento sanitário exige combinar investimento, soluções técnicas adequadas, capacidade comercial, manutenção e relacionamento com os usuários.

Os impactos financeiros vão além do faturamento das companhias

A relação entre saneamento e saúde infantil também possui dimensão econômica. O estudo do Trata Brasil estimou desembolsos hospitalares de R$ 174,3 milhões relacionados às DRSAI em 2024.

Esse valor não representa o custo total dessas doenças para a sociedade. O impacto econômico pode envolver consultas, medicamentos, deslocamentos, perda de dias de trabalho dos responsáveis, afastamento escolar e consequências de longo prazo para a saúde. Além disso, os valores registrados nos sistemas hospitalares não correspondem necessariamente ao custo econômico integral da assistência.

Para gestores públicos, a análise reforça a necessidade de avaliar investimentos em saneamento também pela perspectiva da prevenção. Uma expansão de rede pode representar despesa de capital para a companhia, mas criar benefícios econômicos e sociais fora de seu balanço financeiro.

É o que a economia denomina externalidade positiva: um benefício gerado por determinada atividade que também alcança pessoas e instituições além de quem realiza ou financia o investimento. No setor de saneamento, essa externalidade pode alcançar hospitais, escolas, famílias e sistemas de proteção social.

Isso não elimina a necessidade de sustentabilidade econômico-financeira das companhias. Pelo contrário: reforça a importância de estruturas de financiamento capazes de reconhecer o valor coletivo dos serviços.

O papel da regulação e da gestão comercial na proteção das crianças

No Brasil, a Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020, estabelece metas de universalização que preveem atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033, observadas as disposições legais e contratuais aplicáveis.

O marco regulatório também contempla metas de continuidade do abastecimento, redução de perdas e melhoria dos processos de tratamento. Esses elementos têm consequências sanitárias concretas.

Redes com interrupções frequentes, pressão inadequada ou instalações comprometidas podem aumentar a vulnerabilidade do abastecimento. Já sistemas de esgoto com obstruções recorrentes, extravasamentos ou ligações não efetivadas podem manter a exposição da população aos efluentes.

Na área comercial, a Lei nº 14.898/2024 instituiu diretrizes nacionais para a Tarifa Social de Água e Esgoto. O benefício prevê desconto de 50% nas faixas de consumo até 15 metros cúbicos mensais para famílias elegíveis, observadas as regras legais e regulatórias.

A Norma de Referência ANA nº 13/2025 detalhou aspectos relacionados à estrutura tarifária, à identificação dos beneficiários e à implementação da tarifa social. Essa política possui importância estratégica porque o acesso econômico também influencia a utilização sustentável dos serviços.

Uma família com dificuldades para manter o pagamento pode enfrentar maior risco de endividamento e de vulnerabilidade no acesso regular à água, dependendo das condições aplicáveis. Portanto, a atuação comercial não deve se limitar ao faturamento, à cobrança e à arrecadação.

Ela também envolve atualização cadastral, identificação de usuários vulneráveis, ampliação da adesão às redes, orientação sobre consumo, comunicação acessível e implementação correta dos benefícios tarifários. A relação entre saneamento e saúde infantil precisa aparecer nas decisões de atendimento e na gestão dos serviços, respeitando as obrigações regulatórias e os direitos dos usuários.

Como transformar saúde infantil em critério de planejamento

Uma das oportunidades menos exploradas pelo setor é integrar informações operacionais, comerciais e sanitárias para orientar a priorização dos investimentos. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) já oferece dados capazes de subsidiar o planejamento da expansão e a avaliação dos serviços.

As companhias podem utilizar essas informações em conjunto com bases públicas de saúde, educação e vulnerabilidade territorial. O objetivo é identificar áreas onde deficiências sanitárias e populações vulneráveis se sobrepõem.

  1. Mapear os déficits: identificar localidades sem abastecimento regular, coleta de esgoto ou soluções sanitárias adequadas.
  2. Identificar populações vulneráveis: utilizar informações agregadas sobre primeira infância, baixa renda, escolas, creches e unidades de saúde, com respeito à proteção de dados pessoais.
  3. Cruzar indicadores de saúde: avaliar séries históricas de internações e outros indicadores epidemiológicos, em cooperação com as autoridades competentes.
  4. Priorizar intervenções: considerar o risco sanitário, o número de pessoas expostas, a viabilidade técnica, a urgência e o custo das alternativas.
  5. Executar e acompanhar: monitorar qualidade da água, continuidade, ligações efetivamente utilizadas, coleta, tratamento e ocorrências operacionais.
  6. Avaliar resultados: comparar indicadores antes e depois das intervenções, utilizando áreas ou períodos comparáveis quando possível e controlando fatores externos relevantes.

O cruzamento de dados deve ser utilizado como instrumento de priorização, não como prova automática de causalidade. Uma redução de internações após determinada obra pode estar relacionada a diferentes fatores, inclusive vacinação, melhorias assistenciais ou mudanças epidemiológicas. Avaliações de impacto mais robustas exigem métodos apropriados e participação de profissionais da saúde e da pesquisa.

O que os gestores de saneamento precisam observar

A principal mudança de perspectiva está na definição do que representa um serviço efetivamente entregue. Uma obra concluída não significa necessariamente que o benefício sanitário foi alcançado. Uma rede disponível pode não possuir todos os imóveis conectados. Uma ligação registrada pode apresentar problemas de continuidade ou qualidade.

Uma comunidade pode ter cobertura formal, mas continuar dependendo de armazenamento precário por causa de interrupções frequentes. Por isso, os gestores precisam observar indicadores que ultrapassem o cumprimento físico das obras.

Entre eles, destacam-se a proporção de imóveis efetivamente conectados, a continuidade do abastecimento, as não conformidades da água distribuída, os extravasamentos de esgoto, o tempo de resposta a ocorrências e a cobertura de atendimento em territórios vulneráveis.

Na operação, decisões sobre manutenção preventiva, controle de pressão, desinfecção e resposta a vazamentos podem contribuir para reduzir riscos sanitários. Na engenharia, o dimensionamento correto, a escolha de tecnologias apropriadas e a resiliência dos sistemas são fundamentais.

Na área comercial, a regularização cadastral, a adesão ao esgotamento sanitário e a identificação de famílias elegíveis à tarifa social ajudam a transformar infraestrutura em serviços efetivamente utilizados. Já a regulação precisa acompanhar não apenas metas de cobertura, mas a qualidade e a continuidade da prestação.

O desafio é fazer com que cada área compreenda como suas decisões contribuem para a segurança sanitária.

O que pode dar errado mesmo depois de investir em saneamento?

A expansão da infraestrutura não elimina automaticamente todos os riscos. Projetos podem apresentar resultados inferiores aos esperados quando os sistemas são implantados sem manutenção adequada, quando as ligações domiciliares não são efetivadas ou quando as soluções não consideram a realidade local.

Outro risco é priorizar exclusivamente o número de obras entregues, desconsiderando sua utilização e desempenho. Em sistemas descentralizados, por exemplo, a ausência de manejo adequado do lodo pode transferir a contaminação para outros pontos do ambiente.

Em abastecimento de água, falhas de operação, armazenamento inseguro e intermitências podem comprometer a proteção alcançada pelo tratamento. A OMS recomenda uma abordagem baseada em riscos ao longo de toda a cadeia do saneamento, desde a contenção dos dejetos até seu transporte, tratamento e disposição final.

Isso significa que a segurança sanitária deve ser construída por barreiras sucessivas, com responsabilidades claramente definidas. Para os profissionais, a principal lição é que infraestrutura precisa ser acompanhada de operação confiável, fiscalização e educação sanitária.

Saneamento e saúde infantil: cinco lições para o futuro do setor

A análise das evidências brasileiras e internacionais permite extrair cinco aprendizados relevantes.

  1. Universalização precisa significar acesso efetivo. A população deve receber serviços disponíveis, seguros e adequados à realidade de cada território.
  2. Crianças podem ser consideradas um público prioritário nas análises de risco sanitário. A presença de creches, escolas e comunidades com elevada concentração de famílias vulneráveis pode ajudar a orientar investimentos e planos de contingência.
  3. A gestão comercial faz parte da solução. Regularização de ligações, adesão ao esgoto e aplicação dos benefícios tarifários são atividades capazes de contribuir para a ampliação do acesso.
  4. Resultados operacionais precisam ser acompanhados após a implantação. Concluir uma obra é apenas uma etapa; assegurar que o sistema funcione adequadamente é o que sustenta seus benefícios.
  5. O setor deve ampliar sua integração com a saúde pública. Informações epidemiológicas podem ajudar a identificar vulnerabilidades, orientar decisões e avaliar resultados de intervenções.

Essas lições também apontam uma agenda de inovação. Sistemas de informações geográficas, sensores de qualidade da água, telemetria, monitoramento de pressões, ferramentas de análise de dados e integração cadastral podem melhorar a identificação e a resposta a riscos.

Entretanto, a tecnologia precisa servir a objetivos concretos. Um painel sofisticado não substitui uma equipe capaz de localizar uma falha, restabelecer o abastecimento com segurança, eliminar um extravasamento ou orientar adequadamente uma comunidade. É nesse encontro entre conhecimento técnico, execução de campo e gestão que os benefícios do saneamento se tornam reais.

Conclusão: saneamento salva vidas, mas o resultado depende de toda a companhia

O saneamento e a saúde infantil precisam ocupar uma posição mais estratégica no planejamento das empresas de água e esgoto. Os números brasileiros demonstram a magnitude das doenças relacionadas às condições sanitárias inadequadas. As evidências internacionais reforçam que intervenções bem estruturadas podem reduzir riscos importantes para a sobrevivência das crianças.

Mas existe uma diferença fundamental entre construir infraestrutura e produzir benefícios duradouros. O resultado depende de sistemas corretamente projetados, água segura, operação contínua, esgoto adequadamente manejado, ligações efetivamente utilizadas, acesso econômico e capacidade de gestão.

Para uma companhia de saneamento, uma nova ligação pode representar ampliação de cobertura, aumento de receita ou cumprimento de uma meta contratual. Para uma família, pode significar reduzir a exposição cotidiana à contaminação e melhorar as condições de proteção de seus filhos.

O saneamento salva vidas de crianças quando a infraestrutura se transforma em serviço seguro, acessível e permanente.

Essa perspectiva não diminui a importância dos indicadores comerciais e financeiros. Ela amplia o significado dos resultados entregues pelas companhias.

O profissional que atua na manutenção de uma rede, no controle da qualidade da água, na análise de projetos, na operação de uma estação, no atendimento ao cliente ou na gestão comercial participa de uma cadeia de decisões que pode contribuir para a prevenção de doenças.

O futuro da gestão do saneamento exigirá mais do que contabilizar quilômetros de redes, ligações executadas ou volumes tratados. Exigirá compreender quais populações ainda permanecem expostas, quais riscos precisam ser reduzidos e como utilizar os recursos disponíveis para produzir benefícios sanitários sustentáveis.

Porque, ao final, o maior resultado de uma companhia de saneamento não está apenas na infraestrutura que ela constrói. Está também nas doenças que ajuda a prevenir, na segurança que proporciona às famílias e nas oportunidades de desenvolvimento que oferece às próximas gerações.

Fontes e referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Improving access to water, sanitation and hygiene can save 1.4 million lives per year, says new WHO report. 28/06/2023. Consultar fonte.
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Diarrhoeal disease. 07/03/2024. Consultar fonte.
  3. OMS e UNICEF. Progress on household drinking-water, sanitation and hygiene 2000–2024: Special focus on inequalities. 26/08/2025. Consultar relatório.
  4. Instituto Trata Brasil e EX Ante Consultoria. Saneamento é saúde. 2025. Consultar estudo.
  5. Instituto Trata Brasil. Mais de 100 mil crianças de 0 a 9 anos foram internadas pela precariedade do saneamento. 07/10/2025. Consultar fonte.
  6. Instituto Trata Brasil. Brasil gasta R$ 174 milhões com internações por doenças relacionadas ao saneamento. 17/04/2025. Consultar fonte.
  7. UNICEF Brasil. Água, Saneamento e Higiene — Situação no Brasil e principais iniciativas. Página institucional. Consultar fonte.
  8. UNICEF Brasil. Resultados do UNICEF no Brasil em 2025. 2025. Consultar fonte.
  9. Sabesp. Programa Água Legal. Página institucional. Consultar fonte.
  10. Sabesp. Acompanhe o Futuro — resultados e programas da companhia. Página institucional. Consultar fonte.
  11. Chakrabarti, S. e colaboradores. Toilet construction under the Swachh Bharat Mission and infant mortality in India. Scientific Reports, 02/09/2024. Consultar estudo.
  12. Banco Mundial. Transforming Sanitation for a more Sustainable and Healthier Future in Zambia. 26/05/2025. Consultar fonte.
  13. Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on sanitation and health. 25/09/2018. Consultar diretrizes.
  14. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Handwashing Facts. Página institucional. Consultar fonte.
  15. Ministério das Cidades. Resultados SINISA 2025 — ano de referência 2024. 2025. Consultar resultados.
  16. Presidência da República. Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007 — texto compilado. Consultar legislação.
  17. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Tarifa Social de Água e Esgoto — Lei nº 14.898/2024. Consultar orientações.
  18. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Resolução ANA nº 271/2025 — Norma de Referência nº 13/2025. 21/11/2025. Consultar norma.
  19. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021. Consultar norma.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *