Noventa e seis açudes monitorados no Nordeste estavam com menos de 20% da capacidade de armazenamento em setembro de 2026. O dado, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), ganha importância diante da intensificação do El Niño, fenômeno climático que pode reduzir as chuvas, elevar as temperaturas e aumentar a pressão sobre os sistemas de abastecimento de água.
O alerta não se limita à disponibilidade nos reservatórios. Para as companhias de saneamento, o cenário pode significar aumento do consumo, maior necessidade de bombeamento, redução da vazão captável, elevação dos custos operacionais e dificuldades para manter a regularidade do abastecimento.
Na Bahia, a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) anunciou, em 8 de outubro, o reforço das medidas de preparação para enfrentar os possíveis efeitos do fenômeno. Entre as iniciativas informadas estão a aquisição de ferramentas de monitoramento de mananciais, obras de infraestrutura hídrica, integração de sistemas, perfuração de poços, credenciamento antecipado de carros-pipa e combate ao desvio clandestino de água.
A movimentação ocorre em um momento de elevada preocupação meteorológica. Em boletim publicado em 8 de outubro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou probabilidade superior a 83% de um El Niño forte a muito forte persistir durante o trimestre de janeiro a março de 2027.
Mas existe uma questão ainda mais relevante para os gestores: quanto da segurança do abastecimento depende das chuvas e quanto pode ser protegido por decisões operacionais tomadas antes da crise?
A resposta envolve muito mais do que construir novos reservatórios ou recomendar economia de água à população.
O que está acontecendo com os mananciais brasileiros?
O boletim da ANA publicado em 30 de setembro apresentou um quadro que merece atenção especial das companhias do Nordeste.
Em 24 de setembro, o armazenamento equivalente dos reservatórios monitorados na região estava em 47,2% da capacidade total, abaixo dos 50% registrados em agosto.
Embora o percentual regional não represente, isoladamente, uma situação generalizada de colapso, existem diferenças importantes entre os sistemas hídricos.
Segundo a ANA, 96 açudes apresentavam armazenamento inferior a 20%, enquanto 12 sistemas hídricos locais estavam classificados em Estado Hidrológico Vermelho.
Outro indicador chama atenção: em agosto de 2026, a seca grave atingia 16% do território nordestino, segundo o Monitor de Secas.
Esses números mostram por que a avaliação regional precisa ser complementada pelo acompanhamento individual dos mananciais.
Um reservatório de grande capacidade pode apresentar armazenamento confortável enquanto pequenos açudes responsáveis pelo abastecimento de municípios próximos enfrentam dificuldades.
Também é necessário diferenciar água armazenada de água efetivamente disponível para captação. Restrições ambientais, usos compartilhados, qualidade da água, posição das tomadas de captação e limitações operacionais podem reduzir o volume aproveitável.
É justamente essa diferença que transforma o monitoramento dos mananciais em uma atividade estratégica.
A ANA também informou que o Nordeste já apresentava impactos de seca de curto e longo prazo. Em algumas localidades, os estoques hídricos não haviam se recuperado completamente de períodos anteriores de estiagem.
Isso aumenta o risco de que uma nova sequência de chuvas abaixo da média provoque dificuldades mais rapidamente.
Como o El Niño interfere no abastecimento de água?
O El Niño corresponde ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, associado a alterações na circulação atmosférica.
Essas mudanças podem modificar a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, o fenômeno costuma estar associado ao aumento da probabilidade de chuvas acima da média em partes do Sul e à redução das precipitações em áreas do Norte e Nordeste. Entretanto, os efeitos variam conforme a região, a estação do ano e a interação com outros sistemas meteorológicos.
Por isso, uma previsão sazonal não significa que todas as localidades apresentarão o mesmo comportamento.
Para o saneamento, três mecanismos merecem atenção.
1. Menor recarga dos mananciais
Quando as chuvas ficam abaixo da média, a entrada de água em rios, lagos e reservatórios pode diminuir.
Isso reduz a capacidade de reposição dos volumes utilizados para abastecimento humano, irrigação, atividades industriais e outros usos.
Em sistemas dependentes de pequenos reservatórios, a redução prolongada das afluências pode comprometer rapidamente a autonomia operacional.
2. Aumento da evaporação e da demanda
Temperaturas elevadas aumentam a demanda evaporativa da atmosfera e podem intensificar a perda de água em reservatórios e solos.
Ao mesmo tempo, o calor tende a elevar determinados usos domésticos e comerciais, principalmente aqueles relacionados à higiene, limpeza, refrigeração e irrigação.
O resultado potencial é um desequilíbrio: menos disponibilidade hídrica em determinados mananciais e maior demanda nos sistemas distribuidores.
3. Maior dificuldade para manter a qualidade da água
A redução do volume dos mananciais também pode afetar características físico-químicas e biológicas da água bruta.
Concentração de determinados constituintes, alterações de turbidez, proliferação de algas e mudanças na disponibilidade de oxigênio são situações que podem exigir adaptações no tratamento, dependendo das características do corpo hídrico.
Esses efeitos não são automáticos nem uniformes, mas justificam o reforço do monitoramento.
Para operadores de estações de tratamento de água (ETAs), a questão central passa a ser a capacidade de identificar alterações e ajustar os processos antes que comprometam a produção.
Embasa amplia preparação: o que as medidas representam na prática?
A comunicação divulgada pelo Governo da Bahia em 8 de outubro informa que a Embasa está intensificando a preparação dos sistemas de abastecimento diante dos possíveis impactos do El Niño.
O presidente da companhia, Gildeone Almeida, destacou a aquisição de novas ferramentas para monitorar mananciais e antecipar variações nas condições hídricas.
A empresa também informou a intensificação de intervenções estruturais e de medidas operacionais preventivas.
Essas iniciativas possuem funções distintas dentro de uma estratégia de segurança hídrica.
Monitoramento de mananciais: permite acompanhar níveis, vazões e tendências de disponibilidade, oferecendo informações para decisões antecipadas.
Construção de barragens e integração de sistemas: pode ampliar a capacidade de armazenamento e criar alternativas de abastecimento, dependendo da viabilidade hídrica, ambiental e econômica de cada empreendimento.
Perfuração de poços: pode diversificar as fontes de captação, desde que sejam observadas a disponibilidade dos aquíferos, a qualidade da água e as exigências de outorga.
Credenciamento antecipado de carros-pipa: contribui para estruturar uma alternativa emergencial antes que a necessidade de abastecimento complementar se materialize.
Combate ao furto de água em adutoras: busca evitar que volumes destinados ao abastecimento sejam desviados irregularmente ao longo dos sistemas.
Há uma diferença importante entre anunciar medidas de preparação e comprovar seus resultados.
A informação divulgada pela Embasa confirma a existência dessas frentes de atuação, mas não apresenta, nessa publicação, quantitativos consolidados de investimentos, ampliação de capacidade, redução de perdas ou volumes adicionais disponibilizados.
Consequentemente, ainda não é possível dimensionar o resultado operacional dessas ações apenas com base na notícia.
O aprendizado para outras companhias está, sobretudo, na combinação entre infraestrutura, monitoramento, fiscalização e contingência.
Nenhuma dessas medidas, isoladamente, elimina a vulnerabilidade climática.
A principal oportunidade pode estar na água que já foi produzida
Quando a disponibilidade de água bruta diminui, ampliar a produção nem sempre é a alternativa mais rápida ou economicamente viável.
Em muitos sistemas, a recuperação de água perdida pode proporcionar ganhos relevantes de disponibilidade, sem exigir imediatamente uma nova captação.
Nesse contexto, o combate às perdas assume importância ainda maior.
As perdas de água são normalmente divididas em duas categorias.
Perdas reais: correspondem à água efetivamente perdida por vazamentos em redes, adutoras, ramais, reservatórios e outros componentes.
Perdas aparentes: estão relacionadas a volumes consumidos, mas não adequadamente registrados ou contabilizados, como os decorrentes de erros de medição, ligações clandestinas e falhas cadastrais.
Essa distinção é fundamental.
A redução de vazamentos físicos pode diminuir diretamente a quantidade de água que precisa ser captada, tratada e bombeada para atender a uma mesma demanda.
Já a correção de um hidrômetro com submedição melhora a contabilização e pode aumentar o faturamento, mas não significa necessariamente redução imediata do volume físico consumido.
Em situações de desvio clandestino, a regularização pode permitir controlar um consumo anteriormente desconhecido, com possíveis benefícios para a disponibilidade e para o equilíbrio comercial.
Quanto representa uma pequena redução de perdas?
Considere um sistema hipotético que disponibiliza 100 mil metros cúbicos de água por dia.
Uma redução de perdas reais equivalente a 5% desse volume representaria uma economia potencial de 5 mil metros cúbicos diários.
São 5 milhões de litros por dia.
Em 30 dias, o volume acumulado chegaria a 150 milhões de litros.
Trata-se de um exercício ilustrativo, não de um resultado atribuído a alguma companhia. A economia efetiva dependeria das condições hidráulicas, da redução física comprovada e da resposta operacional do sistema.
O exemplo demonstra, entretanto, por que programas de redução de perdas devem ser avaliados também pela contribuição à segurança hídrica, e não somente pelo retorno financeiro.
O que a regulação brasileira determina sobre perdas de água?
Em dezembro de 2025, a ANA aprovou a Norma de Referência nº 15/2025, por meio da Resolução ANA nº 275.
A norma estabelece diretrizes para a gestão da redução progressiva e do controle de perdas nos sistemas de distribuição de água potável.
Entre seus elementos estão o diagnóstico padronizado, o balanço hídrico, a utilização de indicadores e a elaboração de planos de gestão e monitoramento.
O balanço hídrico é uma ferramenta que organiza os volumes de água que entram no sistema e suas diferentes destinações, permitindo avaliar consumo autorizado e perdas.
A norma também estabelece responsabilidades para prestadores, titulares e entidades reguladoras infranacionais, observadas as condições de aplicação e os atos regulatórios pertinentes.
Para os gestores, o avanço está em transformar o combate às perdas em uma atividade planejada, mensurável e acompanhada regulatoriamente.
No contexto do El Niño, essa organização pode oferecer uma vantagem adicional: identificar onde intervenções de curto prazo conseguem preservar volumes significativos de água.
A companhia que conhece as perdas por setor possui melhores condições de priorizar pesquisas de vazamentos, manutenção de redes, substituições de equipamentos e ações de fiscalização.
Por outro lado, um índice global de perdas, sem detalhamento territorial e operacional, dificilmente indica onde agir primeiro.
Como o Brasil está enfrentando problemas semelhantes?
Sabesp: operação dos mananciais conforme faixas de armazenamento
A experiência do Sistema Cantareira, responsável por parcela importante do abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, oferece um exemplo de gestão vinculada a regras operacionais.
Em 31 de agosto de 2026, o Cantareira registrava 32,99% de seu volume útil e permaneceu em setembro na Faixa de Alerta.
Após a recuperação do armazenamento, o sistema chegou a 41,10% em 30 de setembro e passou a operar na Faixa de Atenção em outubro.
Conforme as regras divulgadas pela ANA e pela SP Águas, a retirada autorizada pela Sabesp passou para até 31 metros cúbicos por segundo em outubro, ante o limite de 27 metros cúbicos por segundo da Faixa de Alerta. Em condições de normalidade, o limite pode chegar a 33 metros cúbicos por segundo.
Os valores representam limites regulatórios de retirada, não necessariamente a vazão efetivamente captada em cada momento.
O caso demonstra a importância de regras previamente definidas para orientar a operação conforme a disponibilidade hídrica.
A lição é relevante para sistemas de diferentes portes: decisões sobre captação, transferência de água e gestão da demanda não deveriam depender exclusivamente da percepção de que o reservatório está baixando.
É mais seguro trabalhar com faixas, indicadores e procedimentos associados a cada nível de risco.
Bahia: prevenção também depende de comunicação territorial
A preparação no estado ultrapassa a operação dos sistemas de abastecimento.
Em 10 de outubro, o Governo da Bahia informou a intensificação do envio de alertas preventivos sobre os efeitos do El Niño aos cidadãos dos 417 municípios baianos, utilizando o WhatsApp por meio do portal de serviços do estado.
A iniciativa reúne órgãos estaduais de defesa civil, meio ambiente e comunicação.
Os municípios foram organizados em três faixas de prioridade: 142 na primeira, 150 na segunda e 125 na terceira.
Os alertas divulgados estão relacionados principalmente aos riscos associados ao calor, à baixa umidade e aos incêndios florestais, não constituindo, por si só, um sistema de avisos sobre interrupções de abastecimento.
Ainda assim, a metodologia oferece um aprendizado para o saneamento.
Companhias podem utilizar critérios territoriais semelhantes para segmentar campanhas de uso consciente, comunicar riscos, identificar consumidores vulneráveis e priorizar localidades com menor autonomia hídrica.
Em vez de campanhas genéricas para toda a população, a comunicação pode ser direcionada às condições de cada sistema.
O que o mundo ensina sobre gestão da água em períodos críticos?
Singapura: tecnologia para transformar consumo em informação
Singapura desenvolveu um modelo de segurança hídrica baseado na diversificação das fontes de abastecimento.
Sua agência nacional de água, a PUB, utiliza a estratégia conhecida como Four National Taps, que combina captações locais, importação de água, reúso avançado e dessalinização.
A diversificação busca reduzir a dependência de uma única fonte.
Entretanto, a experiência de Singapura não se limita à expansão da oferta.
O país também investe na gestão inteligente do consumo.
Segundo a PUB, aproximadamente 300 mil hidrômetros inteligentes foram implantados na primeira fase de seu programa de medição.
Esses equipamentos permitem transmitir dados remotamente e disponibilizar informações detalhadas sobre consumo aos usuários.
O sistema também pode emitir alertas relacionados a vazamentos e padrões anormais de utilização.
A aplicação prática é importante: um consumidor que identifica rapidamente um vazamento interno pode corrigir o problema antes que o desperdício se prolongue.
Para as companhias, o monitoramento mais frequente permite compreender melhor padrões de demanda e apoiar o relacionamento com os clientes.
Isso não significa que qualquer investimento em telemedição produzirá automaticamente economia de água.
Os resultados dependem da qualidade dos dados, da integração dos sistemas, da precisão dos equipamentos e da capacidade de transformar alertas em ações.
O exemplo de Singapura mostra que medição inteligente é mais valiosa quando associada à gestão da demanda, e não apenas à automação da leitura para faturamento.
Cidade do Cabo: a experiência de quase ficar sem água
A crise hídrica enfrentada pela Cidade do Cabo, na África do Sul, especialmente entre 2017 e 2018, tornou-se uma referência internacional sobre os riscos da dependência de reservatórios em condições de seca prolongada.
A cidade chegou a trabalhar com o conceito de Day Zero, expressão utilizada para representar o cenário de restrições extremas diante do esgotamento crítico das reservas.
A experiência impulsionou uma estratégia que combina diversificação de fontes, uso eficiente da água, gestão de pressões, redução de vazamentos e participação dos consumidores.
No plano apresentado pela administração municipal, uma carteira de projetos contemplava a ampliação da oferta em mais de 300 milhões de litros por dia, com custo estimado de aproximadamente 5,7 bilhões de rands.
Esses números correspondem à estimativa do plano divulgado historicamente pela cidade e não devem ser interpretados como confirmação de investimento já executado ou de capacidade atualmente entregue.
O aspecto mais importante da estratégia é reconhecer que a segurança hídrica depende tanto da infraestrutura quanto da capacidade de administrar a demanda.
A Cidade do Cabo também passou a incorporar o reúso, a água subterrânea e a dessalinização como alternativas para diversificar o abastecimento.
A comparação com o Nordeste brasileiro exige cautela, pois as características climáticas, institucionais, econômicas e de infraestrutura são diferentes.
Mesmo assim, uma lição pode ser adaptada: preparar alternativas de abastecimento somente depois do agravamento da escassez tende a reduzir o tempo disponível para decisões técnicas e investimentos adequados.
Quais são os impactos financeiros e comerciais do El Niño?
A intensificação de eventos climáticos pode afetar o desempenho das companhias em diferentes dimensões.
Custos operacionais
A utilização de mananciais mais distantes, o aumento de bombeamento, a necessidade de tratamentos adicionais e o transporte emergencial de água podem elevar os custos.
Além disso, determinados sistemas podem enfrentar maior necessidade de manutenção em equipamentos submetidos a condições operacionais diferentes das habituais.
Investimentos e gestão de ativos
Obras de integração, novas adutoras, reservação e sistemas alternativos exigem planejamento, licenciamento, financiamento e análise de viabilidade.
Por isso, soluções emergenciais e investimentos estruturantes devem ser tratados de maneira distinta.
Faturamento e arrecadação
A alteração da disponibilidade de água pode provocar efeitos diferentes sobre as receitas.
Em determinados locais, temperaturas elevadas podem aumentar o consumo medido.
Por outro lado, interrupções prolongadas de abastecimento podem reduzir os volumes faturáveis, ampliar reclamações e gerar disputas comerciais.
Não existe, portanto, uma relação automática entre calor, maior consumo e aumento de receita.
Atendimento e relacionamento com clientes
O crescimento das reclamações relacionadas à falta de água, baixa pressão e alterações de qualidade pode pressionar os canais de atendimento.
Nessas situações, a comunicação preventiva e a transparência sobre as condições do abastecimento tornam-se importantes para reduzir incertezas.
O desempenho comercial precisa ser analisado em conjunto com os indicadores operacionais.
Uma localidade pode apresentar aumento de reclamações não porque houve deterioração do atendimento, mas porque sofreu alterações importantes nas condições de fornecimento.
O desafio gerencial consiste em identificar a origem dos problemas e responder adequadamente.
Sete ações que gestores de saneamento podem aplicar
A preparação para um período de maior risco climático não precisa começar necessariamente com grandes obras.
Existem medidas de gestão que podem ser estruturadas a partir das informações disponíveis em cada companhia.
1. Classificar os sistemas por vulnerabilidade hídrica. Avaliar dependência de mananciais, armazenamento disponível, capacidade de produção, autonomia dos reservatórios e possibilidades de transferência de água entre sistemas.
2. Construir cenários de oferta e demanda. Simular situações de redução das vazões de entrada, aumento do consumo e alteração do comportamento dos reservatórios, considerando a incerteza das projeções meteorológicas.
3. Priorizar intervenções de redução de perdas reais. Concentrar esforços nos setores em que vazamentos representam maior impacto sobre a disponibilidade hídrica e em que o custo-benefício das intervenções é mais favorável.
4. Monitorar continuamente grandes consumidores e pontos críticos. Avaliar padrões de consumo, capacidade de atendimento, utilização irregular e riscos associados a demandas concentradas.
5. Preparar alternativas de abastecimento. Revisar planos de contingência, rotas logísticas, equipamentos, disponibilidade de fontes alternativas e contratos necessários à mobilização emergencial.
6. Integrar operação, comercial e comunicação. Construir protocolos que permitam comunicar alterações de pressão, interrupções e medidas de contingência de maneira antecipada, consistente e territorializada.
7. Criar indicadores para acompanhar o resultado das ações. Medir a evolução das perdas reais, a água efetivamente economizada, a continuidade do abastecimento, as reclamações, os custos extraordinários e a autonomia dos sistemas.
Essas ações precisam ser adaptadas às condições locais, às responsabilidades contratuais e às competências dos reguladores.
O mais importante é que as decisões estejam associadas a informações técnicas e resultados verificáveis.
O que pode dar errado na preparação para a estiagem?
Um erro recorrente na gestão de crises hídricas é concentrar praticamente todos os esforços na ampliação emergencial da oferta.
Novas fontes podem ser necessárias, mas sua implantação pode exigir tempo, investimentos e autorizações que não estão imediatamente disponíveis.
Outro risco é interpretar o volume total dos reservatórios de uma região como indicador suficiente para avaliar todos os sistemas.
A disponibilidade de água para determinado município depende do manancial específico, das estruturas de captação, da capacidade de produção, das regras de uso e das condições da rede distribuidora.
Também é necessário cuidado com medidas de redução de pressão.
Embora possam reduzir vazamentos em determinadas condições, intervenções inadequadas podem comprometer o fornecimento em áreas elevadas ou distantes, provocar intermitências e aumentar riscos sanitários quando a integridade hidráulica é prejudicada.
A utilização de carros-pipa também exige planejamento. A solução depende de origem regular e segura da água, controle sanitário, logística, rastreabilidade e fiscalização.
A qualidade da água deve continuar atendendo às exigências aplicáveis, incluindo as disposições da Portaria GM/MS nº 888/2021 e suas atualizações.
A emergência hídrica não elimina a responsabilidade pelo fornecimento de água segura.
Em todos esses casos, o conhecimento dos operadores, engenheiros, técnicos e gestores é determinante para evitar que medidas destinadas a solucionar um problema produzam novas dificuldades.
Oportunidade pouco percebida: antecipar a crise pode custar menos do que enfrentá-la
O Atlas Águas, publicado pela ANA em 2021, estimou a necessidade de R$ 110 bilhões em investimentos até 2035 para fortalecer a segurança hídrica do abastecimento urbano brasileiro.
O valor abrangia diferentes frentes, como infraestrutura de produção e distribuição, reposição de ativos, controle de perdas e melhorias de gestão.
Trata-se de uma estimativa elaborada naquele horizonte de planejamento, não de um valor atualizado para outubro de 2026.
O levantamento ajuda a compreender uma questão estrutural: a segurança hídrica não depende exclusivamente de grandes empreendimentos de captação.
Investimentos em redes, reservação, automação, medição e controle operacional também integram a solução.
Em publicação de outubro de 2026, a ANA destacou que aproximadamente 22% dos municípios brasileiros apresentavam níveis baixo ou mínimo na dimensão humana do Índice de Segurança Hídrica, enquanto cerca de 58% estavam nessas faixas na dimensão de resiliência.
Esses indicadores reforçam que a vulnerabilidade pode estar relacionada não apenas à disponibilidade imediata de água, mas à capacidade de suportar situações adversas.
Para os profissionais do setor, isso abre espaço para projetos que integrem diferentes áreas.
Uma equipe de perdas pode atuar com engenheiros de produção para identificar os setores em que a recuperação de água proporciona maior benefício.
Profissionais comerciais podem utilizar dados de micromedição para identificar consumos anormais e orientar clientes.
Analistas de tecnologia podem desenvolver painéis que relacionem níveis dos mananciais, produção, distribuição, reclamações e demanda.
Gestores podem transformar essas informações em critérios de priorização de investimentos.
A principal mudança está em deixar de tratar a crise hídrica exclusivamente como um problema de captação.
Lições para quem trabalha no saneamento
A intensificação do El Niño em 2026 oferece aprendizados que podem permanecer relevantes mesmo depois do encerramento do fenômeno.
O primeiro é que a segurança hídrica começa pelo conhecimento dos sistemas. Sem informações confiáveis sobre disponibilidade, consumo e perdas, a capacidade de antecipação fica limitada.
O segundo é que as áreas operacionais e comerciais precisam trabalhar de forma integrada. O volume produzido, a água distribuída, o consumo medido e as reclamações dos clientes são partes de uma mesma realidade.
O terceiro é que a gestão de riscos precisa fazer parte da rotina. Planos de contingência não devem existir apenas para atender exigências formais; precisam ser conhecidos pelas equipes e testados em condições compatíveis com os cenários previstos.
O quarto é que o monitoramento climático precisa chegar às decisões cotidianas. Informações meteorológicas só produzem valor operacional quando ajudam a definir ações, prioridades e responsabilidades.
O quinto é que a experiência internacional oferece ferramentas, mas não soluções universais. Medição inteligente, diversificação de fontes e gestão de demanda precisam ser adaptadas às condições técnicas e econômicas de cada prestador.
Por fim, a experiência acumulada pelas equipes de campo deve ser tratada como informação estratégica.
Profissionais que conhecem o comportamento dos reservatórios, das elevatórias, dos setores de distribuição e das localidades mais vulneráveis podem identificar sinais de agravamento antes que apareçam nos indicadores consolidados.
Valorizar esse conhecimento significa integrá-lo aos processos de planejamento e tomada de decisão.
Conclusão: o El Niño pode acelerar uma mudança necessária na gestão da água
O avanço do El Niño em 2026 e as previsões para 2027 colocam a segurança hídrica novamente entre os principais desafios das companhias de saneamento.
Os dados sobre açudes com baixo armazenamento, as iniciativas preventivas anunciadas pela Embasa e as medidas de acompanhamento adotadas pela ANA demonstram a importância da preparação.
Entretanto, a principal lição vai além do fenômeno climático.
Uma companhia pode enfrentar dificuldades de abastecimento por falta de água, mas também pode ampliar sua vulnerabilidade quando não conhece adequadamente suas perdas, sua demanda e os limites de sua infraestrutura.
Os exemplos da Sabesp, de Singapura e da Cidade do Cabo demonstram que as respostas à escassez envolvem combinações distintas de governança, infraestrutura, eficiência e participação dos consumidores.
Não existe uma única solução capaz de substituir todas as demais.
Em algumas regiões, a prioridade estará na diversificação dos mananciais. Em outras, na recuperação de perdas físicas, na reservação ou na modernização dos sistemas.
O ponto comum é a necessidade de antecipar decisões.
Para os gestores e profissionais do saneamento, a questão estratégica deixa de ser apenas quanto tempo um reservatório conseguirá sustentar o abastecimento.
Passa a ser também quanto dessa autonomia pode ser ampliada com melhor gestão.
O El Niño é um fenômeno climático. A capacidade de enfrentar seus efeitos, porém, também depende da qualidade das decisões tomadas pelas companhias de saneamento.
Fontes e referências
ANA — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Painel El Niño, 4ª edição (30/09/2026): https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/ana-aponta-sin-com-65-9-do-volume-util-e-detalha-panorama-de-rios-vazoes-e-da-seca-na-4a-edicao-do-painel-el-nino/
Governo da Bahia / SECOM / Ascom Embasa. El Niño reforça importância do consumo consciente de água (08/10/2026): https://www.ba.gov.br/comunicacao/noticias/2026-10/384532/el-nino-reforca-importancia-do-consumo-consciente-de-agua
NOAA — Climate Prediction Center. ENSO Diagnostic Discussion (08/10/2026): https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.shtml
ANA. Plano de Preparação para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027 (14/09/2026): https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/ana-apresenta-plano-de-preparacao-para-o-enfrentamento-dos-impactos-do-el-nino-2026-2027-sobre-os-recursos-hidricos-do-brasil
Governo da Bahia / SECOM. Estado da Bahia intensifica alertas preventivos sobre o El Niño nos 417 municípios (10/10/2026): https://www.ba.gov.br/comunicacao/noticias/2026-10/384593/estado-da-bahia-intensifica-alertas-preventivos-sobre-o-el-nino-nos-417
ANA e SP Águas. Sistema Cantareira passará a operar na Faixa de Atenção em outubro (30/09/2026): https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/sistema-cantareira-passara-a-operar-na-faixa-de-atencao-em-outubro/
ANA. Resolução nº 275/2025 — Norma de Referência nº 15/2025 (18/12/2025): https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2025/275/
PUB — Singapore’s National Water Agency. Smart Water Meter Programme: https://www.pub.gov.sg/Public/KeyInitiatives/Smart-Water-Meter
PUB — Singapore’s National Water Agency. Singapore’s Water Loop: https://www.pub.gov.sg/Public/WaterLoop
City of Cape Town. Cape Town Water Strategy: https://www.capetown.gov.za/general/cape-town-water-strategy/
ANA. Água e segurança hídrica: integração entre infraestrutura, gestão e proteção dos ecossistemas (01/10/2026): https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/agua-e-seguranca-hidrica-integracao-entre-infraestrutura-gestao-e-protecao-dos-ecossistemas/
ANA. Atlas Águas: investimentos necessários para garantir abastecimento de água até 2035 (18/10/2021): https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/ana-aponta-acoes-e-investimentos-necessarios-em-todas-as-cidades-brasileiras-para-garantir-abastecimento-de-agua-ate-2035/
Ministério da Saúde — Vigiagua. Legislação sobre qualidade da água, incluindo Portaria GM/MS nº 888/2021: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/saude-ambiental/vigiagua/legislacao
Ministério das Cidades — SINISA. Resultados SINISA 2025, ano de referência 2024: https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/saneamento/sinisa/resultados-sinisa/resultados-sinisa-2025
Foto de capa: Barragem da Juliana. Thiago Vasconcelos/Ascom Embasa, via Governo da Bahia.



