Lodo granular aeróbio transforma a ETE Vargem Limpa

A retomada da Estação de Tratamento de Esgoto Vargem Limpa, em Bauru, representa uma mudança importante no padrão tecnológico previsto para o sistema de esgotamento sanitário do município. O novo projeto combina tratamento biológico avançado, remoção de nitrogênio e fósforo, aproveitamento energético do biogás e transformação do lodo tratado em insumo de uso agrícola.

A proposta deverá substituir parte das estruturas do projeto anterior, que apresentaram fissuras e outros problemas construtivos, por novos reatores circulares. Além disso, a concessionária pretende implantar a tecnologia Nereda, baseada em lodo granular aeróbio, com o objetivo de produzir um efluente de melhor qualidade em uma configuração mais compacta e automatizada.

O empreendimento é relevante porque Bauru ainda trata uma parcela muito pequena do esgoto gerado. Com a conclusão da ETE Vargem Limpa, a expectativa divulgada pelo município é alcançar 100% de tratamento. A concessão tem prazo de 30 anos e envolve aproximadamente R$ 1 bilhão em investimentos, considerando a conclusão e operação da estação, melhorias no sistema de esgotamento e intervenções de drenagem urbana. (sampi.net.br⁠)

O que muda com a nova ETE Vargem Limpa

A ETE Vargem Limpa deixou de ser tratada apenas como uma obra civil inacabada. O projeto passou a incorporar o conceito de estação de recuperação de recursos, no qual o esgoto não é visto somente como um resíduo a ser eliminado.

Nesse modelo, diferentes correntes do processo passam a ter valor. A matéria orgânica é removida biologicamente. O nitrogênio e o fósforo são controlados para reduzir os impactos no corpo receptor. O biogás produzido na digestão do lodo pode gerar eletricidade. Por fim, a fração sólida estabilizada pode ser encaminhada para compostagem e, quando atender às exigências sanitárias, ambientais e agronômicas, poderá ser aproveitada no solo.

Portanto, o projeto reúne quatro objetivos operacionais: tratar o esgoto, proteger os rios, reduzir o consumo externo de energia e diminuir a disposição final de resíduos.

Como funciona o lodo granular aeróbio

O lodo granular aeróbio é formado por comunidades de microrganismos que se agrupam em estruturas densas e compactas, chamadas grânulos. Diferentemente do lodo ativado convencional, no qual a biomassa tende a formar flocos mais leves, os grânulos apresentam elevada velocidade de sedimentação.

Essa característica permite separar rapidamente a biomassa do efluente tratado. Consequentemente, o processo pode dispensar decantadores secundários em determinadas configurações, reduzir a recirculação de lodo e concentrar mais biomassa dentro do mesmo volume de reator.

O lodo granular aeróbio também possui regiões com diferentes condições de oxigenação. A parte externa do grânulo recebe mais oxigênio, enquanto as camadas internas podem apresentar condições anóxicas ou anaeróbias. Dessa forma, diferentes reações biológicas podem ocorrer praticamente ao mesmo tempo.

Na região aeróbia, microrganismos oxidam a matéria orgânica e convertem a amônia. Nas regiões com pouco ou nenhum oxigênio dissolvido, outros grupos microbianos participam da desnitrificação e da remoção biológica de fósforo.

Essa organização interna explica por que o lodo granular aeróbio consegue reunir, em um único sistema, processos que normalmente exigiriam tanques ou zonas separadas. Estudos técnicos também apontam a possibilidade de manter altas concentrações de biomassa e obter elevada remoção de matéria orgânica e nutrientes. (Haskoning NEREDA®⁠)

Como funciona a tecnologia Nereda

A tecnologia Nereda opera, em geral, por ciclos. Primeiro, o esgoto entra pela parte inferior do reator, enquanto o efluente tratado do ciclo anterior é deslocado e retirado pela parte superior.

Em seguida, ocorre a fase de aeração, na qual a biomassa remove matéria orgânica, nitrogênio e fósforo. Depois, a aeração é interrompida e os grânulos sedimentam rapidamente.

Assim que a biomassa se deposita, um novo ciclo pode começar. Embora o funcionamento pareça simples, o processo depende de um sistema de controle bem ajustado. Vazão, carga orgânica, oxigênio dissolvido, amônia, nitrato, fósforo, pH, temperatura, sólidos e tempo de sedimentação precisam ser acompanhados continuamente.

Por isso, a adoção do lodo granular aeróbio exige automação, instrumentação confiável, manutenção preventiva e operadores capacitados. Uma falha prolongada em sensores, sopradores, válvulas ou sistemas de controle pode alterar a duração dos ciclos e prejudicar a estabilidade dos grânulos.

Na prática, a tecnologia não elimina a necessidade de conhecimento operacional. Pelo contrário, exige uma gestão mais orientada por dados, tendências e respostas rápidas às alterações do esgoto afluente. (Haskoning NEREDA®⁠)

Por que remover nitrogênio e fósforo

A remoção de matéria orgânica é fundamental, mas não resolve sozinha todos os impactos do esgoto. Nitrogênio e fósforo funcionam como nutrientes para algas e plantas aquáticas. Quando são lançados em excesso, podem acelerar a eutrofização dos rios, reservatórios e lagos.

Esse processo favorece o crescimento excessivo de algas, cianobactérias e macrófitas. Como consequência, podem ocorrer redução do oxigênio dissolvido, alteração da cor e do odor da água, prejuízos à vida aquática, dificuldades para o abastecimento público e impactos sobre navegação, lazer e geração de energia.

Em Bauru, a redução desses nutrientes ganha importância porque o Rio Bauru deságua no Rio Tietê. Assim, a eficiência da ETE Vargem Limpa deverá ser avaliada não apenas pela remoção de demanda bioquímica de oxigênio e sólidos, mas também pelo desempenho efetivo sobre nitrogênio total, amônia, fósforo total e outros parâmetros definidos no licenciamento.

O lodo granular aeróbio pode alcançar elevada remoção de nutrientes. Entretanto, o resultado final dependerá das características reais do esgoto, da temperatura, da carga afluente, do controle da aeração, da disponibilidade de carbono, da alcalinidade e da estabilidade da biomassa. (ANA⁠)

O sistema será realmente inédito no Brasil?

A comunicação sobre a retomada da obra descreve o sistema como inédito no País para remoção de fósforo e nitrogênio com essa tecnologia. Essa afirmação precisa ser interpretada com precisão.

A tecnologia de lodo granular aeróbio não é inédita no Brasil. A ETE Deodoro, no Rio de Janeiro, iniciou a operação com tecnologia Nereda em 2016 e foi apontada como a primeira aplicação da solução na América Latina.

Portanto, o caráter inovador da ETE Vargem Limpa provavelmente está relacionado à configuração projetada, à escala, às metas de remoção de nutrientes ou à combinação com recuperação energética e aproveitamento agrícola do lodo.

Sem a divulgação completa do projeto executivo, das garantias de processo e dos limites de qualidade do efluente, não é possível confirmar que nenhuma estação brasileira opere com padrão equivalente.

Ainda assim, a proposta é tecnicamente avançada e poderá se tornar uma referência nacional caso entregue, de forma contínua, os resultados anunciados. O verdadeiro diferencial deverá ser comprovado por indicadores operacionais, e não apenas pela descrição comercial da tecnologia. (SciELO⁠)

Biogás poderá reduzir o custo de energia

O projeto prevê digestores para estabilização do lodo. Durante a digestão anaeróbia, microrganismos degradam parte da matéria orgânica sem a presença de oxigênio e produzem biogás, composto principalmente por metano e dióxido de carbono.

Depois da coleta, o biogás precisa passar por etapas de condicionamento. A remoção de umidade, partículas e compostos corrosivos, especialmente o sulfeto de hidrogênio, protege motores, tubulações e equipamentos.

Em seguida, o gás pode alimentar motogeradores para produção de eletricidade e calor. A energia produzida deverá ser consumida na própria ETE.

Esse arranjo reduz a compra de energia da rede, melhora a previsibilidade dos custos operacionais e diminui a queima improdutiva do gás. Contudo, a estação não deverá nascer totalmente autossuficiente, conforme as informações divulgadas pelo consórcio.

A parcela efetivamente compensada dependerá da quantidade e da qualidade do lodo, do rendimento da digestão, da concentração de metano, da disponibilidade dos geradores e do consumo dos sistemas de aeração e bombeamento.

O balanço energético deverá ser monitorado por indicadores claros, como:

  • quilowatt-hora produzido por metro cúbico tratado;
  • percentual de autogeração;
  • disponibilidade dos motogeradores;
  • concentração de metano no biogás;
  • volume de biogás produzido;
  • perdas e queima em flare;
  • consumo específico de energia da estação.

A geração interna de eletricidade não deve ser analisada isoladamente. Uma estação pode produzir grande quantidade de energia e, ainda assim, apresentar consumo excessivo por falhas de aeração, bombeamento ineficiente ou equipamentos mal dimensionados. (sampi.net.br⁠)

Lodo tratado não vira fertilizante automaticamente

A previsão divulgada indica produção de aproximadamente 80 toneladas diárias de composto orgânico, utilizando o lodo da ETE e materiais estruturantes, como galhos e resíduos de poda.

Embora a solução tenha potencial ambiental e econômico, o uso da palavra “fertilizante” exige cautela técnica. O lodo somente pode ser aplicado no solo depois de passar por processos adequados de estabilização e higienização.

Além disso, precisa atender aos limites de agentes patogênicos, substâncias químicas e outros contaminantes estabelecidos pela regulamentação.

A Resolução Conama nº 498/2020 define critérios para produção e aplicação de biossólido em solos. A norma prevê controle de qualidade, rastreabilidade, responsabilidade técnica, critérios para as áreas receptoras e condições de aplicação.

Caso o material seja produzido e comercializado como fertilizante, também deverão ser observadas as exigências de registro, produção, rotulagem e fiscalização do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Portanto, a biodigestão e a compostagem representam apenas parte do caminho. Será necessário manter:

  • plano de amostragem;
  • análises laboratoriais periódicas;
  • rastreabilidade dos lotes;
  • controle de temperatura e umidade;
  • comprovação do tempo de compostagem;
  • avaliação agronômica;
  • controle das áreas receptoras;
  • responsabilidade técnica;
  • registro da produção e da destinação.

A receita prevista com a comercialização do composto somente poderá ser considerada sustentável depois que os custos de tratamento, transporte, controle laboratorial, registro e aplicação forem incorporados ao modelo econômico. (sampi.net.br⁠)

Ganhos esperados com o lodo granular aeróbio

O lodo granular aeróbio apresenta vantagens relevantes para estações de grande porte. A elevada sedimentabilidade permite trabalhar com maior concentração de biomassa e reduz a área necessária para separação entre sólidos e líquidos.

Além disso, a ocorrência simultânea de diferentes processos biológicos pode simplificar o arranjo de unidades. Estudos em escala plena registraram bom desempenho na remoção de nitrogênio e fósforo, além de consumo energético inferior ao de plantas convencionais utilizadas como referência.

Em uma aplicação de escala plena estudada nos Países Baixos, os limites de nitrogênio e fósforo foram atendidos durante diferentes condições sazonais. O consumo energético medido também ficou abaixo da média das plantas convencionais comparadas pelos pesquisadores.

Entretanto, percentuais genéricos de economia não devem ser aplicados diretamente à ETE Vargem Limpa. Cada estação possui vazão, carga, topografia, bombeamento, qualidade do esgoto bruto e exigências de lançamento diferentes.

Os principais ganhos esperados são:

  • redução da área ocupada pelo tratamento biológico;
  • sedimentação mais rápida da biomassa;
  • maior concentração de sólidos no reator;
  • menor necessidade de recirculação de lodo;
  • remoção simultânea de matéria orgânica e nutrientes;
  • redução do uso de produtos químicos em determinadas condições;
  • maior integração com automação e controle avançado;
  • potencial de menor consumo específico de energia;
  • integração com recuperação de recursos.

Esses benefícios somente poderão ser confirmados depois da partida e da estabilização do processo. (ScienceDirect⁠)

Principais riscos operacionais

A modernização tecnológica não elimina riscos. Pelo contrário, transfere parte relevante do desempenho para a qualidade da gestão operacional.

A partida biológica deverá receber atenção especial, pois a formação de grânulos estáveis pode levar meses. Durante esse período, será necessário controlar cuidadosamente a seleção da biomassa, a sedimentação, o descarte de lodo e as condições de alimentação.

Outro desafio será a variação do esgoto afluente. Ligações de água de chuva na rede, infiltrações, lançamentos industriais indevidos e grandes oscilações de vazão podem diluir a carga orgânica ou provocar choques no processo.

Consequentemente, a estação precisará de fiscalização de rede, cadastro de usuários não domésticos, monitoramento de efluentes industriais e gestão de infiltrações e entradas parasitárias.

Também será indispensável manter redundância de sopradores, bombas, painéis, sensores e sistemas de comunicação. Como o lodo granular aeróbio depende de ciclos controlados, a automação não poderá ser tratada como item acessório.

Deverá existir estratégia de contingência para:

  • perda de energia;
  • falha de instrumento;
  • indisponibilidade de servidor;
  • interrupção da comunicação;
  • defeitos em válvulas;
  • falha nos sopradores;
  • sobrecargas hidráulicas;
  • entrada de substâncias tóxicas;
  • perda de biomassa;
  • interrupção dos sistemas de desidratação do lodo.

A estabilidade de longo prazo dos grânulos, o elevado nível de automação e a necessidade de descarte seletivo de biomassa estão entre os desafios apontados em estudos sobre essa tecnologia. (SciELO⁠)

Indicadores que deverão ser divulgados

Uma ETE moderna precisa demonstrar resultados de forma transparente. A avaliação não deve se limitar ao percentual de esgoto coletado ou ao volume encaminhado para tratamento.

Entre os principais indicadores recomendados estão:

  • vazão média e vazão máxima tratada;
  • carga afluente e efluente de DBO;
  • carga afluente e efluente de DQO;
  • remoção de sólidos suspensos;
  • nitrogênio total;
  • nitrogênio amoniacal;
  • nitrito e nitrato;
  • fósforo total;
  • ortofosfato;
  • consumo específico de energia;
  • geração e aproveitamento de biogás;
  • quantidade de lodo produzida;
  • percentual de lodo aproveitado;
  • conformidade microbiológica do efluente;
  • horas de indisponibilidade da estação;
  • ocorrências de extravasamento;
  • custo operacional por metro cúbico;
  • emissões evitadas;
  • resíduos enviados para disposição final.

Esses dados permitirão verificar se os ganhos do lodo granular aeróbio aparecem de forma contínua e não apenas durante testes de desempenho.

Também será importante divulgar a frequência de não conformidades, as causas das ocorrências e as medidas corretivas adotadas. Dessa forma, a fiscalização contratual poderá comparar o desempenho real com as metas estabelecidas.

Cronograma exige acompanhamento

A Prefeitura de Bauru informou conclusão estimada até 2028, enquanto outras comunicações públicas mencionam prazo de 36 meses para entrada em operação.

Como esses marcos podem resultar em datas diferentes, o cronograma executivo deverá indicar com clareza o início da contagem, as etapas de licenciamento, as obras civis, a montagem eletromecânica, a partida assistida e o período de comprovação de desempenho.

Além disso, estruturas antigas serão avaliadas e parte delas não deverá ser reaproveitada. Essa decisão reduz riscos de longo prazo, mas amplia a necessidade de compatibilização entre projeto, fundações, tubulações, unidades existentes e novos equipamentos.

Para profissionais do saneamento, o caso reforça uma lição importante: a conclusão física não representa, sozinha, a entrega de uma ETE.

A estação somente estará efetivamente concluída quando:

  • operar com segurança;
  • atender aos padrões ambientais;
  • manter estabilidade biológica;
  • destinar corretamente o lodo;
  • comprovar a remoção de nutrientes;
  • operar os sistemas de biogás;
  • alcançar os indicadores previstos no contrato.

O acompanhamento deverá considerar tanto o avanço físico quanto a capacidade real de tratamento. (Prefeitura de Bauru⁠)

ETE Vargem Limpa pode se tornar referência nacional

A ETE Vargem Limpa reúne elementos de uma nova geração de infraestrutura sanitária. O lodo granular aeróbio poderá elevar a eficiência do tratamento, enquanto a digestão anaeróbia e o aproveitamento do biogás poderão reduzir custos e emissões.

Paralelamente, a compostagem poderá diminuir a dependência de aterros e gerar um produto com valor agronômico, desde que todas as exigências sejam cumpridas.

O projeto também mostra que a universalização precisa avançar além da simples construção de redes e estações. Qualidade do efluente, eficiência energética, gestão de resíduos, automação, segurança operacional e transparência devem fazer parte do mesmo planejamento.

Caso o sistema cumpra as metas anunciadas e mantenha desempenho consistente, Bauru poderá sair de um cenário de tratamento extremamente baixo para uma posição de destaque tecnológico.

O resultado, porém, dependerá menos do discurso de inovação e mais da qualidade do projeto executivo, da fiscalização do contrato, da capacitação das equipes e da disciplina operacional ao longo dos 30 anos de concessão.

Fontes