Universalização do esgoto: só 7 estados até 2033?

Apenas sete das 27 unidades federativas brasileiras deverão alcançar a meta de universalização do esgoto até 2033. A projeção da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) revela um problema que vai muito além da falta de dinheiro: o Brasil precisa transformar investimentos contratados em obras concluídas, redes operacionais, imóveis conectados e esgoto efetivamente tratado.

Segundo o levantamento divulgado pelo Valor Econômico em 6 de outubro de 2026, o país poderá chegar a 2033 com aproximadamente 80% da população atendida por coleta de esgoto e 95% com abastecimento de água. Ambos os resultados permaneceriam abaixo das metas de 90% e 99%, respectivamente, estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento.

O cenário também traz uma contradição importante. Enquanto grandes estados poderão alcançar índices elevados de atendimento, territórios menos populosos e municípios com menor capacidade financeira poderão continuar acumulando déficits significativos.

Mas existe outra questão que merece atenção das companhias: quantos sistemas já implantados ainda não entregam todo o benefício esperado porque os imóveis permanecem desconectados, as estações estão subutilizadas ou os investimentos não foram acompanhados de uma estratégia comercial eficiente?

A resposta ajuda a compreender por que a universalização do esgoto não depende exclusivamente de grandes obras de engenharia.

Ilustração técnica das etapas da universalização do esgoto: rede coletora, ligação domiciliar e estação de tratamento.
Da rede coletora à conexão dos imóveis e ao tratamento: a universalização exige integração entre infraestrutura e operação.

O que revela a projeção da ABDIB

A ABDIB estima que apenas sete unidades federativas alcançarão os indicadores de universalização do esgoto em 2033. No abastecimento de água, a expectativa é de que 15 unidades federativas atinjam o objetivo.

Atualmente, considerando os dados referentes a 2024 utilizados como base da análise, somente duas unidades federativas superam o patamar de 90% de atendimento populacional com redes coletoras de esgoto: São Paulo e Distrito Federal.

O levantamento apresenta também uma perspectiva para 2040. Nesse horizonte, a projeção indica que 16 unidades federativas poderão alcançar a meta de esgotamento sanitário e 20 poderão atingir a meta de abastecimento de água.

Em termos populacionais, a expectativa para 2040 é de 89,8% dos brasileiros com esgoto coletado e tratado e 98,6% com acesso à água potável. Os números revelam que, mesmo com um prazo adicional, o país poderá permanecer ligeiramente abaixo das metas nacionais.

É fundamental, porém, diferenciar projeção de resultado garantido.

O cenário da ABDIB considera a efetiva realização dos investimentos contratados e o avanço de projetos de concessão ainda em estruturação. Segundo a reportagem, esses projetos poderiam mobilizar R$ 46,2 bilhões adicionais em obras.

Portanto, atrasos em licitações, dificuldades de financiamento, descumprimentos contratuais ou obstáculos operacionais podem alterar significativamente o resultado.

A análise pública consultada não apresentou a relação completa das sete unidades federativas projetadas para 2033 nem todos os parâmetros do modelo estatístico. Assim, o número deve ser interpretado como uma estimativa condicionada às premissas informadas, e não como uma previsão definitiva.

O diagnóstico oficial mostra onde está o maior desafio

O Relatório de Esgotamento Sanitário do SINISA 2025, elaborado pelo Ministério das Cidades com dados referentes a 2024, oferece uma dimensão mais detalhada do problema.

O levantamento aponta que 62,3% da população considerada nos indicadores de atendimento dispõe de rede coletora de esgoto.

A desigualdade territorial é expressiva:

  • Região Sudeste: 81,9% de atendimento populacional com rede coletora.
  • Região Centro-Oeste: 68,3%.
  • Região Sul: 57,7%.
  • Região Nordeste: 35,9%.
  • Região Norte: 24,7%.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a população rural: apenas 4,8% aparece atendida por redes coletoras no indicador específico do levantamento.

Esse último número exige uma interpretação cuidadosa. Ele mede atendimento por rede, não a totalidade das soluções individuais ou descentralizadas adequadas que podem existir nas comunidades rurais.

Entretanto, demonstra que a expansão dos sistemas convencionais encontra grandes limitações fora dos centros urbanos.

O tratamento representa outro desafio. Segundo o SINISA, o volume de esgoto tratado corresponde a 51,8% do volume estimado a partir da água consumida. Já quando o denominador considera apenas o esgoto coletado, o indicador de tratamento chega a 85,2%.

Esses percentuais não são contraditórios. O primeiro considera uma estimativa mais ampla da geração de esgoto. O segundo analisa quanto do volume efetivamente coletado recebe tratamento.

Na prática, parte considerável do déficit ambiental está associada justamente ao esgoto que nem chega às estações de tratamento.

Também é necessário observar que os indicadores do SINISA possuem metodologias e universos de informação específicos, enquanto a Norma de Referência nº 8/2024 da ANA estabelece critérios regulatórios próprios de cobertura e atendimento por domicílios. Comparações diretas exigem harmonização dos conceitos.

A universalização do esgoto é muito mais que construir redes

Uma das principais lições do diagnóstico está na diferença entre cobertura, atendimento e tratamento.

A cobertura considera a disponibilidade de infraestrutura ou de solução adequada para atender determinado território, de acordo com os critérios regulatórios.

O atendimento pressupõe que o usuário efetivamente receba o serviço, seja por conexão ao sistema público, seja por solução adequada admitida na regulamentação.

O tratamento representa a etapa em que os efluentes passam por processos físicos, biológicos ou químicos para que possam receber destinação ambientalmente adequada.

Considere um cenário hipotético simplificado.

Um município possui 10 mil imóveis residenciais ocupados. A concessionária instala rede coletora disponível para 9 mil desses imóveis, mas somente 7 mil estão efetivamente conectados. Entre os conectados, o esgoto equivalente a 6.500 imóveis chega a uma estrutura de tratamento adequada.

A cobertura potencial por rede seria de 90%, enquanto o atendimento efetivo por conexão seria de 70%. Já o terceiro número indicaria outro déficit operacional, que precisaria ser avaliado com indicadores próprios de volume e qualidade do tratamento.

Esse exemplo não substitui a metodologia regulatória oficial, mas evidencia um problema de gestão.

A execução física de uma obra não significa, necessariamente, que o investimento esteja produzindo todo o resultado sanitário, ambiental e financeiro previsto.

Uma estação de tratamento pode estar pronta e operar abaixo da capacidade projetada porque faltam interceptores, elevatórias ou ligações domiciliares. Uma rede pode estar concluída, mas apresentar baixa adesão dos moradores.

E uma companhia pode registrar quilômetros adicionais de infraestrutura sem alcançar o número de usuários efetivamente atendidos previsto em seu planejamento. Essa diferença precisa aparecer nos painéis executivos e nas metas operacionais.

O Marco Legal permite chegar a 2040?

A Lei nº 14.026/2020 atualizou a Lei nº 11.445/2007 e estabeleceu as metas de atendimento de 99% da população com abastecimento de água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.

A Norma de Referência nº 8/2024 da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) detalha as diretrizes para acompanhamento dessas metas.

Existe, entretanto, uma hipótese legal de ampliação do prazo. Quando estudos de licitação de prestação regionalizada demonstrarem inviabilidade econômico-financeira para atingir a universalização até 2033, mesmo após o agrupamento de municípios de diferentes portes, poderá ser admitido prazo que não ultrapasse 1º de janeiro de 2040.

Essa possibilidade exige anuência prévia da entidade reguladora competente e análise de aspectos como a modicidade tarifária. Portanto, 2040 não deve ser tratado como uma prorrogação automática aplicável a qualquer companhia ou município.

Outro aspecto essencial da NR 8/2024 é a avaliação do desempenho municipal, inclusive quando os serviços fazem parte de estruturas regionalizadas.

Isso significa que uma companhia pode apresentar indicadores consolidados satisfatórios e, simultaneamente, possuir municípios abaixo das exigências estabelecidas.

A regulação também diferencia os indicadores de cobertura e atendimento, tornando insuficiente uma avaliação baseada exclusivamente na extensão de redes implantadas.

Em agosto de 2026, a ANA publicou a Resolução nº 301, suspendendo exclusivamente naquele exercício a exigência de comprovação de um requisito relacionado ao preenchimento do sistema de monitoramento da universalização, devido a limitações técnicas da plataforma. As demais obrigações da NR 8/2024 permaneceram exigíveis.

Para as empresas, a mensagem regulatória é clara: além de investir, será necessário demonstrar resultados consistentes, mensuráveis e verificáveis.

O financiamento continua sendo um obstáculo

A dimensão financeira da universalização do esgoto é expressiva.

Em julho de 2026, o Instituto Trata Brasil divulgou estudo elaborado em parceria com a GO Associados indicando necessidade residual de aproximadamente R$ 431 bilhões para alcançar as metas nacionais.

A estimativa utiliza como referência uma necessidade total de R$ 525 bilhões, associada à revisão do Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), descontando investimentos realizados entre 2021 e 2024.

Na distribuição originalmente calculada para o intervalo de 2025 a 2033, o valor equivale a aproximadamente R$ 48 bilhões anuais, ou R$ 225 por habitante por ano.

Esse cálculo é uma estimativa de necessidade de investimento, não representa desembolsos já contratados e tampouco deve ser interpretado como saldo atualizado de obras pendentes em outubro de 2026.

O estudo aponta que o investimento anual por habitante avançou de R$ 90,54 para R$ 137,02 entre os períodos comparados, crescimento de 51%. Apesar da evolução, a intensidade de investimentos ainda se mostra insuficiente diante da referência utilizada para universalização.

O problema é especialmente complexo em municípios com baixa densidade demográfica, dispersão territorial, menor capacidade de pagamento e custos elevados de implantação.

Nessas localidades, o investimento por nova ligação pode ser substancialmente superior ao observado em bairros urbanos densamente ocupados. Consequentemente, o equilíbrio financeiro de determinados projetos poderá depender de regionalização, subsídios direcionados, financiamento público, estruturas de garantias e soluções tecnológicas de menor custo.

Não existe, entretanto, um modelo único de financiamento adequado a todos os territórios.

Como companhias brasileiras estão enfrentando o desafio

Sabesp: antecipação de metas e monitoramento de resultados

A Sabesp representa uma experiência relevante de antecipação contratual da universalização.

Após a desestatização de 2024, o novo contrato estabeleceu compromisso de universalização para 2029 nas áreas abrangidas, quatro anos antes do prazo nacional.

Segundo informações institucionais da companhia, o planejamento contempla aproximadamente R$ 70 bilhões em investimentos no período de 2024 a 2029.

O ponto mais relevante está na forma de acompanhamento.

A Sabesp disponibiliza indicadores específicos de universalização, incluindo novas economias residenciais atendidas por água, esgoto e tratamento.

Na atualização de setembro de 2026, os dados apresentados pela empresa indicavam resultados acima da meta acumulada divulgada para novas economias urbanas de esgoto, enquanto os segmentos informal e rural apresentavam execução inferior à meta correspondente.

A companhia informa que esses resultados ainda dependem de validação pela ARSESP e pelo verificador responsável.

O modelo demonstra a utilidade de acompanhar entregas por diferentes tipos de território e por componentes do serviço, em vez de depender apenas de um índice agregado.

Lição para gestores: metas devem ser territorializadas, auditáveis e conectadas às etapas que efetivamente aumentam o atendimento.

Pernambuco: regionalização e escala econômica

Em dezembro de 2025, Pernambuco realizou leilões de concessão parcial de água e esgoto, estruturados pelo BNDES.

Os contratos contemplam investimentos estimados em R$ 19,1 bilhões e potencial benefício para aproximadamente 8 milhões de pessoas, com metas alinhadas à universalização até 2033.

O modelo reuniu áreas com características econômicas e operacionais diferentes, buscando viabilizar investimentos mediante contratos regionalizados.

A experiência não deve ser apresentada como universalização já alcançada. O resultado efetivo dependerá da execução contratual ao longo dos próximos anos.

Ainda assim, oferece aprendizado sobre a importância de estruturar projetos com escala, critérios claros de desempenho e previsibilidade financeira.

Pará: cronogramas diferentes para realidades diferentes

Outro exemplo está no Pará.

A concessão regionalizada estruturada com apoio do BNDES prevê aproximadamente R$ 18,8 bilhões em investimentos para 126 municípios.

Na estrutura apresentada no edital, a meta de esgotamento sanitário foi prevista para 2033 em 26 municípios do Bloco A e para 2039 em 100 municípios dos demais blocos.

O caso evidencia uma questão frequentemente negligenciada: o planejamento não pode ignorar as diferenças entre centros urbanos consolidados e territórios de difícil atendimento.

Contudo, prazos mais longos devem vir acompanhados de metas intermediárias verificáveis. Caso contrário, a dilação contratual pode representar apenas o adiamento do déficit.

Rondônia: quando a concessão não atrai investidores

A dificuldade de estruturar projetos economicamente viáveis ficou evidente em Rondônia.

Em setembro de 2026, a licitação para concessão regionalizada de água e esgoto não recebeu propostas e foi declarada deserta.

O projeto abrangia 40 municípios e previa cerca de R$ 4,2 bilhões em investimentos de capital ao longo de 35 anos, conforme informações do BNDES.

A ausência de interessados não significa que a infraestrutura seja desnecessária. O episódio indica que a atratividade de um contrato precisa ser compatível com os riscos que o investidor terá de assumir.

Entre os elementos que merecem reavaliação estão a confiabilidade dos dados operacionais, as garantias contratuais, o cronograma de obras, a sustentabilidade tarifária e a repartição de responsabilidades entre poder concedente e concessionária.

A lição vale também para prestadores públicos: projetos tecnicamente necessários podem permanecer sem execução quando não apresentam condições financeiras, institucionais e operacionais consistentes.

O que o mundo ensina sobre universalização do esgoto

Chile: regulação e tratamento quase integral do esgoto coletado

O Chile oferece um exemplo internacional relevante de organização da prestação urbana dos serviços.

Segundo a associação chilena Andess, o setor regulado apresenta aproximadamente 98% de cobertura urbana de alcantarillado — equivalente à rede de esgotamento sanitário — e 99,9% de tratamento das águas residuárias coletadas pelas empresas.

Os indicadores se referem ao universo urbano atendido pelas concessionárias e não devem ser confundidos com acesso universal de toda a população rural do país.

A experiência chilena combina concessões, fiscalização setorial, obrigações de investimento e mecanismos regulatórios próprios.

A principal lição não está simplesmente na participação privada, mas na integração entre responsabilidades contratuais, regulação, financiamento e desempenho operacional.

Para o Brasil, o aprendizado é a necessidade de coordenar a expansão das redes com a capacidade efetiva de tratamento, evitando infraestrutura construída sem utilização suficiente.

Banco Mundial: conectar imóveis pode ser tão importante quanto construir redes

O Banco Mundial publicou, em 2020, o estudo Connecting the Unconnected, dedicado a estratégias para conectar famílias às redes coletoras já disponíveis.

A publicação reúne experiências de diferentes países, incluindo Brasil e Colômbia.

O diagnóstico é especialmente relevante para companhias que possuem redes disponíveis, mas enfrentam baixa adesão.

Entre as barreiras identificadas estão custos de adaptação das instalações internas, restrições econômicas das famílias, dificuldades de informação e falta de articulação institucional.

O Banco Mundial destaca que a baixa quantidade de ligações pode comprometer o aproveitamento das estações de tratamento e reduzir a sustentabilidade financeira dos sistemas.

As respostas envolvem comunicação comunitária, programas de conexão, assistência técnica e mecanismos de apoio financeiro aos usuários elegíveis.

O estudo também examina soluções de esgotamento condominial, abordagem desenvolvida no Brasil que utiliza traçados e arranjos coletivos adaptados à configuração dos imóveis.

A tecnologia pode reduzir a extensão e a profundidade de determinadas redes, mas sua adoção depende de projeto adequado, participação comunitária e responsabilidades de manutenção bem definidas.

A experiência internacional reforça uma conclusão: não existe universalização eficiente quando a engenharia de expansão opera desconectada da gestão de usuários.

O desafio comercial que pode comprometer os investimentos

A universalização do esgoto costuma ser discutida predominantemente sob a perspectiva de engenharia e financiamento.

Entretanto, a gestão comercial representa uma etapa decisiva da expansão.

Quando uma rede é disponibilizada, diversas atividades precisam ocorrer para transformar a infraestrutura em atendimento efetivo.

É necessário identificar os imóveis beneficiados, verificar a existência de ligações, atualizar o cadastro, orientar os moradores e tratar os casos de impossibilidade técnica ou econômica.

A NR 8/2024 estabelece responsabilidades relacionadas à conexão dos usuários e ao levantamento das edificações que permanecem desconectadas.

A norma prevê que o prazo fixado pelo titular ou regulador para conexão à rede disponível não seja superior a um ano, observadas as condições aplicáveis.

Também admite a possibilidade de gratuidade da conexão de esgoto para famílias de baixa renda, conforme as condições jurídicas e econômico-financeiras pertinentes.

Isso exige atuação coordenada entre os setores comercial, operacional, técnico, jurídico e de relacionamento com clientes.

Um cadastro desatualizado pode impedir a identificação correta do universo de imóveis conectáveis. Uma campanha de comunicação insuficiente pode reduzir a adesão. Uma política de cobrança mal explicada pode gerar resistência dos moradores.

E a ausência de acompanhamento das conexões factíveis pode provocar desperdício de capacidade instalada.

O efeito financeiro das ligações não realizadas

Quando uma rede foi construída, parte relevante do investimento já ocorreu. Se os imóveis não são conectados, a concessionária pode permanecer com custos de manutenção e depreciação sem realizar integralmente a receita prevista e o benefício sanitário esperado.

Esse desequilíbrio compromete o retorno econômico dos investimentos.

Além disso, uma estação de tratamento projetada para determinada vazão pode funcionar muito abaixo da capacidade prevista, elevando custos unitários e exigindo ajustes operacionais.

Por outro lado, a ativação regular de ligações existentes pode melhorar a utilização da infraestrutura, ampliar a receita recorrente e contribuir para a sustentabilidade financeira do serviço.

Isso não significa que toda ligação potencial represente receita adicional automática. A efetiva cobrança depende das condições do serviço, das regras regulatórias, do enquadramento tarifário e da situação de cada usuário.

Mas indica que a estratégia de universalização precisa tratar as conexões domiciliares como parte integrante do investimento — e não como atividade secundária após a entrega da obra.

Soluções alternativas podem acelerar o atendimento?

Nem toda localidade terá viabilidade técnica e econômica para receber imediatamente sistemas convencionais extensos de coleta e transporte de esgoto.

Áreas rurais, comunidades isoladas e regiões com baixa densidade podem demandar soluções diferentes.

A própria NR 8/2024 admite soluções alternativas adequadas, quando não houver disponibilidade de rede pública, desde que previstas em norma da entidade reguladora competente.

Essas alternativas podem incluir sistemas descentralizados de tratamento, soluções individuais adequadas e outras tecnologias compatíveis com as condições sanitárias, ambientais e territoriais.

Entretanto, é necessário evitar um erro de interpretação: qualquer fossa ou dispositivo instalado não representa, automaticamente, solução adequada para fins de universalização.

O desempenho sanitário, o projeto, a construção, a manutenção e a fiscalização precisam atender aos critérios técnicos e regulatórios aplicáveis.

Uma solução descentralizada sem manutenção pode representar risco ambiental significativo.

Portanto, a decisão tecnológica deve considerar não apenas o custo inicial, mas também o custo de operação ao longo da vida útil, a responsabilidade pela manutenção, a acessibilidade das equipes e a capacidade de monitoramento.

O que gestores devem acompanhar a partir de agora

A projeção da ABDIB pode ser transformada em uma ferramenta objetiva de gestão.

Em vez de acompanhar apenas o investimento executado, companhias e titulares dos serviços podem estruturar um painel integrado com indicadores de engenharia, operação, comercial e regulação.

Sete ações merecem prioridade:

  1. Mapear o déficit por município e setor censitário. Identificar domicílios sem cobertura, com rede disponível e sem conexão, além de situações de tratamento inadequado, observando os critérios oficiais.
  2. Revisar o cronograma de investimentos. Diferenciar projetos previstos, contratados, licenciados, em execução e efetivamente entregues.
  3. Criar metas de conexão domiciliar. Acompanhar imóveis conectáveis, notificações, pedidos de ligação, conexões concluídas e impedimentos identificados.
  4. Monitorar as estações de tratamento. Comparar capacidade instalada, vazões recebidas, eficiência de remoção de poluentes, consumo de energia e conformidade dos efluentes.
  5. Integrar as equipes comerciais e operacionais. Garantir que a conclusão de uma obra seja seguida de cadastro atualizado, comunicação aos usuários e acompanhamento da entrada em operação.
  6. Validar a qualidade dos dados. Conciliar cadastro técnico, cadastro comercial, informações operacionais e indicadores declarados ao SINISA e às entidades reguladoras.
  7. Reavaliar projetos de difícil viabilização. Estudar regionalização, soluções descentralizadas, mecanismos de apoio à população vulnerável e diferentes fontes de financiamento.

A efetividade dessas medidas depende de responsáveis definidos, prazos, orçamento e acompanhamento executivo periódico.

O que pode dar errado até 2033

A ampliação dos investimentos não elimina automaticamente os riscos de implementação.

Um dos principais está na capacidade de execução simultânea de grandes carteiras de obras.

Projetos de esgotamento sanitário exigem equipes especializadas, materiais, equipamentos, licenciamento ambiental, desapropriações ou servidões, compatibilização urbana e gestão de interferências.

Atrasos em qualquer dessas etapas podem comprometer a entrada em operação de sistemas completos.

Outro risco está na fragmentação das responsabilidades.

Quando uma empresa executa redes, outra opera estações e o município responde por determinadas intervenções urbanas, uma falha de coordenação pode atrasar o atendimento de milhares de imóveis.

Existe ainda o desafio da sustentabilidade econômico-financeira.

Contratos com investimentos elevados e receitas superestimadas podem enfrentar pressões sobre tarifas e necessidade de revisão do planejamento.

Por outro lado, exigir metas de expansão sem assegurar instrumentos financeiros adequados pode fragilizar a continuidade dos serviços.

A gestão de dados também merece atenção.

O Ranking ABES da Universalização do Saneamento 2026 avaliou 2.558 municípios com informações consideradas suficientes para o estudo. Apenas 94, equivalentes a 3,67%, alcançaram a categoria máxima da classificação.

Esse resultado não equivale diretamente ao número de municípios que cumprem a meta legal de esgotamento sanitário, pois a metodologia da ABES reúne diferentes dimensões do saneamento. Ainda assim, evidencia o tamanho dos desafios de infraestrutura e gestão.

A entidade também ressalta que alterações metodológicas na transição do SNIS para o SINISA exigem cautela nas comparações históricas.

Para os profissionais responsáveis pelos indicadores, a confiabilidade das informações será tão importante quanto a precisão das projeções.

As oportunidades que podem surgir para o setor

O esforço de universalização deverá ampliar a demanda por competências técnicas que vão além das atividades tradicionais de construção.

A gestão digital de ativos, o georreferenciamento de redes, a automação de elevatórias, o monitoramento remoto de vazões e a análise de dados operacionais poderão apoiar decisões mais rápidas.

A utilização de sistemas de informação geográfica associados aos cadastros comerciais poderá permitir a identificação de imóveis ainda não conectados, cruzando disponibilidade da rede, localização e situação cadastral.

Ferramentas analíticas também poderão apoiar a priorização de investimentos por custo de atendimento, redução de carga poluidora e impacto social.

Na operação, métodos de manutenção preditiva, inspeção de coletores e monitoramento energético poderão contribuir para melhorar o desempenho dos ativos existentes.

Contudo, essas tecnologias precisam ser avaliadas por resultados efetivos.

Adquirir plataformas digitais sem integração de dados, indicadores consistentes e equipes capacitadas dificilmente produzirá os ganhos esperados.

A inovação será mais relevante quando permitir responder perguntas concretas: qual obra deve ser priorizada, onde existe capacidade ociosa, quais imóveis ainda podem ser conectados e qual intervenção gera maior benefício por real investido?

Lições para quem trabalha no saneamento

A projeção de que somente sete unidades federativas alcançarão a universalização do esgoto até 2033 não deve ser interpretada como uma sentença definitiva.

Ela representa um alerta sobre a necessidade de melhorar decisões em todas as etapas da prestação dos serviços.

Para profissionais de engenharia, a principal lição é dimensionar soluções adequadas às características dos territórios e garantir que os sistemas sejam completos e operáveis.

Para equipes de operação, o desafio é assegurar disponibilidade, eficiência do tratamento, manutenção e conformidade ambiental.

Para a gestão comercial, a prioridade está em transformar redes disponíveis em atendimento efetivo, com cadastros confiáveis, processos de conexão eficientes e relacionamento transparente com os usuários.

Para especialistas em regulação, será fundamental acompanhar metas progressivas, qualidade dos indicadores, sustentabilidade econômico-financeira e cumprimento das obrigações estabelecidas.

Para gestores executivos, a principal competência será integrar todas essas áreas em um planejamento que produza resultados verificáveis.

A experiência mostra que uma companhia não universaliza seus serviços apenas com orçamento aprovado ou obras inauguradas. A universalização ocorre quando infraestrutura, operação, financiamento, regulação e atendimento funcionam de maneira coordenada.

Conclusão: a universalização será decidida na execução

O Brasil ampliou os investimentos e estruturou novos modelos contratuais desde a atualização do Marco Legal do Saneamento. Mesmo assim, as projeções disponíveis indicam que a trajetória atual poderá ser insuficiente para alcançar as metas nacionais em 2033.

A constatação exige decisões mais qualificadas, não conformismo.

O debate sobre a universalização do esgoto precisa avançar da quantidade de recursos anunciados para a capacidade de transformar esses recursos em serviços efetivamente prestados.

O setor terá de melhorar a qualidade dos projetos, a estruturação econômica das concessões, a execução de obras, a coordenação entre agentes e a capacidade de atender territórios de menor viabilidade financeira.

Também será necessário aproveitar melhor a infraestrutura já instalada, ampliar conexões domiciliares e assegurar que os volumes coletados recebam tratamento adequado.

A verdadeira medida de sucesso não será o número de quilômetros de tubulação construídos, mas a quantidade de pessoas que passaram a receber um serviço contínuo, adequado, ambientalmente seguro e economicamente sustentável.

A universalização do esgoto até 2033 continua sendo uma referência estratégica para o setor. O que determinará sua realização será a capacidade de transformar metas legais e planos de investimento em resultados concretos, município por município.

Para os profissionais de saneamento, essa transformação começa nas decisões tomadas diariamente: um projeto corretamente dimensionado, um cadastro atualizado, uma ligação executada, uma estação funcionando dentro dos parâmetros ou um investimento direcionado ao local onde produzirá maior resultado.

É nessa combinação de engenharia, gestão, operação e responsabilidade profissional que está a maior oportunidade para acelerar o saneamento brasileiro.

Fontes e referências

  1. Valor Econômico — Só sete Estados devem universalizar esgoto até 2033. 6 de outubro de 2026. Reportagem original.
  2. ABDIB — Manifestação institucional sobre a projeção de universalização do esgoto até 2033. Outubro de 2026. Publicação oficial.
  3. Ministério das Cidades — Relatório dos Serviços de Esgotamento Sanitário — SINISA 2025, dados de 2024. Dezembro de 2025. Relatório PDF.
  4. ANA — Resolução nº 192/2024 — Norma de Referência nº 8/2024. 8 de maio de 2024. Consultar norma.
  5. ANA — Resolução nº 301/2026. 14 de agosto de 2026. Consultar resolução.
  6. Instituto Trata Brasil — Faltam R$ 431 bilhões para o Brasil alcançar a universalização do saneamento até 2033. 16 de julho de 2026. Consultar levantamento.
  7. ABES — Ranking ABES 2026 mostra que apenas 3,67% dos municípios avaliados estão próximos da universalização do saneamento. 12 de junho de 2026. Consultar resultados.
  8. Sabesp — Perfil Corporativo: investimentos e antecipação das metas de universalização. Consulta em outubro de 2026. Informações institucionais.
  9. Sabesp — Indicadores de Universalização — Fator U. Atualização de setembro de 2026. Painel de universalização.
  10. BNDES — Com concessão estruturada pelo BNDES, Pátria e Consórcio BRK-Acciona vencem leilão de saneamento em Pernambuco. 18 de dezembro de 2025. Notícia institucional.
  11. BNDES — Governo do Pará abre licitação para concessão de saneamento. 27 de dezembro de 2024. Projeto.
  12. Governo de Rondônia — Concorrência Pública Internacional nº 90496/2025. Setembro de 2026. Documentação oficial.
  13. Banco Mundial — Connecting the Unconnected: Approaches for Getting Households to Connect to Sewerage Networks. 19 de novembro de 2020. Estudo.
  14. Andess (Chile) — Nuestra Industria: indicadores de cobertura e tratamento. Consulta em outubro de 2026. Indicadores setoriais.
  15. Codevasf — Ligações intradomiciliares: ampliação do acesso ao saneamento. 22 de abril de 2026. Publicação.

Nota de apuração: a página integral do Valor Econômico apresentou restrição de acesso. As projeções atribuídas à ABDIB foram confrontadas com manifestação pública da associação e reprodução da reportagem creditada ao Valor. Não foi localizada a planilha metodológica integral da projeção. O artigo distingue metas legais, indicadores observados, investimentos previstos e resultados efetivamente alcançados.

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